Cláudio Abramo soube decifrar e revolucionar as regras do jogo da imprensa brasileira

Guilherme Sardas | 02/04/2013 14:00
Resumir a importância de um indivíduo em poucas páginas é fomentar uma injustiça, uma insuficiência. Em se tratando de alguém com a trajetória de Cláudio Abramo, é mergulhar neste abismo e construir um relato de falhas e lacunas. Mas é possível, porém, que se façam recortes, dos quais explodem algumas das facetas emblemáticas do homem.

Vítima de um infarte fulminante que interrompeu sua vida aos 64 anos, enquanto tomava café em sua residência na manhã de 14 de agosto de 1987, uma sexta-feira, o paulistano Abramo completaria 90 anos neste 6 de abril. São 26 anos de sua morte, 26 anos em que família, amigos e colegas – entre eles, a nata da imprensa nacional – pensam no que ele fez e deixou.

Ouvi-los falar dele e de seu legado é deparar-se, muitas vezes, com a veneração explícita. “Como faz falta” – ecoa, de muitos. Para outros, o nome suscita silêncio, contradições, jogando o entrevistado para dentro de si. “Quem foi Abramo? Para mim? Para nós? Para a imprensa?” Salta sempre, porém, um respeito indiscutível, uma admiração incomum também.
Crédito:Arquivo Pessoal
Abramo no Grand Canyon

A PRIMEIRA REGRA DO JOGO

Abramo mal frequentou a escola e passou longe de curso superior. Efeito de uma família de revolucionários trotskistas, espalhada pela repressão do Estado Novo, em 1935. Como diria em “A Regra do Jogo” [1988], biografia organizada pelo filho Cláudio Weber Abramo, era autodidata, com formação erigida dos clássicos: Shakespeare, Flaubert, Dostoiévski e farta literatura revolucionária. Só a base de um arcabouço interminável que chocou muitos de seus leitores e interlocutores.

Após estrear como jornalista no extinto Jornal de São Paulo, seria, mais tarde, o mais jovem secretário de redação da imprensa brasileira, aos 28 anos, no Estadão. Ali, faria sua “primeira revolução” dentro de uma redação. “Cláudio foi um artista muito talentoso, chegou a ganhar um prêmio nacional de desenho. Então, seus jornais foram modelos nesse sentido. Foi ele quem introduziu a diagramação no jornalismo”, conta Washington Novaes, ex-colega de Estadão e Folha. “Toda a família tinha pendor artístico, tanto que aprendi a diagramar com meu pai”, diz Berenice Abramo, designer gráfica e filha caçula do segundo casamento de Cláudio, com a crítica de arte Radha Abramo.

Introduzir a diagramação em um jornal daquela época ia muito além de estética. Baseando-se nos jornais americanos, Cláudio transformava todo o rito jornalístico, pré-desenhando o Estado até as 18 horas, o que resultou em fechamentos antecipados, planejamento prévio das matérias internas e de capa, além de um equilíbrio gráfico minucioso.

Novaes lembra daquilo que chama de “um dos momentos mais brilhantes da história do jornalismo”. O ano era 1959, e o presidente norte-americano [Dwight D.] Eisenhower visitava Brasília, ainda um campo de obras. “Fomos de avião para lá com oito páginas pré-diagramadas. No avião, cada jornalista tinha um envelope dizendo para qual lugar iria, qual matéria escreveria, com tantos caracteres. Quando chegamos a São Paulo às 8 horas da noite, tínhamos as oito páginas prontas.”

A cobertura seria o gancho para Abramo quebrar outra tradição. “Até ali, o Estadão não publicava notícias nacionais na primeira página. Mas, como era um presidente americano, o Cláudio quebrou a tradição.” O padrão cairia em definitivo após o golpe de 1964, mesmo que, antes, seu gênio já houvesse achado forma de burlá-lo. Como Ruy Mesquita costumava comandar as capas com notícias internacionais, o secretário criou a “Última Página”, de notícias nacionais. “Durante anos, os leitores compravam o jornal e o viravam”, lembraria Abramo.

A modernização incluía ainda textos mais diretos e coloquiais e, principalmente, a busca sem trégua por objetividade, esvaziando o conservadorismo do Estadão. Nas palavras do mestre, “a maior reforma já feita em um jornal brasileiro”, porque “conseguiu manter, durante anos, um noticiário o mais possível ‘objetivo’, ao lado de editoriais absolutamente antediluvianos”.

Façanha ainda mais fantástica a considerar que o mesmo maestro que “regia” a redação do Estadão, cujo editorial da época chegou a registrar que “ser comunista era um problema endocrinológico”, era trotskista de berço e convicção. “Ele fazia jornal profissionalmente, então nunca teve a ilusão de esquerdizar o veículo”, comenta o jornalista Roberto Müller Filho.

Por ironia ou fatalidade, a saída de Cláudio do Estado deu-se por tensão ideológica. Conforme relatou em “A Regra do Jogo”, com a tentativa dos militares de impedirem a posse de Jango após a renúncia de Jânio Quadros em 1961, “todo o noticiário passou a ser controlado e revisto”, o que acabou dividindo a redação entre esquerdistas e direitistas.

Além disso, ele já havia notado certo constrangimento da diretoria com sua presença, pois, como alegou, tomou conhecimento de que uma ala dos militares conspirava com os Mesquita. Aprendia uma das primeiras regras do jogo. Como dizia: “Quando um jornalista vai trabalhar numa empresa, deve perguntar o que é objetivo, segundo aquele jornal”. Pediria demissão em julho de 1963.

REVOLUÇÃO E CONTRA-ATAQUE

Cabe um salto no tempo. Quem conta a cena é o jornalista esportivo José Trajano, então editor de esportes da Folha de S.Paulo naquele 1977. “Veio o aviso de que nenhum editor deixasse a redação ao final do expediente. O [publisher Octávio] Frias queria conversar com todos na sala dele. Foi um acontecimento extraordinário.”

Abramo e Mino Carta, no meteórico Jornal da República
Enquanto os editores aproveitavam os “comes e bebes” na antessala, Frias apareceu em traje social, mas sem sapatos. “Só de meia. Era uma coisa rara, ele era muito austero. Disse que estava sendo pressionado pelas autoridades militares e que tinham exigido a cabeça do Cláudio [Abramo]. Depois de falar que tinha oferecido para o Cláudio o cargo de correspondente em Paris e Londres, avisou que o Boris Casoy assumiria o cargo.”

Diante do anúncio, Trajano se revoltaria e pediria demissão. “São aquelas atitudes que são tomadas e foda-se, sabe? O Cláudio era um homem para se venerar, pelo estilo, pelo conhecimento, pela elegância, pela posição firme de esquerda.”

O episódio encerrou a longa carreira de Abramo como secretário de redação da Folha, onde ficou
Crédito:Arquivo Pessoal
Com Fidel Castro
conhecido por realizar “uma segunda revolução” na imprensa paulista. Unificando as antigas Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite, em 1960, a Folha de S.Paulo era jornal de pouco prestígio, comparado ao Estado, deixado por Abramo. Mas o cenário mudaria...

Nos primeiros anos, a reforma teve resistências. Primeiro, o jornalista lidou com a pressão da equipe anterior. “Tinha uma geração muito influenciada pelo Jornal da Tarde, buscando um estilo novo, meio zombeteiro. Mas ele conseguiu fazer um jornal sério, focado nas discussões políticas e econômicas”, conta Novaes.

Mais tarde, haveria as dificuldades financeiras do veículo e a pouca força política do jornal no pós-AI-5. “O jornal não tinha condições de resistir a pressões do governo, e por isso não provocava. Foi uma política muito sábia que Frias aplicou ao jornal”, registrou Abramo.

Na carona da abertura gradual do regime, entre 1975 e 1976, Cláudio atacou ao seu modo: com pluralidade. “Primeiro, fez o jornal ter a maior circulação. Depois, disse ao Frias: ‘Agora, precisa ter influência. Vamos criar uma página de opiniões’”, explica Müller.

Assim, surgia um esboço da atual Folha. A página 2, com editoriais e artigos de opinião, seguida da página 3, até hoje denominada “Tendências/ Debates”. Outra criação foi o “Jornal dos Jornais”, coluna de crítica de imprensa assinada por Alberto Dines.

“Com estas mudanças, o Cláudio fez a abertura política na comunicação de São Paulo em meio à ditadura. Depois, isso lhe custou a saída do jornal”, diz Novaes, referindo-se à pressão do então chefe da Casa Militar, Hugo Abreu, pano de fundo do insólito anúncio de Frias, em 1977.

Apesar do risco que corria, Cláudio Abramo deu à Folha relevância nacional, como destaca o crítico Jefferson Del Rios. “Ele dinamizou a reportagem, trouxe estudantes universitários para a equipe, criou novas seções, introduziu mudanças gráficas e chamou colaboradores de renome em todas as áreas.”

Abramo afirmaria que entendia sua saída por um conjunto de fatores: primeiro, a necessidade do jornal de abrir espaço para o pessoal novo; segundo, uma crônica na Folha, de Lourenço Diaféria, que o Exército julgou ofensiva à memória de duque de Caxias; terceiro, em suas palavras, “o fato de que eu tinha de novo ficado muito importante.”

FORA DO HABITAT

Tirado da redação, Abramo não aceitaria, de imediato, o convite de Frias para ser correspondente. Comporia o conselho editorial do jornal entre 1977 e 1979, até, enfim, partir com a esposa para Londres (1980-1983) e Paris (1983). Fernando Pacheco Jordão, então correspondente da IstoÉ, conviveu com Abramo em Londres. “Naquele momento, ele estava muito magoado”, recorda.

Antes da Europa, abraçou a candidatura a deputado estadual de um dos jovens intelectuais que
Crédito:Arquivo Pessoal
Com JK
levara para a Folha em meados dos anos 1970, o hoje senador Eduardo Suplicy. “Ele tinha o mais belo sentimento de indignação diante de quaisquer injustiças na organização da sociedade e nos acontecimentos em que estivessem envolvidos os seres humanos. Era um sentimento comovente. Foi um dos melhores amigos da minha vida”, diz Suplicy.

Também é lembrado como alguém cujo desejo de justiça social extrapolava o discurso. “Apesar de ateu, foi a pessoa mais cristã que conheci. Ele ajudou muita criança, pagando escola, e ninguém ficava sabendo”, lembra a filha Berenice. “Sempre fez questão de tratar o ser humano da mesma forma, fossem poderosos ou não”, destaca Bárbara Abramo, também filha de Cláudio com Radha, e astróloga da Folha há mais de dez anos.Em 1979, teve ainda passagem pelo meteórico Jornal da República, fundado por Mino Carta, um dos seus mais fiéis camaradas. No memorável prefácio de “A Regra do Jogo”, garante: o auge do Estado foi com Cláudio; o auge da Folha foi com Cláudio. Entre tantas celebrações ao seu nome, sentencia: “Não faltaram aqueles que o odiaram, sem perceber que ele não faria jus nem mesmo ao ódio do pior inimigo”.

Voltaria ao Brasil em 1984, assinando a coluna “São Paulo”, da página 2 da Folha, sem conseguir esconder a dor de estar fora de seu habitat: a regência de um jornalão. “Nunca mais foi um sujeito exuberante. Sempre teve um toque de amargura”, diz Roberto Müller. Então no comando da Gazeta Mercantil, Müller ofereceu uma coluna ao colega. “Ele ficou enrolando. Acho que queria escrever para um jornal de grande circulação, não para empresários.”

Parece justificável que também tenha deixado inimigos. Ônus da personalidade autêntica. “Ter medo faz parte. Os ignorantes têm medo”, comenta Berenice. A pecha de autoritário é endossada por uns, refutada por outros – mesmo entre amigos. Para Pacheco Jordão, o rigor do mestre beirava o autoritarismo, sim. Trajano endossa. E pondera: “Mas também era um cara diferente”.

Não lhe falta séquito para defendê-lo. “Como ele tinha traços de genialidade e temperamento muito forte, às vezes isso era confundido com autoritarismo. Sua generosidade era desconcertante”, diz Müller. Verbete sublinhado no dicionário pessoal de Abramo, a ética é protagonista de uma de suas frases mais memoráveis: “Minha ética como marceneiro é igual à minha ética como jornalista – não tenho duas”. Enfim, só há a ética do homem. “Ele não admitia texto ruim, sensacionalismo, vulgaridade, o furo a qualquer preço. Manteve-se absolutamente fiel à sua regra: ‘O jornalismo é o exercício diário da inteligência e da prática cotidiana do caráter’”, diz Del Rios, citando outra frase célebre de Abramo.

Para Cláudio Weber Abramo, filho do primeiro casamento com a chargista Hilde Weber e diretor da ONG Transparência Brasil, o modo franco e reto do pai o marcou. “Não cresci com ele. Mas, depois de adolescente, compreendendo melhor as coisas da vida, o que me influenciou mais foi a franqueza e a busca por honestidade de pensamento.” Reunindo as impressões e memórias de quem conviveu com este maestro e revolucionário da imprensa brasileira, impossível não notar o sentimento mais inevitável e urgente: a saudade.

Parafraseando as últimas palavras de Mino Carta no prefácio de “A Regra do Jogo”: de todos estes Cláudios, muitos sentem falta.