Henfil não morreu

Por Karina Padial | 10/06/2008 19:47

Há 20 anos, quando Henrique de Souza Filho, o Henfil, morreu, estavam do lado da cama apenas Lucinha - a última mulher dele - a mãe dela, o irmão Betinho, Maurício Maia, e o amigo Humberto Pereira, hoje editor-chefe do "Globo Rural". Pereira se lembra que Henfil era tão generoso que preferia não dividir o sofrimento da morte com mais ninguém. Pudesse, teria partido discretamente, ao contrário do que foi sua vida de andanças, esparramando a tinta indignada de seus desenhos pelo país e fazendo barulho por onde passava. Quando morreu, Henfil já era considerado o gênio do traço na mesma medida que agora, duas décadas depois, todos os cartunistas e caricaturistas do país o reverenciam como pessoa e como profissional. Seu trabalho permanece atual, suas críticas continuam pertinentes e sua memória, viva nas recordações dos amigos que tiveram o privilégio de conviver com ele.

Para construir um perfil sobre o Henfil, Revista IMPRENSA foi atrás de algumas dessas pessoas que conviveram com o artista em diferentes momentos de sua trajetória e registrou depoimentos que trazem para essas páginas retratos de seu modo de vida, características de sua personalidade e detalhes de seus traços. 

Lucas Mendes

Apresentador do Manhattan Connection, Mendes conheceu Henfil ainda na infância. Estudaram juntos no colégio em Minas Gerais e se reencontraram em Nova York onde assistiam Monthy Pyton e ouviam discos de música sertaneja.

Eu e Henfil éramos vizinhos de bairro e no colégio Arnaldo sentávamos no mesmo banco, o último da fila. Éramos maus alunos e com freqüência matávamos aula no Parque Municipal. Um tédio. Desatentos, conversávamos fiado durante as aulas. Ele às vezes fazia umas figuras mas eram mais rabiscos do que desenhos. Não me lembro de personagens ou histórias. Gostava de falar sobre as meninas do bairro e mal dos padres. O gênio ainda não havia baixado nele. Gostava de brigas de rua e a turma dele era barra muito mais pesada do que a minha.

Os traços mais marcantes de Henfil eram a irreverência e o deboche. Não sei exatamente quando surgiram as convicções políticas. Íamos as missas das seis da tarde na igreja São José. Era uma turma engajada  mas nosso negócio ainda era mais paquera do que revolução.

Ele também tinha um talento excepcional para televisão mas acho que foi mal aproveitado e pouco reconhecido.

Ele fez alguns desenhos para mim com alguns comentários que guardo com muito carinho. Dos personagens que ele criou havia um pouco dele em cada um, mas como caráter era muito mais Fradinho e Graúna.

Nós nos separamos quando fui para o Rio em 66 e depois para Nova York em 68 e nos reencontramos em 72 ou 73 em Nova York e refizemos a conexão. Nos víamos com freqüência para assistir Monthy Pyton, ouvir uns discos estranhíssimos de música sertaneja brasileira e em reuniões sociais com o Francis e outros amigos.

Tárik de Souza

Crítico musical do Jornal do Brasil, trabalhou com Henfil no Pasquim e no JB e acredita que ainda hoje o poder de síntese de seus desenhos é difícil de ser encontrado.

Fui amigo-irmão do Henfil. Tínhamos afinidades estéticas e ideológicas. Estávamos sempre em contato, mesmo quando ele mudava de pouso. Trabalhamos juntos no Pasquim e também no Jornal do Brasil. Algumas de nossas cartas foram publicadas no livro "Diário de um cucaracha", escritas quando ele morou nos EUA.

O poder de síntese de seus desenhos era muito difícil de encontrar. Com poucos traços, Henfil sugeria movimento e ação. A Graúna é praticamente um ponto de exclamação. Além disso, tinha uma capacidade rara de conjugar lirismo e contundência em seus personagens altamente empáticos. Foi um popstar do desenho no país, onde a atividade não é valorizada, e ainda sofre brutal concorrência do produto importado.

O melhor seria que seu viés engajado, reinvindicador, tivesse sido ultrapassado pela mudança da situação de vida do país. Infelizmente, pouca coisa andou realmente nestes 20 anos de sua morte. 

Henfil era um combatente incansável das boas causas. Mas nunca deixava em segundo plano a criação artística. Muitas de suas obras marcaram. Mas o que vale é o fabuloso conjunto da obra.

Nico

Márcio Malta, conhecido como Nico, além de ilustrador é autor do livro "Henfil - O Humor Subversivo". Para ele, Henfil não tinha receio em tocar em feridas e pontos polêmicos e sua obra teve grande influência nos rumos do humor político.

Henfil desenvolveu uma obra comprometida e teve grande influência nos rumos do humor político. Seu traço era sintético, objetivo, aliado a um forte comprometimento político e ele tinha o desejo de ser compreendido pelo maior número possível de pessoas. Henfil tinha um estilo único, desprendido de formalismo acadêmico. O seu traço cativava os leitores, que contraíam com os personagens do cartunista uma relação de carisma e afeto.

Ele não tinha receio em tocar em feridas e pontos polêmicos. O seu humor estava a serviço do combate aos desmandos da Ditadura Militar que se encontrava no poder. A vida e a produção de Henfil foram muito marcadas por esse regime de exceção.

Henfil dizia: "O humor verdadeiro é aquele que dá um soco no fígado de quem oprime". O objetivo do artista, por meio das charges, era a conscientização. Não queria fazer rir, mas fazer pensar.

Ele direcionava as suas críticas a aspectos e problemas estruturais do Brasil. Assim, como não passamos por grandes transformações, a obra de Henfil é de grande atualidade, trabalhando temas como o descaso da saúde pelas autoridades diante das populações mais pobres.

Uma charge que me marcou muito é uma em que o personagem Ubaldo, corre eufórico para dar a notícia da Anistia ao jornalista Vladmir Herzog, só que já era tarde pois o mesmo já estava no caixão. Herzog foi torturado e assassinado nos porões da Ditadura.

Um personagem muito representativo da sua obra é, sem dúvida, a Graúna. Compondo o trio da caatinga, tocou em problemas e questões relevantes, como a cultura machista, o problema da seca. A Graúna era um sopro de esperança em uma conjuntura de tanta repressão. O seu sorriso despertava nos leitores a sensação de que se devia lutar pela justiça.

Escrevi o livro "Henfil - O Humor Subversivo". Com o enfoque na vida política do cartunista. O livro fará parte da coleção Viva o Povo Brasileiro, da editora Expressão Popular, voltada a biografias de personalidades de nosso país. "Meu objetivo é mostrar às pessoas o legado deixado por esse grande artista". O livro de bolso custará R$ 3. "Queremos conquistar o maior número de pessoas possível". Ainda pretendo promover palestras, debates e reflexões sobre a obra de Henfil em todo o Brasil.

Cláudio Eldi

Discípulo de Henfil, Cláudio é cartunista do jornal Agora São Paulo. Freqüentador da casa de Henfil em Natal aprendeu com o artista que deveria dar muita atenção à expressão fácil dos personagens e que, se necessário, era para usar um espelho para estudar a melhor expressão para seu desenho.

Conheci Henfil em Natal, na época em que ele lá morou, de 1976 a 1978. Estava começando minha carreira como chargista no diário natalense Tribuna do Norte. O colunista político do jornal, jornalista Woden Madruga, me apresentou a Henfil. Ele gostou dos desenhos que lhe mostrei e me convidou para colaborar com o Pasquim. Tinha eu 14 anos e o velho "Pasca" então era impróprio para menores de 16 anos. Podia desenhar para o jornal, mas não podia lê-lo.

Minha relação com ele era de mestre e aprendiz. Passei a freqüentar a casa de Henfil todas as quartas-feiras, dia em que ele mandava os seus desenhos, junto com os meus, para o Pasquim, via malote aéreo. Era uma casa bem espaçosa, muito agradável. Ficava na Praia dos Artistas. O estúdio de trabalho dele tinha uma janela com vista para o mar. Era uma maravilha, ventilado, iluminado. Como por ali entravam insetos, ele sempre tinha à mão um mata-mosquitos. Henfil era super organizado. No estúdio havia também uma grande estante, do chão ao teto, completamente tomada com caixas-arquivo, onde guardava todos os seus originais, catalogados. Ao lado da sua mesa, havia uma máquina de fazer fotocópia, bem moderna. Acho que era importada. Ele não mandava os originais para os veículos, mas sim fotocópias. Num corredor ao lado da sala, havia duas estantes, com livros, jornais e revistas. Eu sempre ia lá à tarde, ele ficava trabalhando enquanto conversávamos. Henfil era um sujeito muito generoso. Eu era quase um menino e ele sempre me recebia muito bem, apesar de estar muito ocupado.

Fazia, segundo ele próprio, cerca de 10 desenhos por dia, entre charges, cartuns, tiras. Além de publicar no Pasquim, nessa época ele fazia uma tira diária do Zeferino, para o Jornal do Brasil, uma página semanal para a revista dominical do JB, uma página semanal para a IstoÉ, uma charge diária para um jornal mineiro, editava a revista mensal do Fradim, além de colaborar com cartuns eróticos para a revista masculina Status e para jornais da imprensa alternativa, como Movimento e Em Tempo. Eu sempre saía da casa dele com as mãos cheias, com livros que ele simplesmente me dava, ou com outros que ele me emprestava. Às vezes, com o jornal Movimento, do qual ele recebia mais de um exemplar, ou o Coojornal, lá do Rio Grande do Sul. Aliás, ele incentivou a criação da Cooperativa dos Jornalistas de Natal, que editou um jornal, o Salário Mínimo, no qual eu publiquei e, salvo engano, ele também. Colaborou também com a Maturi, uma pequena revista dos quadrinistas de Natal.

Henfil dizia que o chargista devia ser sempre muito bem informado, ler tudo, até receita de bolo. Ele lia de manhã os principais jornais do país, e, muitas vezes, cortava algumas matérias e as prendia numa prancheta, que ficava no birô, ao lado de sua mesa. Um dos primeiros livros que ele me emprestou foi "Composições Infantis", de Millôr Fernandes, que ele considerava "o melhor de todos nós". Também os anuários dos cartunistas norte-americanos. Na época, eu não sabia ler em inglês, mas ficava maravilhado com os desenhos. Ganhei dele um pedaço de papel schoeller montado, um papel alemão importado, bastante caro. Era para eu treinar como colorir os desenhos. Ele mesmo cortou o papel com uma guilhotina manual, usada com muito cuidado. Hemofílico, ele brincava, "isso corta mesmo".
 

Nessas tardes em que o visitava, Henfil me ensinou muito e me deu muitas dicas. Insistia que deveríamos dar muita atenção à expressão facial dos personagens. Muitas vezes, usava um espelho para estudar a melhor expressão para o seu desenho. E me explicava as expressões e eu rachava o bico com suas caretas. Dizia também que a caricatura não deveria ser apenas uma deformação fotográfica da cara de um político, mas uma "síntese psicológica", que, com poucos traços, revelasse a pessoa retratada. Quando viu meus desenhos pela primeira vez, sugeriu mudar a minha assinatura, que para ele devia ser o mais legível possível. Eu assinava imitando a assinatura de Ziraldo, que eu descobri lendo a revista da Turma do Pererê. Segui o seu conselho e mudei mesmo. A partir dessa época, meus desenhos tinham a nítida influência do traço de Henfil, que fez escola naquele tempo. Muitos da nova geração do Pasquim desenhavam com o traço daquela escola, um traço rápido, nervoso, expressivo. Não sei bem quais foram as influências que Henfil recebeu. Ele admirava o desenho de Carlos Estevão, um pernambucano que publicou nos anos 50 e 60 e que desenhou O Amigo da Onça, no Cruzeiro, em substituição ao também pernambucano Péricles, que havia se suicidado. Mas aquele jeito de desenhar era o desenho da época, predominante, por exemplo, nos cartunistas do semanário francês de humor, o Charlie Hebdô, fonte de inspiração da turma do Pasquim. Cartunistas como Wolinski, Reiner.

Porém, o que de mais ele me ensinou, foi quanto ao papel do chargista. Henfil refutava o besteirol. Para ele, o cartunista deveria ter um alto senso de responsabilidade ao ocupar um espaço na imprensa. Deveria sempre fazer uma crítica contundente, um humor crítico, e não o mero gracejo com os donos do poder. Henfil tinha boas razões para dar tal conselho. O Brasil vivia numa ditadura, ele mesmo era uma pessoa politicamente engajada, e seu irmão mais velho, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, amargava o exílio no Canadá. Betinho havia sido a principal cabeça da Ação Popular, um grupo de esquerda católica, perseguido depois de 1964. Não dava, portanto, para se desperdiçar tintas se não fosse para reconquistar a democracia e transformar a injusta realidade social brasileira. E ainda hoje não dá...

Nós mantivemos contato esporadicamente. Ele deixou Natal em 1978 e veio para São Paulo, quando começaram a pipocar as greves no ABC paulista. Ele queria estar no centro dos acontecimentos. E eu me dediquei aos estudos, prestei vestibular e fiz Jornalismo na Federal do Rio Grande do Norte. Fiz política estudantil. Fui presidente do CA de Comunicação, do DCE, delegado da UNE. Em 1983, de férias em São Paulo, eu o visitei em seu apartamento na Rua Itacolomi, Higienópolis. Perguntou se eu continuava a enviar os desenhos para o "Pasca". Disse-lhe que não, pois achava que jornal tinha ficado muito brizolista. Ele me aconselhou a voltar a colaborar, pois, segundo ele, o Pasquim era a seleção brasileira do humor e eu poderia conseguir melhoria do meu contrato no clube em que eu jogava - o jornal lá de Natal. Henfil morreu em 1988 e eu desenhei para o "Pasca" até 1989, quando saí do Brasil e fui estudar artes gráficas na Escola Superior de Artes Industriais de Praga, na antiga Tchecoslováquia. Pouco tempo depois, acho que em 1990, o jornal fechou.

Henfil se destacava pela sua grande capacidade de fazer um humor crítico, lúcido e extremamente irreverente, com muita sintonia com a alma popular. Era dono de uma sensibilidade aguçadíssima. Outra característica impressionante era a sua imensa capacidade de criação e de produção. Eu o vi fazer 60 desenhos, às vésperas de ir para a China. Ele pegou um livro com recortes de charges antigas publicadas no JB, folheava e adaptava as idéias. Íamos conversando, e a mão ligeira desenhando. Sua cabeça era uma usina de idéias. Por isso tinha de fazer aquele traço ligeiro, para o pulso dar conta da velocidade com que as idéias lhe vinham à cabeça.

Mouzar Benedito

Jornalista e escritor, atuou com Henfil na "TV Homem" onde seu melhor papel foi o de defunto. A charge do artista que mais o marcou é uma em que seu corpo é reproduzido como uma barata e que ilustra a dedicatória do livro "Memórias de um cucaracha".

Eu colaborei no Pasquim na década de 70 mas foi numa época que o Henfil morava no Rio Grande do Norte, mandava o material dele de lá. Depois, no início da década de 80, ele morava em São Paulo, quando a Global Editora quis publicar a revista Mafalda, do humorista Quino, em português. O Quino disse que toparia desde que a versão fosse do Henfil. Ele não tinha tempo para traduzir, então o Paulo Schilling, que tinha acabado de voltar do exílio e estava publicando uns livros pela Global, sugeriu que eu fizesse a tradução e o Henfil desse uns toques finais. O Quino veio a São Paulo e fomos almoçar juntos - ele, o Henfil, o dono da editora e eu. Maior glória. Dois dos meus maiores ídolos, Henfil e Quino almoçando comigo... Combinamos de fazer uma versão em portunhol, com ponto de interrogação de cabeça pra baixo no início das perguntas, algumas expressões em espanhol, etc.

No período de tradução e edição da Mafalda, Henfil e eu conversávamos pouco. Depois desse trabalho, já em 1984, o Pasquim estava em crise e pediu que antigos colaboradores se dispusessem a colaborar novamente, de graça. Eu voltei então a colaborar. A dona Nelma, secretária do jornal, pediu que eu levasse minhas colaborações para o Henfil, que morava em Higienópolis, que ele mandava tudo por malote. Na primeira matéria que fui levar, já conversamos bastante, rimos muito. Ele tinha parado com o "TV Homem", na Globo, e estava indo para a Abril Vídeo, que tinha alugado quatro horas diárias, pelo que eu me lembro, da TV Gazeta. E me chamou para ir dar uma de ator lá. Fui. Depois ele me contou que estava querendo fazer com que eu me acostumasse com a câmera no rosto, porque queria que eu fosse um dos guerrilheiros do filme que tinha em mente e já vinha fazendo o roteiro, "Deu no New York Times". Mas ele acabou mudando para o Rio e eu fiquei de fora. Lá no Rio, ele fez a apresentação do meu primeiro livro de causos, "Santa Rita Velha Safada". Escreveu à mão, e vi que sua letra estava tremida. Achei estranho e fiquei sabendo que a Aids já o minava.

Nossa experiência na TV foi muito divertida. Eu passava na casa dele e íamos juntos, de carro, conversando e rindo. O programa dele, de um minuto, ia ao ar de segunda a sexta-feira. Tudo era gravado na segunda-feira. Ele levava os cinco roteiros prontos, explicava o que cada um devia fazer e gravava de uma vez só, sem ensaio nem nada. Eu sempre pensei que o melhor papel que fiz foi de defunto, com todo mundo chorando em volta e falando alguma besteira. Mas a Célia, minha namorada, viu o programa e disse que eu dei umas piscadas, não fui bom ator nem no papel de defunto. É que a vela ficava pingando na minha mão. Todos os "atores", como eu, gostávamos muito do Henfil.

O Henfil era radical nas suas posições, procurava ser coerente. E militante. Nunca, que eu me lembre, fingiu ser neutro em alguma coisa. Sei que há outros cartunistas assim, mas ele ia mais fundo. Tanto que quando o Milton Coelho da Graça assumiu a direção da IstoÉ e exigiu que ele parasse com as "Cartas à Mãe" (sucesso total na revista), alegando que ele tinha sido contratado para fazer humor e não política, ele se negou a fazer isso e foi demitido. Preferiu perder o emprego do que a coerência.

Acredito que as críticas dele podem ser consideradas atuais até hoje, pois ele criticava o capitalismo, a concentração de renda, o imperialismo e a submissão de nossos políticos a ele, a falta de ética, as pessoas que viravam a bandeira e outras coisas muito presentes no Brasil atual. Acho que os que viraram neoliberais seriam suas vítimas hoje, assim como os que se corromperam.

Henfil tinha isso da coerência, mas também a amizade, o bom humor e a capacidade de agüentar suas dores sem reclamar. Sobre a coerência, lembro-me de um dia que estava na casa dele e um publicitário telefonou pra ele querendo usar um de seus personagens (acho que a Graúna) em comerciais. Podia ganhar uma boa grana, mas em vez disso falou que não, de jeito nenhum, e ficou meio puto. Era também generoso. Tinha gente que ficava morando na casa dele até se acertar aqui (acho que o próprio Glauco, cartunista da Folha, morou na casa dele). E tinha muita paciência com os mais novos, inexperientes.

Têm muitas charges dele que me marcaram, mas o que eu mais gosto é de uma caricatura minha que ele fez. Foi no dia em que ele brigou com a direção da Abril, que queria censurar um programa da TV que fizemos. Saiu da TV e, claro, saímos todos. Ele me deu o livro "Memórias de um cucaracha" e fez uma bela dedicatória, com uma caricatura minha com corpo de barata.

Um dia cheguei à casa do Henfil e ele estava indignado. Ele estava para começar na TV Cultura um programa de entrevistas, isso que hoje chamam de "talk show" que na época não existia aqui. Mas naquele dia ficou sabendo que não seria contratado porque era do PT. Estávamos no governo Montoro. Ficou tão puto que me falou: "Não vou morar em nenhum lugar governado pelo PDS ou pelo PMDB" (ainda não existia o PSDB). O único estado governado por alguém que não era de nenhum desses partidos era o Rio, governado por Leonel Brizola, do PDT. Foi uma pena. Em São Paulo, quando precisava receber plasma sangüíneo, havia um esquema armado de amigos doadores. No Rio, foi para um hospital e recebeu sangue contaminado.