Opinião: Sobre suicídio e outras dores, por Rodrigo Viana

Rodrigo Viana | 08/04/2016 17:15
Há dois anos e meio, meu pai se matou. Só quem enfrentou a ferida de um suicídio no núcleo central da família sabe o que isso significa. Sabe, na verdade, a desestruturação que isso causa a todos, o não entendimento e, o pior dos algozes, a dor original resgatada, viva e latejando ali, onde o restante da sociedade não quer ver. Porque é feio, subversivo. E sangra. Abundantemente.

Depois do pai, outras perdas, consideradas normais, sempre me tiveram um peso maior do que deveriam ter. Reflexo condicionado de uma morte mal morrida. Há pouco mais de um mês, foi o tio Paulo. Padrinho, amigo, tio, confidente. Automaticamente, no velório – desde o pai não ia a velórios –, repeti os mesmos gestos que fiz com o pai. Briguei com o tio no caixão, ri um pouco com ele, deixei o choro vir à tona copiosamente, carreguei o caixão, bati palmas quando desceram o caixão para a cova. Até ensaiei discursos e palmas para ele. Exatamente como ele fez com meu pai. E eu revivi a morte do pai no meu segundo pai. Feridas.

Neste momento em que rabisco estas linhas, minha mãe está sendo operada. Cirurgia geral, intestino. Dizem ser sério. Tenho fé. Mas ando cansado. Porque tudo isso que falo tem uma série de pessoas interligadas, um contexto forte. Sempre fico muito triste quando resumem as coisas à vida e morte, cirurgia etc. Para absolutamente tudo, houve um contexto, que insistimos manter em segredo para que o ciclo do não amor continue.