Opinião: Em busca de um futuro, por Thaís Naldoni

Thaís Naldoni | 08/04/2016 16:15
Em muitas ocasiões, atuar como jornalista nos coloca de frente com questões de fazer com que a alma saia por uns minutos do corpo e volte. Com os anos de carreira, vamos percebendo que para se contar bem uma história, é necessário olhar para ela sem travas, sem filtros. É necessário sentir a angústia, a felicidade, a tristeza ou a satisfação de quem confia a você o relato da vida.

Na Turquia, tive a oportunidade de estar muito perto de uma realidade dura: a dos refugiados dos conflitos da Síria e Iraque, que tentam atravessar de bote o caminho que os tiraria do medo e do sofrimento para, ao menos, terem a oportunidade de sonhar com um futuro - seja ele qual for - mas futuro.

Em uma pensão caindo aos pedaços, no bairro de Basmane, em Yzmir, a história de uma família iraquiana, composta por pai, mãe e seis filhos, de 1 a 15 anos, me tirou do chão. A resignação e o desespero eram quase palpáveis. A esperança que ainda tinham seria depositada nas mãos de coiotes, que os levariam para a travessia pelo mar até a Grécia. O valor da vida daquela família era de 3 mil dólares. Tinham dois mil. Até que conseguissem juntar o restante, se amontoavam em um pequeno quarto, lotado de camas grudadas.

Para o pai, Wahid Sidi, que conseguiu fugir, junto com sua família, para evitar serem mortos pelo Estado Islâmico, ali já estavam melhor do que antes, andando pela mata, se alimentando de folhas. Sobre o medo de fazer a travessia com seus filhos, sendo um deles ainda um bebê, ele disse. “Prefiro morrer buscando um futuro melhor, do que assassinado pelo EI”. Naquele momento, já de olhos marejados, imaginei o tamanho do desespero de alguém para se colocar em risco daquela forma, de bote, no mar gelado, em busca de um futuro.

Que mundo é esse que leva milhões de pessoas a precisarem buscar tais artifícios para poderem, simplesmente, viver. Cheguei à conclusão de que aqui no Brasil assistimos todo esse êxodo como a um filme. Não paramos para pensar no que isso significa, naquelas vidas, naquelas pessoas que vivem em assentamentos, quando muito. Em quem teve a vida destruída pela falta de diálogo, pela falta de solidariedade, pela violência desmedida. Enquanto isso, ainda sensibilizada pela desgraça humana, torço para que a travessia da família de Sidi faça com que ela, enfim, encontre o tão sonhado futuro.