Especial: André Fischer dispara: "Antigamente os persongens gays das novelas morriam em explosão de shopping"

Por Pedro Venceslau | 28/12/2007 20:32

André Fischer é dono de um império. Sob suas rédeas, o maior portal GLS do Brasil - o Mix Brasil - o Festival Mix Brasil de Cinema e Vídeo da Diversidade Sexual, sites voltados para esse público no UOL e no IG e a nova revista Junior. Criador da sigla GLS, Fischer é carioca mas adotou São Paulo para ser sede de seus projetos.

Com a nova empreitada editorial, ele entra num mercado que há 10 anos é dominado pela G Magazine. Logo na primeira edição, Junior esgotou em diversas praças e de trimestral, a publicação passou a ser bimestral.

Na entrevista concedida à Revista IMPRENSA, Fischer esclarece o boom de projetos segmentados para o público gay, conta como surgiu a sigla GLS e fala sobre os personagens gays "chatos" apresentados nas novelas.

Como o Mix Brasil é composto?
Somos um grupo. Aqui tem Sex Appeal, XXY, o Festival, a rádio e a Junior.

Como que nasceu o Mix Brasil?
O Mix Brasil nasceu a partir do Festival de cinema gay de Nova York, do qual eu fui curador em 93. Na época eu fiz uma programação brasileira para o festival. Aí surgiu um convite do Museu da Imagem e do Som aqui de São Paulo para trazer o Festival de Nova York. No mesmo, fizemos uma edição do Festival de Cinema gay. Acabou que deu super certo.

E como foi a aceitação do Festival no início?
Logo no início, proibiram no Rio de Janeiro. Era num centro cultural e quando a diretora, que estava fora na época que a gente acertou os detalhes para fazer o festival, voltou ela deu uma declaração dizendo que o Rio de Janeiro não era Nova York e não estava preparado para ter um festival desse tipo. Com a repercussão, todo mundo quis fazer o festival e ele já começou itinerante. Em 94, a gente começou a produzir mesmo o festival e começou a pintar convite. Como queríamos estabelecer a sigla GLS, criamos para falar.

Não existia essa sigla?
Não, foi criado no lançamento do 2° festival. Queríamos um termo que fosse parecido com o gay friendly americano.

E a sigla GLBTT?
São duas coisas diferentes. GLBTT é quando você fala de direitos que englobe gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. GLS é um termo para falar de mercado e era esse o nosso objetivo para dizer qual era o público do festival.

E como que surgiu a sigla?
Queríamos que tivesse lésbica no meio porque na época esse termo era um tabu. Na época, eu tinha recebido o convite para escrever no Jornal da Tarde por conta do festival e comecei a fazer umas colunas e não podia usar a palavra lésbica no jornal porque era muito forte e eu queria usar e achava importante.

Nessa época, o mundo gay era um gueto mesmo?
Era total, tinha uma boate lá em Moema e tinha uma nos Jardins, a Homo Sapiens no Centro. Não tinha um mercado nem nada assim.

Não tinha nenhum site?
Não existia Internet, então não tinha nada. Aí começou o Mix Brasil como um evento cultural de cinema que acontecia nos espaços culturais de maior prestígio de cada cidade. As coisas começaram a acontecer porque eu freqüentava os Estados Unidos. Em 94, criamos um BBS - bulletin board system - que é o pai de Internet. Era um BBS direcionado para esse público que reuniu uns mil associados que pagavam R$ 17 por mês para conectar via modem. Eles ficavam uma hora e depois caia para outras pessoas entrarem porque só tínhamos 20 linhas telefônicas.

Quando que vocês migraram para a Internet?
Em 95, a gente criou o site mas mesmo assim a Internet ainda estava no começo. Por exemplo, o UOL é de 1996. Então o site, na verdade, era só para marcar presença na Internet. Ele era atualizado mensalmente. Mas, enquanto isso, no BBS começou um sistema de atualização de notícias diárias, matérias especiais. Em 97, nos tornamos os primeiros parceiros do UOL e daí sim a gente começou com atualização diária, com cobertura de noite. Nessa mesma época eu fui convidado para trabalhar na Folha, e comecei a escrever para a Revista da Folha, fui contratado para ser colunista. E eu fiquei dez anos na Folha. Daí no começo de 98, o BBS acabou e a G Magazine foi lançada. Eu trabalhei na G nos cinco primeiros anos.

Você ganhava mais dinheiro onde? No Festival ou com o site?
No Festival não. O Festival começou a ter dinheiro para ser feito na 10ª edição. Antes disso era basicamente o BBS que bancava. O BBS e o site bancavam as pessoas que trabalhavam. Até hoje o Festival não dá lucro. Conseguimos remunerar as pessoas que estão trabalhando e pagar as suas despesas. Fazemos um festival com menos de R$ 600 mil, um festival em quatro cidades passando 300 filmes e que durante o ano ainda roda mais 20 cidades. Até hoje, a gente se banca com o dinheiro que vem da Internet.

E o dinheiro do anúncio?
Eu diria que na formação da nossa receita, a publicidade deve totalizar uns 20% a 25%. Além disso, temos venda de conteúdo porque estamos dentro do UOL e do IG. E fazemos toda a parte GLS do IG.

Nos dois concorrentes?
Sim, porque a gente já recebeu proposta de todos os portais para levar o Mix Brasil, mas estamos confortável no UOL. Então, eu prefiro criar um outro produto de qualidade. No IG foi isso que a gente fez.

Como você vê o lançamento da G Magazine no mercado?
A G foi realmente a primeira de importância. A Sui Generis, que eu também escrevia, tinha uma questão que era a história do nu. Eu tinha uma página na Sui Generis que eu mandava fechadinha e eu sempre tentava colocar uma coisinha de nu porque pela minha experiência no site eu sabia o que vendia, o assinante que quer ver nu. Então eu sempre falei que precisava ter um pouco de nu para vender a revista, e ele achava que não. A G serviu para o mercado editorial, para mostrar que esse público existe.

Durante a produção dessa matéria a DOM não quis entrar para não ser associada à G. O que você acha disso?
Em primeiro lugar, eu jamais faria isso porque eu trabalhei cinco anos na G, sou muito amigo de todo mundo lá. Eu acho que a gente só está podendo lançar uma revista como a Junior, como a DOM porque existiu e existe a G Magazine.

Por que vocês decidiram lançar uma revista?
Eu, para começar, sou da Internet totalmente e sou ultra ecologicamente correto, então eu acho que para você fazer uma revista tem que honrar as árvores que estão sendo mortas por conta dela. E eu sou um consumidor a muitos anos de revistas gays internacionais. E as minhas revistas favoritas são justamente aquelas que você tem o prazer tátil.

Como é o perfil da Junior?
Ela é uma revista basicamente de homem bonito. Nas 116 páginas, 82 tem homem e homem bonito sempre. Ela é a revista que eu sonhava fazer há muito tempo. Na verdade, eu tinha que comprar revista francesa, espanhola, americana pra me satisfazer enquanto leitor. E a idéia foi justamente essa, produzir essa revista aqui no Brasil.

O leitor da G e da Junior são diferentes?
O leitor pode ser até o mesmo. A Junior tem essa questão, está pegando um público muito jovem e um público mais velho também. O nome da revista se explica aqui dentro, Junior é o teu filho, é o filho que o gay não tem, então é um nome de todo homem, mas ele dá essa conotação de ser jovem também. O gay de 50 anos quer se sentir com 30.

Esse leitor, hoje, está fora do armário a ponto de poder comprar uma revista e deixar na sala de casa e ler?
Então, a gente fez uma revista exatamente isso. Ela é uma revista para você deixar na sala. Todo mundo que está dentro da revista é gay, todo mundo que escreve nessa revista é gay, as pessoas que estão aparecendo aqui dentro são gays. Isso, às vezes, não está dito abertamente em lugar nenhum. Na capa não tem gay escrito em lugar nenhum porque é uma revista para você se sentir confortável.

Só gay escreve na Junior?
Eu só chamo gay para escrever. O ensaio fotográfico principal não interessa porque eu não estou entrevistando o cara. Não é que nem a G que tem a entrevista lá com o cara que sempre tem que dizer que não é gay, sempre ele fala que tem a namorada, que não tem nenhum problema com gays. O ensaio principal da gente aqui é um homem bonito e eu tenho o nome dele. Não me interessa se ele é gay ou se não é.

Se você for chamar um repórter para trabalhar aqui a primeira pergunta que você faz é se ele é gay?

Aqui dentro é só gay que trabalha. No Mix Brasil a gente só tem gay trabalhando.

Você não pode interpretar isso como uma forma de discriminação?
Não é discriminação, é uma escolha. Primeiro, nós temos a Junior, o Mix Brasil, o Sex Appeal, e outros quatro sites eróticos, então é difícil você imaginar um hetero que se sinta confortável de estar lidando com conteúdo gay o dia todo. Outra coisa é a questão de escrever sobre gay para gay. É difícil imaginar um heterossexual que tenha a linguagem gay, que freqüente o mundo gay. Mas se ele existir, eu não vou deixar de contratar por causa disso.

Então não é mito dizer que nas redações de revistas voltadas para o público gay são gays que trabalham?
A G não é. A dona da G não é gay.

Então apesar daqui não ser assim é possível fazer uma boa revista gay sem ser gay?
Acho que não. Precisa ter o editor que é gay, precisa ter um olhar gay.

A Playboy foi feita durante 10 anos pela Cynthia de Almeida. Teoricamente, teria que ser um homem. Ou o raciocínio não tem nada a ver?
Não sei como vale o raciocínio para isso. Mas a gente precisa de uma revista gay com um olhar gay. Talvez, se já existisse uma imprensa gay solidificada você poderia ter um hetero no comando.

Com qual tiragem saiu a revista?
30 mil exemplares.

E esgotou?
Não esgotou porque tem cidades que ela não esgotou.

Qual é a distribuidora?
A Chinaglia. Teve uma coisa engraçada que a Chinaglia usou, para esse primeiro número, o espelho de distribuição da G Magazine. A gente obviamente tem uma distribuição completamente diferente. Mas ela esgotou em várias cidades. Ela esgotou na zona sul de São Paulo, esgotou na Paulista, em Recife, no centro de Belo Horizonte. Na zona sul do Rio de Janeiro esgotou em 3 dias. Para a Fnac mandaram 100 revistas e acabou em dois dias.

Agora saiu a Junior, a DOM, tem uma assessoria de imprensa, uma agência de publicidade voltadas para o público gay. Por que agora?
Primeiro eu preciso dizer uma coisa. Não é agora. Isso tudo já aconteceu. Já teve outras agências, já existiu a Sui Generis.

Mas a Sui generis não deu certo...
Ela durou 5, 6 anos. Ela saiu em dezembro de 94, foi lançada no Mix Brasil do Rio e acabou e 2000. Não deu certo é exagero.

Mas agora vamos dizer que tem um boom.
Lá na Folha a gente que um é fenômeno, dois é tendência, três é boom.

Mas então não é fenômeno, não é tendência, não é boom, é uma coincidência?
Não é coincidência. Eu acho que o mercado vem amadurecendo. Óbvio que o fato da parada gay ter 3 milhões, o fato do Brasil ser, esse o ano, o país com mais paradas gays no mundo, isso sinaliza um maior interesse. O Mix Brasil está chegando ao 15° ano com número recorde de patrocinadores.

Isso é sinal de que as pessoas estão saindo do armário, está tendo uma consciência? As novelas estão começando a mostrar casais gays, isso é novidade.
Eu acho que é um amadurecimento porque falar de boom é o gancho para jornalista justificar lá dentro da redação a matéria, a pauta. Boom não é. São duas novas revistas. A G já tem 10 anos. Olha lá, isso já é mais uma prova.

E cruzeiro gay?
No Brasil nunca teve. Tem uma coisa muito interessante: o fato da gente ser o maior portal, estar há 15 anos no mercado, tudo passa por aqui. Já tentaram fazer vários cruzeiros gays no Brasil. Nenhum deu certo, nenhum funcionou. O que aconteceu aqui é que teve um cruzeiro americano que passa aqui e parece que vai até Buenos Aires e que vai passar por aqui novamente nesse verão.

Por que dá certo nos Estados Unidos e não aqui?
É outro mercado completamente diferente.

Menos preconceituoso? Ou mais?
O site que a gente faz e dá certo ele se chama Mix e não se chama gay.com. O Festival que a gente faz que funciona e que tem apoio chama Festival da Diversidade Sexual e não do cinema gay.

A palavra gay ainda é problemática no sentido comercial?
Eu sempre digo o seguinte: o japonês que migrou para o Brasil, a segunda geração já não fala mais japonês. Temos uma cultura aqui de misturar. Compartimentalizar é da cultura americana, não é da nossa.

É interessante isso que você falou: não existe boom, não existe tendência, o que existe é o mercado.
O que existe é o mercado entendendo as oportunidades.

Você está destruindo minha pauta!
Não, pelo contrário esse questionamento a gente só pode fazer em uma revista de imprensa porque pra mim interessa...

Porque tudo que eu li sobre o lançamento dessas revistas 'é o boom', 'é o Brasil não tem preconceito'.
Porque pra gente, eu digo G Magazine, a Junior, pra DOM é o que interessa e é o que vai vender pauta porque tem duas novas revistas. Mas quem que vai comprar essa pauta? Ninguém. Agora para Flash, Quem, Época, IstoÉ, para eles comprarem essa pauta você tem que falar de um boom.

Então não dá pra também dizer que o brasileiro está saindo do armário, que o preconceito está diminuindo...
Lógico que está, tudo isso está. Mas não é uma forma de um boom. É uma coisa que vai indo muito aos pouquinhos, é passo-a-passo. Mas é que estamos falando de duas revistas e não 25, aí seria um boom.

O Jorge Tarquini [DOM] disse que quando ele queria mandar um fotógrafo para Parada Gay não conseguia achar um que fosse cobrir. Ele não consegue frila, não consegue repórter, mas imagino que aqui seja diferente porque vocês trabalham com gays.
Então, para mim é o contrário. Por exemplo, Parada Gay eu contrato sete ou oito pessoas para cobrir porque a gente faz a maior cobertura on line. A gente vai para a home do UOL durante o final da semana. No dia seguinte a Parada, eu tenho aqui 50 ensaios de fotógrafos que mandam para gente. Para a Junior eu tenho um banco de colaboradores, de frilas, de gente que se ofereceu para trabalhar e gente bacanérrima.

Essa história de que gay tem maior poder aquisitivo é verdade?
Lógico que não. É o mito do mercado. Mas ele gasta mais, isso é verdade. Saiu uma pesquisa nos Estados Unidos que revela que o salário dos gays é menor do que o dos heterossexuais. O que é verdade é que temos uma renda disponível para lazer infinitamente maior que o heterossexual. Em primeiro lugar, por causa do estilo de vida. E em segundo porque não tem filho.

Qual a revista gay mais antiga que existe?
A americana The Advocate já existe há uns 30 anos. É uma revista de militância e já foi a revista gay mais importante. Ela tem uma importância mitológica e ela só não acaba porque ela é de um grupo muito grande e importante, mas hoje ela sai com 60 páginas, não existe mais.

Qual a maior revista gay do mundo?
É difícil dizer. A Out vende 300 mil e tantos todo mês. Tem edição que sai com 80 páginas de anúncio.

Por que não existe uma revista lésbica?
Eu trabalho há 15 anos no mercado e sei quem acessa o site. Nós temos uma área no site que chama Cio, para meninas. A audiência lésbica nunca passou de 10%, nas nossas pesquisas do site. Damos um espaço muito maior do que esses 10% para a questão das meninas, cerca de 15%, 20% do nosso conteúdo. Eu tenho um público lésbico que vai ao Festival e eu tenho que ter uma programação para isso. Temos que discutir essa questão, dar visibilidade apesar do público não passar de 10%. É uma questão importante. Mas na hora que eu vou fazer uma revista que vai contar com as vendas em banca e com os anunciantes, meu público é masculino.

Por isso que as revistas lésbicas não dão certo?
A Tetu, que em francês significa cabeça-dura, é do Yves Saint-Laureant. É um grupo francês que fez a revista por uma questão de militância. Atualmente, a revista é um sucesso comercial e chega a vender 120 mil em banca. Ela sai com quase 300 páginas e para mim é a revista gay mais linda que tem. O que acontece é que o público lésbico é diferente.

Você acha que uma revista como a Lolitos (voltada para gays, com fotos de garotos) não resvalar na questão da pedofilia?
São duas questões. A Lolitos é feita para o homem mais velho que gosta de garotos. Todo mundo tem mais de 18 anos, ninguém é menor, então legalmente não tem problema.

Os gays estão começando a aparecer nas novelas. Mas os gays da novela não se tocam, não se beijam...
O pior é que por querer apresentar o lado positivo os personagens não têm conflitos. Eles são, na verdade, personagens chatos, sempre bonzinhos. Precisa ter a problemática dele ser gay. Mas é um processo. Antigamente os personagens gays morriam em explosão de shopping, eram vilões. Agora eles têm que ser o mais normalzinho possível, politicamente correto para o público poder aceitar.

Veja também:

- Volta ao mundo editorial gay
- João Silvério Trevisan conta a história das revistas gays no Brasil
- Ana Fadigas: "O governo do PT sempre foi mais friendly"