"O fim das desigualdades depende de todos. É preciso denunciar os abusos", diz Mariza Tavares

Por Eduardo Neco/Redação Portal IMPRENSA | 09/03/2009 12:18

Mariza Tavares é uma poetisa, tem livros publicados e tudo o mais. Não bastasse o lirismo desmedido colocado nas páginas de "Fio" (2006) e "Privação de Sentidos" (2008), Mariza é diretora-executiva, desde 2002, da Rádio CBN, conhecida como um dos maiores veículos de hardnews do País.

Divulgação
Mariza Tavares
Mariza, a profissional, venceu a 5ª edição do "Troféu Mulher IMPRENSA" sagrando-se bicampeã da categoria "Diretora ou editora de redação". E seus 30 anos de experiência lhe deram base suficiente para saber que é uma exceção à regra, não apenas pelos prêmios que levou para casa, mas por saber ler a realidade das redações brasileiras e revelar que cargos de chefia nas mãos de mulheres ainda assustam muitos homens e que as cidades de São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ) não podem ser usadas como exemplo para o mercado. Mariza garante: há muito território a ser conquistado!

Em entrevista que comemora mais uma vitória em sua carreira, Mariza Tavares fala da necessidade de combater as desigualdades profissionais entre homens e mulheres de forma honesta, sem feminisno exacerbado, mas com argumentos inquestionáveis que apresentam a mulher como profissional.

Portal IMPRENSA - Existe algum estigma disseminado pelo retrógrado pensamento machista que ainda dificulta o avanço das mulheres no jornalismo?

Mariza Tavares - No eixo São Paulo-Rio-Brasília, as redações já não confinam as mulheres em cadernos de cultura ou suplementos femininos e elas também ocupam cargos de chefia. No entanto, esta ainda não é a realidade nas demais cidades e há muito território a ser conquistado.

Portal IMPRENSA - Apesar dos avanços em relação aos direitos das mulheres no mercado de trabalho, ainda existe desigualdade salarial - quando a mulher ocupa a mesma função de um homem - e ainda é grande a incidência de casos de assédio moral. Você acredita na mudança desse panorama?

Mariza - Os problemas persistem e o fim das desigualdades depende de todos: é preciso denunciar os abusos, que vão de eventuais desigualdades salariais a casos de assédio moral e até sexual. Mas também cabe às mulheres tomar as rédeas deste processo e se tornarem mais assertivas. Um exemplo disso: é muito mais comum o homem entrar na sala do chefe para pedir aumento do que a mulher fazê-lo. Ela espera que o chefe reconheça seu talento e a premie, ou seja, age como uma aluna bem comportada esperando um "parabéns" no boletim. Enquanto se comportar desta forma, vai perder oportunidades.

IMPRENSA - Hoje, as redações abrigam muitas mulheres, em muitos casos, o número supera o de homens. Na sua opinião, o que epxlica essa "invasão" das redações por parte das mulheres?

Mariza - Não chamaria este movimento de "invasão". As mulheres entraram no mercado de trabalho de um modo geral e estão ampliando sua presença em todos os setores. Tradicionalmente, elas podiam ser encontradas majoritariamente na área de ciências humanas, mas hoje se detecta o crescimento da participação feminina inclusive nos cursos de MBA. No jornalismo, as redações assistem a esta mudança há pelo menos duas décadas.  

IMPRENSA - Alguns acham que prêmios como o Mulher IMPRENSA são provas da desigualdade de gênero, machismo ou feminismo. Como você vê essa afirmação?Na sua opinião, dentro deste contexto, qual a importância do prêmio?

Mariza - O prêmio tem uma proposta de ação afirmativa e é importante justamente porque abre espaço e dá destaque ao trabalho de profissionais que estão na linha de frente das redações.

IMPRENSA - O Mulher Imprensa reconhece os trabalhos realizados no ano anterior à premiação. Na sua opinião, qual foi sua grande pauta no ano passado?

Mariza - Como diretora-executiva da CBN, acho que minha principal tarefa é descobrir novos talentos e estimular um ambiente criativo para que todos os profissionais, veteranos ou novatos, tenham espaço para aperfeiçoar seu trabalho e propor novas ideias. A criação do programa "Caminhos Alternativos", proposto por duas repórteres, Fabíola Cidral e Petria Chaves, é um bom exemplo da materialização desta relação com a equipe. As duas me apresentaram um projeto de programa sobre bem-estar, equilíbrio e terapias alternativas que, desde outubro de 2008, trouxe um frescor às manhãs de sábado na CBN. Eu me sinto profundamente recompensada.    

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