Memória: Tales Alvarenga fala sobre Veja, capitalismo e democracia

Redação Portal IMPRENSA | 06/02/2006 11:06

Fotos: Adolfo Vargas

Na noite de da última sexta-feira (03/02), o jornalismo brasileiro perdeu Tales Alvarenga, diretor editorial de Veja e Exame. O jornalista mineiro, de 61 anos, atuava na editora Abril desde 1976. Em 2004, passou a assinar uma coluna em Veja, revista que dirigiu entre os anos de 1998 e 2004.

Tales estava internado no hospital Albert Einstein, na capital paulista, e a causa de sua morte não foi divulgada pela assessoria de imprensa do local. O corpo do jornalista foi velado no próprio Albert Einstein e cremado no Crematório da Vila Alpina, às 13h30 de sábado (04/01). 

Abaixo, confira a entrevista concedida por Tales Alvarenga ao jornalista Renato Moraes (ex-editor executivo de IMPRENSA), publicada na edição de outubro de 2004 da revista.


Os Teoremas de Tales

Por Renato Moraes

Tales de Mileto (625/546aC), primeiro filósofo grego e do ocidente, entrou para a história por obra e graça dos escritos de Aristóteles. Tales Alvarenga, 60 anos, mineiro de Santana do Sapucaí, preferiu tornar público seus escritos sem a ajuda de outros. Cinéfilo eventual e agnóstico assumido, trocou a futura carreira de advogado pelo jornalismo na Belo Horizonte que lhe serviu como base de sua formação. Do jornal Estado de Minas, onde tudo começou em 1968, foi indicado para o Jornal da Tarde por um colega de profissão, quatro anos depois. Em 1976, ingressou na redação de Veja, onde passou por toda a grade (editor-assistente de Educação e Ciência, editor de Geral e de Política, editor-executivo, diretor-adjunto) até ocupar o cargo de diretor de redação da revista, no período 1998/2004. Durante esses dezoito anos, adquiriu a maioridade e a maturidade profissionais, que, hoje, lhe permitem abordar os mais diversos assuntos através da correta aferição e racionalização sobre eles. Como se estivesse demonstrando teoremas à semelhança do filósofo e geômetra que o antecedeu no arco do tempo. Seus primeiros anos na revista, coincidiram com a progressiva implantação na redação da postura reflexiva sobre os fatos. A matéria-prima era outra, derivada dos anos de chumbo da ditadura militar, onde pontificavam a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), atores principais da contestação ao regime que ele acompanhou sucessivas vezes como repórter.

Escolado pela instabilidade do período pós-JK, das reformas de Roberto Campos ao "milagre econômico" de Delfim Netto, presenciou a debacle provocada pela crise do petróleo e os sucessivos planos econômicos que, invariavelmente, deram com os burros n'água: Cruzado, Bresser (Verão 1), Maílson (Verão 2), a hiperinflação do governo Sarney, o desastre causado pelo confisco de Collor, secundado pelo fechamento do país aos avanços mundiais (caso da informática e do carro nacional) até a nova abertura dos portos às nações, depois de uma década perdida, a de 1980. Atual diretor editorial do grupo Veja/Exame da editora Abril, ele encabeça o retorno às origens das duas revistas, almas siamesas que voltam a interagir em busca da complementaridade, dentro de um novo desenho. No final de uma tarde de sexta-feira de setembro passado, Tales se deu a um luxo antes inimaginável. Finda a entrevista para IMPRENSA, abandonou sua sala no vigésimo andar do prédio da Abril, à frente da marginal do rio Pinheiros, e desceu ao térreo para resolver questões pessoais. Algo que, sete meses atrás, seria impensável para ele e qualquer outro que ocupou ou venha a ocupar o comando da redação de Veja

IMPRENSA - Em uma alentada tese de doutoramento ("Indispensável É o Leitor" - O Novo Papel das Revistas Semanais de Informação no Brasil"), a professora doutora de jornalismo, Maria Alice Carnevalli, disseca a mudança no "estado da arte" das principais publicações do gênero no país. Nela, fica claro a desvinculação atual destas revistas em relação aos fatos marcantes da semana, em benefício dos chamados faits divers (saúde, moda, celebridades, escândalos, esquisitices etc). Você concorda com a análise?
Tales -
O que eu vou te falar sobre Veja, vale para as outras revistas semanais concorrentes. Matéria sobre política não incrementa vendas, ao contrário das sobre comportamento que sempre elevam a tiragem, independente do caráter apelativo adotado, vez por outra, por nossos concorrentes. O fato é comprovado não só pelas pesquisas encomendadas aos institutos especializados, como pelo instinto.


IMPRENSA - Que tipo de instinto?
Tales -
Conversando com as pessoas e sentindo a sua reação em relação às matérias publicadas. Além das cartas dos leitores. De repente, se faz uma capa com o ex-presidente Fernando Henrique e as vendas despencam, ninguém escreve uma carta a respeito. Citei ele, especificamente, porque foi com uma capa feita por nós, centrada na sua pessoa, que tive minha primeira decepção em termos de receptividade por matérias políticas. Foi publicada no ano da sua disputa pela reeleição e obteve um dos menores índices de vendagem da revista.




Imprensa - Ceder ao gosto e ao encanto dos leitores, não significa se atrelar em demasia aos ditames do mercado?
Tales -
Para ser sincero, isso tem uma relação direta com uma mudança substancial da conjuntura brasileira. Nesse sentido, a história de Veja é emblemática. Nascida com o AI-5, ela perpassou todo o período ditatorial e suas atribulações, que ofereciam matéria-prima abundante para capas e grandes reportagens em cima do noticiário: CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), para ficar em dois exemplos. Com o advento da previsibilidade, que eu situo a partir da implantação do Plano Real, nós percebemos que o noticiário político e econômico brasileiro havia se tornado uma coisa alegremente ausente. Simplesmente, não haviam mais ciclones institucionais, repetidos em seqüência. Diante do novo quadro de muito menor trepidação, Veja partiu para enfoques comportamentais, com uma visão do mundo mais abrangente. Enfim, a revista ousou dar uma guinada e ser original, diferentemente das outras revistas semanais.


IMPRENSA - Que originalidade foi essa? 
Tales -
Fomos pioneiros, porque estávamos atados a uma vanguarda que comungava com a percepção externa de que o Brasil continuava sendo um país provinciano - sem nenhum sentido pejorativo ou negativo -, reflexo do tipo de instituições que prevaleciam. Um país, como você se lembra, fechado em questões exclusivistas como o petróleo, desde Getúlio Vargas até Ernesto Geisel. Com o acesso bloqueado durante mais de vinte anos aos avanços planetários da informática. Era o Brasil do poder obcecado por si mesmo, norteado por obras faraônicas (pólos petroquímicos, Itaipus da vida, ponte Rio-Niterói, o controle do átomo) e de costas para o mundo. Enquanto nossos carros, como disse o ex-presidente Collor, equivaliam a carroças quando comparados com similares estrangeiros. De modo que não foi só a Veja que mudou, o mundo mudou bruscamente. Nós apenas acompanhamos essas transformações.


IMPRENSA - Transformações que redundaram em um fato inexorável, a globalização, no final dos anos 1990.
Tales -
Exatamente. Foi como se o Brasil tivesse sido invadido por uma manada de elefantes. Trazendo ou reformulando idéias, conceitos, visões, produtos, políticas, culturas etc. Tanto que daqui há cem anos, tenho a impressão, é isso que vai permanecer na memória desse tempo. Não é, por acaso, que Veja tenha sido a primeira revista semanal a colocar na capa, em abril de 1996, a globalização. Um trabalho denso, profundo e analítico sobre esse fenômeno, explicando o que ele era e o que viria a representar daí para a frente.


IMPRENSA - Numa elipse do tempo, ela coroou uma nova abertura dos portos do Brasil às nações, independentemente de serem amigas.
Tales -
Basta olhar pelo retrovisor. Até uma época recente, a gente só podia viajar para o exterior levando um máximo de dois mil dólares. Só que nós queríamos ver todos os filmes que aqui eram censurados, comprar todos os produtos que aqui não existiam e assim por diante. Tudo isso desabaria nos anos 1990. Veja se orgulha de ter participado de toda a polêmica em torno do assunto, desde o seu nascimento sem se recusar à pergunta: isso foi bom ou ruim?





IMPRENSA - Por falar em polêmica, a revista sempre esteve presente nos noticiários por causa delas, transitando num território marcado por uma tênue divisão entre o investigativo e o sensacionalista. Qual é a posição de vocês em relação a essa questão que eu batizei de "furor do furo"?
Tales -
A minha preocupação, quando assumi a direção da redação de Veja, foi a de jamais inibir o jornalismo quente, investigativo. Costumo dividir a pauta dos assuntos relevantes, partindo do próprio corpo humano. Obviamente, você sabe, eles começam com os interesses primordiais: a alimentação, a saúde, a beleza, o prazer. Num segundo ciclo, vêm o emprego, o status, a carreira, o amor, o sexo, a família etc. Hipoteticamente falando, se você conversar com a sua prima de Araxá, perceberá que o interesse político dela está em quinto lugar entre suas preferências. O interesse por assuntos econômicos, então, deve estar no nono ciclo. Por isso, eu acho que uma revista deve, de alguma maneira, refletir um pouco desses interesses primários dos seres humanos. Porém, se ela não mantiver as antenas ligadas nos hard news e uma presença ativa na vida política e cultural da nação, ela não será uma revista de informação, à exemplo de boa parte das publicações em circulação.


IMPRENSA - Veja tem a quarta maior tiragem entre revistas semanais do mundo. Logicamente seu público leitor é multi-diversificado. Diante disso, vocês montam a pauta de que forma? Existe uma média ponderada?
Tales -
Cerca de 85% dos leitores da revista fazem parte das classes A e B, enquanto suas concorrentes têm um público-leitor quase oposto, voltadas para o apelo popular. Por uma dessas coisas únicas brasileiras, como a jabuticaba, Veja é uma revista com grande poder de influência na vida brasileira. Só para se ter uma idéia melhor, as revistas semanais de informação do EUA não têm importância alguma no cenário político do país. Quem exerce esse papel, de fato, são os jornais The New York Times e The Washington Post; eventualmente, uma rede aberta de televisão.

IMPRENSA - E por que a história aqui é diferente?
Tales -
Porque ela é reflexo das peculiaridades brasileiras e porque ela se propôs a ser um órgão de influência cultural, em seu sentido mais amplo. Não é apenas uma opinião pessoal, está fundamentado em pesquisas: os dois veículos com maior influência política no Brasil são o Jornal Nacional da Rede Globo e a revista Veja. O que é motivo de grande orgulho da redação e de responsabilidade também. 


IMPRENSA - Você poderia exemplificar esse poder?
Tales -
Posso citar dois casos: a matéria sobre os grampos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Ecpnômica e Social), contendo o resumo dos principais diálogos envolvendo o ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, o presidente do banco, André Lara Rezende e Ricardo Sérgio, presidente do Banco Central, autor da resposta antológica ("Estou no limite da responsabilidade") à pergunta ("Vai botar dinheiro ou não vai?), relacionada com a privatização das empresas telefônicas. E uma outra, que não foi furo de reportagem, sobre o Movimento dos Sem Terra (MST), fenômeno importante do cenário brasileiro atual, que demonstra bem a visão e os princípios básicos da revista.

IMPRENSA - E quais são esses princípios?
Tales -
Em primeiro lugar, Veja é a favor da democracia, obviamente. Quem é contra a democracia? Um sistema institucional cuja base material é o capitalismo, o menos ruim dos sistemas econômicos e nosso segundo princípio. O terceiro é a lei e seu cumprimento. E, por último, a liberdade de imprensa.


IMPRENSA - A favor disso e contra o quê?
Tales -
Como Veja é a favor da democracia e da imprensa livre, ela adota uma posição contrária a Fidel Castro, o que nos causa um enorme problema de leitura ideológica. Também é contrária às práticas do MST, por uma razão muito simples: invadir propriedades privadas é infringir as leis e a constituição vigentes, norma de todos os países civilizados do mundo, hoje. Aí, reagem, montam uma corrente na internet, inventam histórias e caluniam a minha pessoa. Como se nós é que tivéssemos cometido um crime.


IMPRENSA - Ter opinião própria é o ponto forte da revista?
Tales -
Fortíssimo. Uma revista semanal de informação tem a obrigação de ter opinião formada sobre todos os assuntos que aborda, sem contudo editorializar do começo ao fim. Para tal, precisa definir-se e assumir os princípios que defende. Sob esse aspecto, posso afirmar que Veja tem mais princípios do que quase todos os órgão da imprensa brasileira.


IMPRENSA - Falando em opinião formada, tem um ponto crucial e fundamental no estágio atual do jornalismo brasileiro que é a perda da massa crítica das editorias de cultura da mídia nacional. Exatamente o posto do papel que Veja cumpriu, de forma exemplar, no início dos anos 1970. A que você atribui essa subserviência à indústria cultural?
Tales -
Não me arrisco a te dar um veredicto. Escrevi um artigo, recentemente, que acredito que responda à sua pergunta. Nele eu disse que o Brasil precisa ter um projeto de passado. Quem não tem projeto de passado não pode ter projeto de futuro, já que este é construído com pedaços do passado, mesmo que você não os reconheça. Pois bem: numa analogia com a cultura, eu lembrava, especificamente, da música popular brasileira, talvez nossa mais rica manifestação artística e que viu três ou quatro de suas gerações de geniais criadores serem enterradas vivas pelo Brasil. O que aconteceu? Você liga a televisão e só assiste ou escuta música sertaneja e pagode. Espelho que é, a imprensa reflete o que ela está vendo.


IMPRENSA - Não seria o caso de uma revista como Veja dar o exemplo e resgatar essa dívida?
Tales -
É complicado e requer uma discussão à altura da questão. No fundo, penso que o país precisa de uma nova Semana de 22, de uma reflexão que o projete para a frente. De choques culturais semelhantes aos que eu levei quando conheci a literatura de Guimarães Rosa, a música de Tom Jobim, de Caetano Veloso e de Chico Buarque. Posso estar ficando velho, mas eu acho que está na hora de repensar um pouco porque surgiram aqueles filmes do Cinema Novo, porque havia aquela música e aquela literatura, porque a poesia desapareceu do mapa. Quem sabe seja este o momento adequado para colocar este tema em debate.


IMPRENSA - Já que abordamos a possibilidade de acertar o compasso, você acha que Veja errou no episódio com o deputado Ibsen Pinheiro?
Tales -
O problema de toda essa polêmica é que se perdeu o contexto histórico em que o fato se inseria, muito diferente do atual. Isso só enfatiza o que eu disse acerca da importância de Veja. A revista publicou a mesma coisa que os outros veículos publicaram, mas o que ficou na memória foi o que ela divulgou. Tenho certeza de que Veja não errou. E espero que a querela recente envolvendo a revista e IstoÉ seja o final de uma época.