O engodo da TV a cores

Nelson Varón Cadena | 17/08/2009 17:30

Há 40 anos telespectadores de Brasília foram surpreendidos com a exibição, sem aviso prévio, de imagens de maços de cigarros e garrafas de cerveja, a cores, no break comercial do programa de Jean Pouchard. Minutos depois ficavam sabendo que a exibição de comerciais em inglês nas cores azul, vermelho e verde tinha sido possível graças a uma engenhoca chamada Color Tel, invenção do americano James Butterfield, paliativo muito fajuto para a televisão colorida que os brasileiros tanto almejavam. Um sistema muito simples, nada excepcional, um pouco melhor do que as telas transparentes importadas do Japão desde 1961 que ganhavam tons bicolores e tricolores ao gosto do usuário.

As experiências no programa de Pouchard, ex-colunista Social do Diário Carioca cujo verdadeiro nome era Mauro Valverde, nada mais era do que uma tentativa de se antecipar à tecnologia a cores que o país já negociava desde 1967 quando decidira adotar o sistema PAL-M, infeliz adaptação do PAL Europeu. A Revista Veja assim registrou a novidade: "Noventa por cento das pessoas que ligaram os televisores no dia 7 de agosto em Brasília tiveram uma surpresa: viram surgir no vídeo, em azul, vermelho e verde, desconhecidas marcas de cigarros e rótulos de cervejas anunciados em inglês. Era a TV Alvorada, canal 8, fazendo a primeira experiência no Brasil do sistema Color Tel, invenção americana que permite aos aparelhos comuns de TV receberem imagens coloridas sem sofrer qualquer adaptação".

Precariamente colorida
A Publicação alertava para algumas das limitações da referida engenhoca: "O Color Tel só funciona nos aparelhos que estejam em salas iluminadas por lâmpadas incandescentes. Essa TV precariamente colorida serviu para quebrar a monotonia em que Brasília mergulhou desde a decretação do recesso do Congresso". E descrevia a sua configuração: "O Processo Color Tel... baseia-se em estímulos luminosos que só o olho humano percebe. É a variação da intensidade desses estímulos que dá a variação da cor: uma Câmara fotográfica diante do vídeo não consegue captar as cores... Os cariocas e paulistas só verão anúncios coloridos daqui a alguns meses. A Alton quer fazer um grande lançamento já com anúncios de produtos brasileiros".

A descrição do produto, mesmo com o disfarçado entusiasmo da mídia, permite imaginar a sua precariedade e o tamanho da encrenca daqueles que apostaram as suas fichas no Color Tel, no país representado por uma empresa denominada Alton Promoções. A revista semanal falava em exibições em outras praças, mas deixava claro que apenas no break comercial. Ou seja, exibição para tapear, ou iludir. Nada consistente. Uma degustação muito desabrida para atender a ansiedade em torno da definitiva implantação do sistema de TV a cores que então já era realidade nos Estados unidos, Cuba, França, Canadá e Hungria.

O Color Tel não foi adiante e os brasileiros tiveram mesmo de aguardar mais dois anos e meio para assistir a TV a cores. Não todos. Alguns privilegiados já tinham acesso ao sistema cromático desde meados da década de 60. Experiências em circuito fechada tinham sido realizadas em 1963 pela TVTupi com a exibição do documentário "Volta ao Mundo" e do seriado "Bonanza" e também pela TV Excelsior com um show ao vivo no estande da Maxwell, produzido por Manoel Carlos e mais tarde com o programa "Moacyr Franco Show". Em 1964 a agência de propaganda Panam, por sua vez  exibira a cores o famoso comercial em desenho animado dos esquimós da Brastemp. E em 1968 convidados da TV Globo assistiram o Prêmio Brasil de Turfe.

 Dois anos depois  convidados vip da Embratel assistiram a Copa do Mundo em exibições fechadas em três cidades. A Copa antecipava a tecnologia a cores para os amigos do Rei. A começar pelo Presidente da República, Emilio Garrastazu Médici que teve um aparelho especial instalado no Palácio e claro o todo-poderoso Walter Clark que instalou uma aparelhagem para receber sinal em NTSC, convertido a PAL-M na sua sala da TV Globo.