Abertura do Congresso de Jornalismo Investigativo da Abraji conta com ministro do STF e discussão sobre desinformação

Kassia Nobre | 11/09/2020 13:44
A abertura do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji contou com a participação do ministro do STF Alexandre de Moraes, que foi entrevistado pela jornalista Natuza Nery, da GloboNews.

Moraes comentou sobre o inquérito das fake news, que apura a disseminação de conteúdo falso na internet, e ameaças a ministros do STF. 

“O que mais me causou surpresa quando entrei em contato com este mundo da desinformação é o extremo profissionalismo das milícias digitais. Eu já acompanhava, mas eu não tinha noção, e acho que ninguém tinha, desse profissionalismo”.

O ministro acredita que houve uma cegueira coletiva, inclusive da imprensa e do público geral, sobre a atuação desses grupos. 
 
“Confundimos grupos de WhatsApp de família com milícias profissionais. Com isso a própria mídia profissional acabava divulgando e dando amplitude para notícias que eles inventavam. Não tenho nenhuma dúvida que as redes e as milícias estão sendo utilizadas para uma grande lavagem de dinheiro que volta via doações eleitorais. É muito mais grave do que as pessoas achavam e continuam achando”.

Moraes afirma que uma das finalidades do inquérito é o mapeamento desses grupos para que a Justiça Eleitoral possa coibir as práticas nas eleições futuras. 



Crédito:Reprodução Congresso Abraji

Responsabilidades das plataformas
O ministro comentou sobre a responsabilização das empresas de tecnologia, como Google e Facebook. 

“As plataformas não têm o mínimo compromisso com o que se divulga. Elas deveriam ser classificadas da mesma forma como as empresas de mídia. O que precisaria é uma responsabilização destas plataformas. Desta forma, fica difícil coibir o que vem ocorrendo”. 

O ministro também comentou sobre os casos recentes de ataques contra jornalistas. 

“Faz parte da profissão do jornalista incomodar. Um jornalista investigativo que não incomodar deve procurar outra profissão. Eu entendo que é inadmissível que um jornalista seja covardemente ameaçado ou coagido. Não existe liberdade de imprensa com jornalista ameaçado. A proteção ao jornalista é o papel do poder judiciário. Assim como garantir a liberdade de atuação da imprensa e garantir a autonomia e tranquilidade para que o jornalista possa atuar”. 
   
Desinformação e estudo de caso do BuzzFeed
A abertura do congresso contou ainda com a palestra sobre a desinformação e os desafios para o jornalismo com a presença de Craig Silverman do BuzzFeed. 

Craig compartilhou com o público um estudo de caso que resultou de uma investigação para o BuzzFeed.  

“O meu estudo de caso foi um anúncio no Facebook que vendia máscaras. Logo percebi que existiam muitas informações falsas sobre a eficiência do produto e comecei a investigar quem vende e quem compra este objeto. Procurei no Google pelo site e vi uma discussão de pessoas falando sobre as máscaras. Percebi que a empresa tinha nomes e origens diferentes, o que cria uma certa confusão. Parece que eles estão nos EUA, mas eles estão na Malásia e as pessoas que cuidam do site ficam na Espanha, mas a empresa é registrada em Hong Kong”, relatou. 

Craig ensina que o olhar do jornalista deve ir além da superfície da rede digital. 

“As informações falsas precisam motivar uma investigação. Você não precisa ser um repórter especializado em desinformação para isso. É preciso entender que o ambiente digital é facilmente manipulado e que as coisas que parecem ser autênticas e popularizadas podem ser falsificadas”.  

Após a publicação da investigação, o Facebook baniu o anúncio da plataforma. 

“O trabalho levou muito tempo e foi técnico e chato. Porém qualquer jornalista pode e deve fazer para combater a desinformação”. 


Crédito:Reprodução Congresso Abraji


Craig listou algumas características típicas daqueles que produzem desinformação: “apelam para a emoção e as crenças das pessoas. Algo que deixa muito feliz ou com muita raiva. Usam ferramentas de rede para recrutar e convencer as pessoas para que as informações circulem. Usam uma linguagem muito visual”.  

O jornalista também discutiu sobre o projeto de lei sobre as fake news que está sendo analisado no Brasil. 

“Você pode ter legisladores com boas intenções, mas há risco de aumentar o estado de vigilância e de atrapalhar a liberdade de expressão e risco de tentar legislar em cima das plataformas. Há uma tensão muito clara entre liberdade e liberdade de expressão e vigilância. Precisamos ser cautelosos, mas o governo deveria pensar em um programa educacional para ajudar a população a julgar a informação que recebe neste novo ambiente confuso da desinformação”.

Além disso, complementa Craig, “fico preocupado quando vejo o projeto de lei sobre fake news porque é uma área muito tecnológica e os governos tendem a não ser muito bons em legislar sobre assuntos tecnológicos”.  


Leia também