Jornalistas ainda enfrentam excesso de trabalho e falta de valorização nas empresas, mostra pesquisa

Redação Portal Imprensa | 10/09/2020 12:19

Uma pesquisa divulgada nessa quarta-feira (9) pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) revelou que a maior parte dos jornalistas entrevistados considera regular ou ruim a valorização da empresa pelo trabalho desempenhado e a garantia dos direitos trabalhistas.

Crédito:Pexels


Dos 21 profissionais que responderam ao levantamento “Histórias cruzadas: saúde mental do jornalista dentro das redações”, coordenado pela jornalista Gabriela Oliva, aproximadamente 28,6% afirmaram trabalhar de 10h a 12h horas por dia, enquanto 4,8% trabalham mais de 12h.


“Os jornalistas trabalham muitas horas extras, mas em poucos casos são pagos por elas e nem conseguem tirar as folgas que ganharam. Além disso, diversas redações não oferecem os equipamentos nem suporte necessários para o trabalho. Há também uma falta da cultura de feedbacks ou diálogo entre chefia e repórter, o que poderia ajudar na melhora da produtividade dos funcionários”, comentou uma das entrevistadas.


O estudo ouviu trabalhadores do Rio de Janeiro e São Paulo, entre 22 e 82 anos de idade. Cada um respondeu 42 questões sobre perfil pessoal, experiências profissionais, avaliação sobre as condições de trabalho dentro das redações e saúde mental na profissão.


Sobre a valorização da empresa ao trabalho produzido, 33,3% avaliaram como regular, e quanto à valorização do profissional, 80,9% dizem ser regular ou ruim. 38,1% consideram ruins as oportunidades de crescimento e inovação onde trabalham.


Perguntados sobre a percepção da garantia de direitos trabalhistas no setor, mais de 65% consideraram regular ou ruim.


A pesquisa revela um cenário antigo na imprensa: condições de trabalho hostis, excesso de jornadas, fragilidade de vínculos empregatícios e violência contra profissionais do jornalismo, que afetam a qualidade de vida e a saúde mental dos profissionais.


“Em 25 anos de carreira, passei por todas as redações do Rio de Janeiro, nos mais variados cargos e editorias. Em maior ou menor escala, falta um entendimento de que o período de trabalho deve começar, mas também terminar. A chegada de tecnologias como o Whatsapp fez o jornalista ‘estar’ no trabalho mesmo após ir embora. É verdade que a implementação do banco de horas é um avanço, pois era infinitamente pior, mas ainda se passa por cima disso através de perguntas feitas e/ou missões dadas quando o jornalista já deixou da redação. A extrapolação de horas sem uma compensação justa é uma delas uma das infrações recorrentes, a pejotização dos funcionários é outra, bem grave. Além disso, estamos em um país que sempre respeitou muito pouco a profissão, no que tange a valorização, acredito que tal atitude jamais se concretizou. Agora, porém, o problema aumenta porque a imprensa é tratada como inimiga, dependendo do lado político em que o público esteja”, destacou um dos entrevistados em relato anônimo.


Saúde mental


Em meio a relatos da falta de condições de trabalho para a imprensa, foi apontada a ausência de políticas sobre saúde mental no cotidiano das redações. Cerca de 70% dos entrevistados afirmam ter diagnóstico de transtornos psicológicos.


Mesmo assim, 76,2% responderam que não existe um canal para tratar de saúde mental nas empresas jornalísticas. 42,9% avaliaram que as instituições encaram o tema de saúde mental de forma regular.


Quanto à renda, 85,7% têm medo de perder o emprego, e 52,4% consideram seu nível de estresse elevado. Os entrevistados ainda apontaram episódios de assédio verbal, psicológico, moral e sexual. “Lidei com machismo durante toda a minha carreira”, disse uma mulher jornalista entrevistada.


Outros dados


Dentre os entrevistados, 57,1% se identificaram com o gênero masculino e 42,9% com o feminino. Um total de 76,2% se auto declararam como brancos, 19% pardos e 4,8% pretos.


A principal função exercida dentro do jornalismo pelos profissionais é de repórter (52,4%), seguida da atuação como editor, editor assistente e jornalista especializado (14,3%). O regime de trabalho da maioria está sendo feito em home office (33,3%), seguido pelos profissionais que estão em trabalhando na sede da empresa.


Segundo os dados levantados pela pesquisa, 71,4% dos jornalistas encontram-se empregados e 14,3% atuam como freelancer.


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