Com ou sem home office, mães jornalistas confirmam sobrecarga durante a pandemia

Redação Portal Imprensa | 27/08/2020 10:59

O resultado da pesquisa “Mães jornalistas e o contexto da pandemia”, divulgado nessa quarta-feira (26), mostra que a divisão de tarefas entre homens e mulheres ainda está longe de ser equilibrada, e que o home office exercido por conta do isolamento criou entre elas uma condição de disponibilidade para o trabalho quase de tempo integral.

Crédito:Pexels


O estudo foi coordenado pela Comissão Nacional de Mulheres da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e recebeu respostas de 629 profissionais jornalistas de todos os estados do Brasil, entre os dias 7 e 17 de agosto.


Em linhas gerais, elas afirmaram que mesmo quando compartilham tarefas, se sentem sobrecarregadas com aulas online, alimentação e cuidados da casa, tudo isso conciliando com o trabalho.


A pesquisa contemplou perguntas sobre quatro aspectos: perfil das trabalhadoras jornalistas, condições de trabalho, situação familiar e a opinião delas sobre a volta às aulas presenciais dos filhos. Confira os resultados:


Perfil profissional e condições de trabalho


A principal função exercida dentro do jornalismo pelas mulheres que são mães é de assessora de imprensa (40,06%), seguida da atuação como repórter (15,9%).


O regime de trabalho da maioria está sendo em home office (59,78%), seguido pelas profissionais que estão em regime misto, ou seja, mesclando trabalho remoto com atividades presenciais.

Crédito:Fenaj


Pouco mais da metade, 57,82%, não teve alterações no salário e na jornada de trabalho, mas outras 16,4% foram impactadas com redução salarial ou suspensão do contrato de trabalho previstas na legislação que instituiu o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda (Lei Nº 14.020/2020).


Das mães jornalistas, 7,6% estão desempregadas e 15,1% precisaram solicitar o benefício emergencial, sendo que 4,13% obtiveram o valor de R$ 1.200, destinado às mães que são as únicas responsáveis pelos filhos ou são chefes de família. 5,41% solicitaram, mas não receberam.


Situação familiar


Para 63,4% das mulheres pesquisadas, a responsabilidade com filhos é compartilhada com o pai. Mas a segunda maior ocorrência é de mulheres jornalistas que são mães solo e também as únicas responsáveis pelos filhos (22,4%). Ainda que a maioria tenha declarado que compartilha cuidados e responsabilidades, 85,9% assinalaram que se sentem sobrecarregadas na pandemia.



Além disso, 26,7% dessas mulheres são responsáveis pelos cuidados de outras pessoas, como familiares idosos que precisam de apoio durante a pandemia, segundo declararam.


Para a diretora executiva da Fenaj, Paula Zarth Padilha, a pesquisa aponta o quanto a atividade de cuidado é quase que exclusiva das mulheres. “Entre as mães jornalistas que contam com apoio, a maioria das pessoas com quem dividem os cuidados com relação aos filhos é do gênero feminino. Em outros casos, o apoio vem de um homem que não é o pai [da criança]”, pontua.


As mulheres relataram ainda dificuldade de atender os filhos durante aulas remotas; cobranças por desempenho no teletrabalho sem ter qualquer empatia por parte dos superiores hierárquicos; e sensação de estarem o tempo todo tendo que se colocar à disposição para o trabalho.


E quem continua exercendo o trabalho presencial ou misto não tem qualquer suporte para a situação das aulas estarem suspensas e pelo risco de não estar em isolamento.


Volta às aulas


A maioria das mães jornalistas (82,3%) têm filhos que cursam até o 5º ano do ensino fundamental, ou seja, desde bebês até crianças com 10 ou 11 anos de idade.


21,5% dos filhos em idade escolar não estão em aula remota, mas ainda que as mães deem relatos de esgotamento por ter que acompanhar o ensino em casa, 88,4% são contra o retorno das aulas nos próximos meses.


Ao menos 47,1% das mães não vão permitir que os filhos retornem às aulas presenciais em 2020 caso a escola retome as atividades e 18,6% cogitam retirar os filhos da escola se a frequência presencial for obrigatória.


“Essa questão situa as jornalistas no debate geral sobre a educação no contexto da crise de Covid-19, fazendo coro a trabalhadoras de outras categorias que já se pronunciaram sobre os riscos de retorno de crianças, adolescentes e jovens aos espaços educacionais”, aponta Aline de Oliveira Rios, integrante da Comissão de Mulheres pelo Sindicato dos Jornalistas do Paraná (Sindijor/PR) e uma das responsáveis pela sistematização dos dados.


Fenaj 


A Comissão Nacional de Mulheres da Fenaj irá encaminhar os resultados da pesquisa aos sindicatos filiados para que possam orientar possíveis medidas que tenham também como objeto a preocupação com as questões de gênero no trabalho.


A pesquisa também será enviada a órgãos de proteção ao trabalho como um esforço para chamar a atenção para a realidade das mulheres trabalhadoras, que não é exclusiva, mas se acentua, no contexto da pandemia.


Rose Dayanne Santana Nogueira, diretora da Fenaj, afirma que os resultados obtidos escancaram a necessidade de regulamentação do home office, de equidade no ambiente de trabalho e de reflexão sobre os rearranjos familiares durante a pandemia.


Acesse aqui o relatório da pesquisa


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