Ricardo Gandour discute em novo livro as transformações do jornalismo e os riscos para a democracia

Kassia Nobre | 24/08/2020 11:52
O jornalista Ricardo Gandour acaba de lançar o livro Jornalismo em retratação, poder em expansão: A segunda morte da opinião pública (Summus Editorial). 

A obra analisa as transformações do ecossistema da informação, como as crises estruturais do jornalismo, provocadas pela queda das receitas publicitárias, novas tecnologias e enxugamento das redações. 

Desta forma, o autor busca responder como o encolhimento da imprensa e o uso crescente de redes sociais por governantes podem degradar o ambiente informativo e prejudicar a democracia. 

O autor investiga ainda o campo da comunicação e do jornalismo numa época em que os efeitos devastadores das chamadas fake news são cada vez mais discutidos e que se tenta desacreditar o jornalismo profissional. 
 
Ricardo Gandour tem uma consolidada carreira como editor e dirigente de redações, como o Estado de S. Paulo e a Rádio CBN.   


Crédito:Divulgação Summus Editorial

Portal Imprensa - A obra relata sobre as crises estruturais do jornalismo, provocadas pela queda das receitas publicitárias, pelas novas tecnologias e pelo enxugamento das redações. Na sua análise, quais seriam os caminhos para a profissão lidar com esta realidade? O jornalismo brasileiro ainda está em crise?
Ricardo Gandour- Os caminhos da profissão são manter sua relevância no papel de mediação entre a informação e o público. O grande desafio está na gestão dos empreendimentos, na tentativa de suprir a fragmentação das receitas publicitárias com o financiamento direto pelos usuários e leitores, pelos micro-pagamentos. É a saída que muitas publicações do mundo têm encontrado. O jornalismo brasileiro nunca esteve tão em alta e nunca se provou ser tão importante e necessário como nesta pandemia. A demanda por produtos de informação crível só tem aumentado.
 
Portal Imprensa - A obra aborda ainda o cenário dos efeitos devastadores das fake news. Como o livro analisa o impacto deste fenômeno para o jornalismo e para a democracia?   
Ricardo Gandour - A obra aborda os efeitos das fake news e deixa claro que mesmo o que repercute nas redes sociais tem como base aquilo que é publicado pelas redações tradicionais. O que alerto é sobre um possível enfraquecimento da imprensa como formadora da “agenda pública comum”, um mínimo consenso em torno do qual uma sociedade se organiza para evoluir. Isto sim pode ser prejudicial ao funcionamento democrático e às instituições republicanas.
 
Portal Imprensa - O livro cita sobre uma segunda morte da opinião pública. Como isso se concretiza? 
Ricardo Gandour - É uma analogia que fiz ao estudar a obra do filósofo alemão Jurgen Habermas, que chamou de morte da opinião pública o momento em que, quando surge o capitalismo mercantil, o seleto grupo aristocrático dos “homens de bem”, aos quais estava reservado o direito de pensar e opinar, foi ao longo de séculos sobrepassado pelas instituições burguesas e republicanas, entre as quais a imprensa. 

Nessa transformação, a sociedade civil organizada se apropria desse espaço e passa a usar as instituições para fiscalizar o Estado. Agora, com o solapamento da imprensa pelo contato direto propiciado pelas redes sociais, coloco a indagação: podemos vir a presenciar a “segunda morte” da opinião pública?
 
Portal Imprensa - Como você analisa as iniciativas dos jornais brasileiros no combate à desinformação? Elas estão no caminho certo?
Ricardo Gandour - Penso que sim, com seus grupos de checagem e uma permanente tentativa de priorizar os recursos existentes em reportagens de maior fôlego, fazendo escolhas e priorizado coberturas.

Portal Imprensa - Como você analisa o futuro cenário das informações durante as eleições municipais deste ano? Ainda há tempo do enfrentamento da desinformação pelo jornalismo ou haverá o risco de reviver a intensa circulação de notícias falsas como ocorreu em 2018?
Ricardo Gandour - Vejo, com otimismo, uma evolução de eleição em eleição. Muitas redações já se preparam para enfrentar a tentativa de espalhar desinformação, por meio de grupos de checagem próprios ou de parceiros. Com isso, as próprias candidaturas tendem a mudar de postura, ou no mínimo serem mais cautelosas. O que prova os efeitos do bom jornalismo, que tem o poder de provocar mudanças.