Nostalgia: Cineclube Macunaíma está de volta de forma virtual

Redação Portal IMPRENSA | 20/08/2020 11:32
Após 38 anos de seu fechamento, o cineclube Macunaíma retorna ao circuito de forma virtual. A estreia será no dia 25 de agosto, às 20hs, no canal da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) do Youtube.

Os documentários exibidos serão do cineasta brasileiro Sílvio Tendler: “Dr.Getúlio – últimos momentos”, um curta de 6 minutos que apresenta a verdadeira carta-testamento escrita pelo presidente, e “Os advogados que disseram não”, documentário com 130 minutos de duração e depoimentos dos juristas que defenderam presos políticos.

Durante nove anos, o Cineclube Macunaíma animou os sábados cariocas, sendo um grande marco na história do circuito de cinema alternativo do Rio de Janeiro. 

Fundado em 1973 por jornalistas sócios da ABI destacou-se por sua programação que valorizava o cinema de arte, principalmente aquele produzido no Brasil.

Crédito:Divulgação ABI


Sobre os documentários
Dr. Getúlio- últimos momentos narra os dias que antecederam ao suicídio do presidente que governou o país por 18 anos. Reconstrói o período que vai desde o atentado da rua Tonelero  até a morte do presidente. 

O curta permite ao espectador reviver o mês que ficou marcado na história do país como um trauma coletivo. O fio condutor é a contundente versão-original da carta-testamento de Getúlio, registrando mágoas e ressentimentos. E diz que decidiu prestar contas a Deus dos poderosos interesses que contrariou e lamenta o abandono pelos aliados.

Com a instauração da ditadura militar através de um golpe das Forças Armadas do Brasil, no período entre 1964 e 1985, o papel dos advogados na defesa dos direitos e garantias dos cidadãos foi fundamental no confronto com a repressão, ameaças e todo tipo de restrições. “Os Advogados contra a Ditadura” (2014) propõe uma profunda reflexão sobra a época em questão, relembrando, através de depoimentos e registros de arquivos, a relevante e ativa participação dos advogados contra as imposições do autoritarismo e na luta pela liberdade. 

Dirigido por Silvio Tendler, o filme faz parte do Projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia. O documentário apresenta depoimentos de presos políticos e de advogados, entre eles Antônio Modesto da Silveira, Eny Moreira, Técio Lins e Silva, George Tavares e Alcyone Barreto. Também é lembrada a atuação de grandes nomes da advocacia no período, c aso de Sobral Pinto.

Silvio Tendler Tendler também  rodou filmes contando a trajetória de João Goulart, Juscelino Kubitschek e Carlos Marighella, entre outros.

A história do Cineclube Macunaíma 
A Casa do Jornalista sempre cultivou uma importante relação com a sétima arte ao longo de sua trajetória e sua história é marcada pelo compromisso de defender, estimular e difundir a cultura, e nesse contexto o cinema sempre foi um evento de destaque, mas foi uma época difícil porque, além de filmes brasileiros, houve ciclos de cinema checo e polonês durante os anos mais duros da ditadura militar. Um dos maiores sucessos foi a exibição no Cineclube Macunaíma do “Encouraçado Potenkim”, filme russo do cinema mudo, quando tiveram que fazer duas sessões embora os responsáveis tivessem receio de falta de público por medo de uma intervenção da Marinha já que os anos de chumbo estavam no auge.

Apesar da repressão política e censura durante a ditadura, o Cineclube Macunaíma manteve sua ousadia, exibindo filmes soviéticos em plena época de Guerra Fria. Entre as obras, destaca-se o filme de animação russo “Flor de Pedra”, de 1946, dirigido por Aleksandr Ptushko. Mas algumas obras exibidas não escaparam da censura ferrenha, como o filme “Roma”, de Fellini, em que a cena mostrando um desfile de trajes eclesiásticos foi cortada e o americano “Amargo Pesadelo”, com cenas de estupro censuradas. Em 1974, na programação havia 5 0% de filmes nacionais, entre eles “Deus e Diabo na terra do sol” e “Terra em Transe”, ambos de Glauber Rocha. Depois de cada sessão,  havia debates e encontros com intelectuais e, por 12 anos, o Macunaíma apresentou grandes obras do cinema aos sábados, às 21h, e posteriormente, às 18h30. Entre os clássicos internacionais, foram exibidos “Moinho de Pó”, de Alberto Lattuada; “Dom Quixote”, de Grigori Kozintzev; e “Milagre em Milão”, de Vittorio de Sica.

Apesar da limitação do acervo, o Cineclube Macunaíma sempre contou com a colaboração da cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio, que cedia filmes de sua coleção para serem exibidos durante as sessões, como “Acossado” e “O Demônio das 11 horas”, de Jean-Luc Godard. Além disso, a ABI sediou diversas vezes exibições da Cinemateca e eventos como o Rio Cine1981, no qual foram exibidos o documentário moçambicano “Estas são as armas”, de Murillo Salles, os angolanos “Adeus à hora da partida&rdq uo;, de Francisco Henriques e “No caminho das estrelas”, de Antonio Ole. A ABI também abriu suas portas para o cinema do Oriente Médio e no auditório Oscar Guanabarino, no 9º andar, desde a década de 50, membros da comunidade árabe e israelense se reuniam para assistir aos filmes de seu país.

Com a chegada da televisão, as exibições diminuíram e as grandes sessões cinematográficas só voltaram a acontecer com a fundação do cineclube, em 1973 e os filmes árabes e israelenses voltaram a ser exibidos na ABI, em 2006. Os documentários “Desde que você foi embora”, do palestino Issa Freiji, e “Estrada181, fragmentos de uma viagem Israel-Palestina”, do israelense Eyal Sivan e do palestino Michel Hheleifi, revelaram a situação de conflito no Oriente Médio, mostrando a vida e o apartheid social na Palestina.