Livro ensina dez passos para transformar o rádio em ferramenta de aprendizagem

Kassia Nobre | 04/08/2020 09:47
O livro digital "Dez passos para o ensino emergencial no rádio em tempos de covid-19" (Editora Válega) pretende levar conteúdo didático para estudantes por meio do rádio. 

O objetivo é contornar a ausência de aulas presenciais e a falta de acesso de estudantes à internet e/ou à telefonia celular.

A iniciativa é do Núcleo de Estudos de Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e os autores da obra são os professores Luiz Artur Ferraretto e Fernando Morgado. 

“Via redes sociais, começamos a receber consultas de professores sobre como usar espaços em rádios comunitárias ou mesmo emissoras comerciais para levar conteúdo didático a estudantes. Foi desse tipo de demanda que surgiu a iniciativa de produção de uma obra mais simples possível, apresentando também uma proposta mais simples possível para uso emergencial do rádio como ferramenta de ensino”, explica Luiz Artur. 

O Portal Imprensa conversou com um dos pesquisadores que também é um dos autores do recém-lançado “Covid-19 e comunicação, um guia prático para enfrentar a crise”

Escrita em linguagem direta e objetiva, a obra tem o público-alvo docentes e está disponível gratuitamente para download aqui.   

Crédito:Divulgação Editora Válega



Portal Imprensa - Gostaria que você contasse sobre a ideia de escrever o livro. Como surgiu a ideia?
Luiz Artur Ferraretto - Trata-se de uma obra que sentimos a necessidade de produzir depois do lançamento, em abril, de “Covid-19 e comunicação, um guia prático para enfrentar a crise”, também escrito por mim em parceria com Fernando Morgado. A nossa ideia segue sendo a de aplicar o conhecimento gerado pelo Núcleo de Estudos de Rádio (NER) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no apoio e na resolução de problemas. 

Neste caso, o foco é a necessidade de atenuar o impacto da pandemia sobre estudantes, em especial as e os de baixa renda e sem acesso ou de acesso reduzido à internet. Consciente do poder do rádio em termos de inclusão social, o núcleo sugere o uso do meio como a forma mais acessível, barata e natural de conexão entre os seres humanos. 

Afinal, na atualidade, a base do conteúdo das transmissões é a conversa. Em torno do seu uso, o NER estruturou uma proposta simples para diminuir o efeito da ausência de aulas presenciais ou da impossibilidade de acesso a conteúdo ministrado usando-se a combinação de aplicativos, celulares, internet e redes sociais. Via redes sociais, começamos a receber consultas de professores sobre como usar espaços em rádios comunitárias ou mesmo emissoras comerciais para levar conteúdo didático a estudantes. Foi desse tipo de demanda que surgiu a iniciativa de produção de uma obra mais simples possível, apresentando também uma proposta mais simples possível para uso emergencial do rádio como ferramenta de ensino.

Portal Imprensa - Como você definiria o papel do rádio neste tempo de pandemia?
Luiz Artur Ferraretto  - Independentemente do tipo de público, o papel do rádio é essencial. No entanto, a importância do meio cresce se você considerar as populações mais empobrecidas e, por esse motivo, com menos acesso à inclusão digital. Rádio é um meio de baixo custo de recepção. Com um aparelho simples e dependendo apenas de pilhas, o ouvinte tem acesso a uma gama significativa de conteúdo. Se você for na mais pobres das casas, sem energia elétrica, no interior da Floresta Amazônica, havendo um aparelho eletrônico, muito provavelmente, esse será um radinho de pilha e, por ondas médias ou curtas, aquelas pessoas vão estar conectadas com a cidade mais próxima, com o seu estado, com o país ou com o mundo.

Então, por que não usar o rádio como apoio e até substituto de atividades de ensino? Em meio à pandemia, devido à urgência, a grande dificuldade reside em não se conseguir explorar plenamente os recursos sonoros do meio. Por exemplo, você não tem atores e atrizes, locutores, efeitos sonoros, roteiros, trilhas musicais elaboradas... Fica tudo reduzido à conversa, ao que chamamos de “improviso estruturado”. Cada palavra dita não corresponde necessariamente a algo previamente escrito – daí o “improviso” –, mas a condução da fala orienta-se por uma espécie de roteiro elaborado antes da transmissão – de onde se explica o “estruturado”. Portanto, recomendamos que se simule uma conversa com o público, recorrendo muito raramente à leitura de textos. Não pretendemos ensinar a dar aula. Afinal, estamos falando com professores. Apenas, tentamos dar pistas para a adaptação da apresentação do conteúdo ao rádio. Pode ser como “ensino emergencial”, as aulas propriamente ditas, ou como “apoio à educação em geral”.

Portal Imprensa -  O livro tem como público-alvo os docentes. Gostaria que você contasse sobre os desafios deste profissional durante as aulas online.
Luiz Artur Ferraretto  - Acredito que as duas principais dificuldades são a necessidade de reinvenção da aula em si e, no caso da opção pelo rádio, a existência de certa estranheza em relação ao meio. Como professor, sei como para a nossa categoria e para estudantes é importante o contato face a face. É bobagem dizer que você trata um grupo inteiro da mesma forma.

Cada estudante tem particularidades. Quanto menor a turma, mais fácil é o processo de ensino-aprendizagem justamente pela possibilidade de desenvolvimento de empatia entre docente e discente. Você começa a conhecer dificuldades e potencialidades e a usá-las no processo. Perde-se parte disso quando se troca o contato face a face por alguma simulação de base tecnológica. Se as e os estudantes têm acesso a possibilidades de interação permitidas pela inclusão digital, o problema diminui. No entanto, no “Dez passos...”, nós tivemos de considerar a ausência de acesso a celulares ou a redes, algo que é mais frequente do que muita gente pensa. No caso das universidades públicas, por exemplo, não raro a aluna ou o aluno até possui celular, mas, na maior parte do tempo, se conecta graças à rede da própria instituição, possibilidade inexistente durante o distanciamento social.

Portal Imprensa -  Entre os 10 passos, gostaria que você destacasse três para os leitores do portal Imprensa.
Luiz Artur Ferraretto - Escolho os três que mais facilitam a vida de professores e de estudantes. São os passos 2, 3 e 7.

Não tenha medo do microfone - O que mais intimida as pessoas para que falem em rádio é a estranheza em relação à própria voz. Todo mundo estranha quando grava uma fala pela primeira vez e vai ouvi-la. Há aquela sensação de que a voz não é a sua própria. Fora isso, muita gente ainda pensa que é preciso ter um vozeirão para falar ao microfone. O hábito de enviar mensagens de áudio vai, aos poucos, deixando essas sensações no passado. Eu brinco com minhas alunas e alunos. Digo: “Vou contar um segredo...”. E concluo: “Pois aquela voz gravada é como todo mundo ouve vocês”. Na natureza, cada um escuta a sua própria voz de forma diferente do que as demais pessoas. Ninguém se dá conta: a boca está entre e à frente dos ouvidos, fazendo com que a voz se projete no ambiente e retorne, além de ser recebida também pela parte interna do crânio e sentida pelo cérebro ao emitir os impulsos para a produção da fala. Assim, ao microfone, a ou o professor precisa apenas ser quem sempre foi na sala de aula.

Não fale sozinho - É preferível dividir o microfone com alguém, formando duplas ou trios de professores e transformando o que seria um monólogo chato em um bate-papo bem mais agradável. Na formação desses grupos de docentes, sugere-se que sejam respeitadas diversidades étnicas e de gênero. Para além da lição básica de cidadania embutida no processo, consegue-se mais empatia. Podem incluir professoras e professores de uma mesma área ou de áreas diversas. Dá para ensaiar abordagens interdisciplinares ou multidisciplinares. Se houver a possibilidade, esses conteúdos podem transbordar para um grupo de WhatsApp com alunas e alunos participando com áudios gravados ou até entrando ao vivo.

Ensine em módulos - No livro, deixamos claro que: “O ensino aporta o conteúdo. Cabe ao rádio adaptá-lo às formas usuais da mensagem radiofônica”. Isso é muito importante. Na sala de aula, a atenção do grupo está bem mais focada na performance de quem ministra o conteúdo. Pelo rádio, professoras e professores disputam a atenção com o ambiente no qual a ou o ouvinte-estudante se encontra. É preciso, portanto, organizar o conteúdo. Sugerimos que, no caso do “ensino emergencial”, tudo seja dividido em módulos de 5 a 10 minutos dentro de uma emissão de 30 minutos a uma hora de duração total. O ideal é sempre explicar as linhas gerais do que será falado e, ao final, relembrar, com certo nível de redundância, o que é essencial em termos de aprendizado. Caso o uso do rádio seja um “apoio à educação em geral”, sugerimos que, dentro da programação das emissoras, sejam destinados até 10 minutos para uma entrevista com uma professora ou um professor, abordando temas relacionados ao currículo, mas de interesse mais geral.