Jornalista sofre onda de ataques nas redes sociais após matéria sobre o Colégio Militar de Fortaleza

Deborah Freire | 31/07/2020 12:27

"O alvoroço entre alguns pais e professores do Colégio Militar de Fortaleza (CFM) está se dando porque a unidade de ensino estaria adotando algumas posturas 'negacionistas' em relação à crise sanitária mundial, tal e qual faz o capitão reformado e presidente, Jair Bolsonaro”.


O lide do artigo publicado na coluna de domingo de Demitri Túlio, no jornal O Povo, do Ceará, espaço aberto para a opinião do jornalista, demonstra que o tema abordado por ele é polêmico. Mas as reações de pais de alunos que discordaram da nota ultrapassaram o patamar de críticas, passando a ataques nas redes sociais.

Crédito:Divulgação
Demitri Túlio


Com o título “Um colégio que nega a pandemia?”, o texto denunciou que o CFM além de ter a intenção de retomar as aulas presenciais, contra as determinações do governo do Estado, também teria recomendado aos professores que não citem a Covid-19 nas provas.


Segundo documento obtido por Demitri e compartilhado por ele com o Portal Imprensa, denominado “Orientações para a 2ª AE on-line”, assinado pelo coronel Alfredo Ferreira Nunes, chefe da Seção Técnica de Ensino do colégio, o posicionamento da instituição é claro.


O texto traz em sua última linha a seguinte observação: “Para a 2ª AE, evitar formular questões relacionadas à Codiv-19”. O jornalista também ouviu pais de alunos e professores insatisfeitos com as medidas do CFM relacionadas à pandemia.


“[O termo] ‘evitar’ em um quartel - porque é assim que é tratado o Colégio Militar de Fortaleza - é uma ordem. Tanto que nenhum professor ousou abordar o tema do 6º ao 3º ano. Lá não é um quartel, mas é tratado como quartel; em vez de diretor, você tem um comandante”, afirma Demitri.


Ele conta que teve acesso ainda a troca de e-mails, lives, mensagens de Whatsapp, onde havia determinação dos gestores coronéis para evitar até mesmo usar nos canais de comunicação do colégio as hashtags “#fiqueemcasa” e “#isolamentosocial”.


“No artigo, eu opino e digo que o colégio tinha posturas negacionistas e está provado. Mostrei que foi feita uma consulta aos pais, se queriam que voltassem as aulas presenciais, porque o colégio tinha tentado por duas vezes voltar, quando o decreto do governo do Ceará proíbe”. A consulta recebeu resposta negativa de 69% dos pais.


Demitri diz que esperava uma forte repercussão do artigo, mas se surpreendeu com a violência das reações. Ele afirma que o colégio não foi procurado porque o espaço é opinativo, mas até o momento a direção não se pronunciou.


“Um pai puxou um abaixo-assinado com calúnias, injúrias, difamação. Minha foto está lá, posso responder juridicamente, mas nunca publiquei conteúdo falso”, defende. “Estão retirando da comunidade o direito de discutir a Covid. A pandemia não acabou, o debate tem que estar presente”.


O jornalista vai retomar o assunto em sua coluna do próximo domingo, mas reforça que não vai abordar a reação à matéria, mas sim trazer novas informações. A ombudsman do jornal é quem irá tratar do tema e dos ataques ao profissional.


Abaixo-assinado


Tanto o colunista, como o jornal O Povo têm sido alvos de ataques nas redes sociais. Pais de alunos mobilizaram uma campanha e um abaixo-assinado em que classificam a matéria como mentirosa e irresponsável.


Um mesmo texto compartilhado por muitos pais no perfil do jornal no Instagram afirma que todos os cuidados com os alunos foram tomados pelo colégio desde o primeiro dia do decreto anunciado pelo governador Camilo Santana, e nega insatisfação deles por posturas negacionistas do CFM porque, segundo afirmam, “nunca existiram e todas as medidas necessárias foram adotadas pela instituição, tanto que todos os nossos filhos estão tendo aulas em casa (on-line)”.


A mensagem diz ainda que a direção da instituição de ensino é aberta a ouvir os desejos dos pais e acusa do jornalista de fazer “militância”. “A sua reportagem é tão mentirosa e irresponsável, pois afirma que o comando do colégio recomendou ao corpo docente “evitar formular questões relacionadas ao Covid-19” e que existe uma queda de braço de 809 estudantes com o colégio... O Sr tem como provar tamanho absurdo ou será mais uma “fake News”, das tantas outras dessa reportagem?”, afirma.


Sindicato dos Jornalistas repudia ataque coletivo


Em um vídeo publicado no perfil do Instagram do Sindicato dos Jornalistas do Ceará (Sindjorce), seu presidente, Rafael Mesquita, repudiou o que chamou de “tarefa coletiva de negar a realidade”.


“A onda de ódio que se espalhou pela internet e ataca a honra do jornalista Demitri Túlio ganhou inclusive petição online, e a gente está aqui para defender o jornalismo e o jornalista, para defender o direito de informar do Demitri”, afirma Mesquita.


Ele classifica a denúncia como muito grave e ressalta que existe no Brasil uma postura de negar o momento vivido pelo País e de atacar a honra de profissionais que tentam levar informação de qualidade. “Nós confiamos no trabalho do jornalista Demitri Túlio, confiamos na apuração dele e de sua equipe”.


Assista:


Entidades como a Abraji, Associação Cearense de Imprensa, Universidade Federal do Ceará por meio dos servidores, e leitores também prestaram apoio ao jornalista.

  

O Portal Imprensa entrou em contato com o Colégio Militar de Fortaleza, mas foi informado que só a assessoria de comunicação poderia falar sobre o assunto, mas no telefone indicado para contatar a assessoria, ninguém atendeu.


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