Livro analisa o papel das gigantes do telejornalismo mundial APTN e Reuters TV

Kassia Nobre | 31/07/2020 09:45
A pesquisadora Maria C. Esperidião analisou as duas maiores agências de notícias voltadas ao telejornalismo, a APTN e a Reuters TV, no livro “Gigantes do telejornalismo mundial: mutações editoriais e tecnológicas das agências internacionais de notícias” (Editora RIA). 

O Portal Imprensa conversou com a autora sobre a produção da obra que foi resultado de sua tese de doutorado defendida na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Maria trabalhou por duas décadas na TV Globo e hoje é gerente executiva da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI).

“Desde o meu mestrado, em 1997, estudo a informação escoada pelas agências e o impacto dessas empresas nos conteúdos noticiosos do mundo inteiro, nas políticas públicas, no trabalho dos correspondentes e nas nossas visões do ‘outro’".

A pesquisa investigou as mudanças editoriais e tecnológicas dos modos de transmissão dos produtos das empresas  APTN e a Reuters TV.

“As agências sempre estiveram na vanguarda da tecnologia. E, de certa forma, obrigaram as emissoras a reverem seus fluxos operacionais”. 

O livro está disponível gratuitamente, na íntegra, no formato e-book pelo website da editora.

Crédito:Divulgação Editora RIA



Portal Imprensa - Gostaria que você contasse sobre o processo de produção da pesquisa que resultou no livro.

Maria C. Esperidião - Desde o meu mestrado, em 1997, estudo a informação escoada pelas agências e o impacto dessas empresas nos conteúdos noticiosos do mundo inteiro, nas políticas públicas, no trabalho dos correspondentes e nas nossas visões do "outro". Sempre me intrigou o critério de noticiabilidade de seus informes. Também percebi que, nas universidades brasileiras, o volume de estudos sobre as agências era muito tímido - apesar da importância dessas intuições no campo da comunicação. Temos poucos pesquisadores "agencianos" como costuma dizer Pedro Aguiar, da Universidade Federal Fluminense, certamente um autor referência no tema.

Com ajuda do meu orientador, Sebastião Squirra, que na época lecionava na Universidade Metodista de São Paulo, percebi que eu deveria viajar para fazer trabalho de campo e entender melhor o funcionamento das agências. Era preciso também inventariá-las, mostrar a história delas. Tirei licença do trabalho e com bolsa sanduíche da Capes, fiz estágio doutoral com o pioneiro desses estudos, Dr. Oliver Boyd-Barrett, em Ohio, nos EUA. Com recursos próprios, viajei para Atlanta, Londres e Nova York.

É preciso ressaltar que colhi os dados entre 2007 e 2010. Uma tecnologia suplanta a outra em meses. De um modo geral, os dados podem ter caducado à luz do esgotamento do modelo de negócios das empresas de comunicação.

Mas, depois de 9 anos, me arrisco a dizer que, embora é preciso reconhecer o esforço das agências em escoar uma variedade de temas, abordagens e países, embora ainda estejam presentes em lugares nos quais as emissoras-assinantes já deixaram há décadas, os despachos audiovisuais ainda têm assimetrias, ou seja, precisam de um equilíbrio mais equitativo de temas e regiões, como África e América Latina. 

Mesmo que as agências precisem manter a marca (credibilidade e isenção) e a viabilidade dos negócios, mesmo que os próprios clientes às vezes evitem priorizar lugares invisíveis, há ainda um longo caminho para equacionar tudo isso.

Mas há algo que, nesta pandemia, fica claro pra mim: a dependências dos canais de notícias 24/7 dessas notícias "empacotadas" pelas agências. As agências continuam oferecendo uma "garantia de cobertura": são muitas vezes o único recurso para relatar assuntos fora dos limites territoriais. Por essa razão, o noticiário internacional ocupa tanto espaço nos canais a cabo. É preciso fechar telejornais e os informes das agências se tornaram o arranjo mais viável para ocupar este tempo. Fazer televisão é caro.

Portal Imprensa -  Você analisa sobre as mudanças editoriais e tecnológicas dos modos de transmissão dos produtos das empresas  APTN e a Reuters TV. Você poderia falar mais sobre isso? Quais são essas mudanças e suas consequências para o jornalismo? 

Maria C. Esperidião  - Qualquer coisa que eu falar agora sobre tecnologia pode ter mudado radicalmente. Especialmente nos modos de apuração, produção e irradiação dessas reportagens produzidas pelas agências. O que faço neste estudo é refazer o caminho histórico dos braços audiovisual da Reuters e AP, dos anos 1960 a 2010. Gostaria apenas de lembrar que as agências sempre estiveram na vanguarda da tecnologia. E, de certa forma, obrigaram as emissoras a reverem seus fluxos operacionais.

Portal Imprensa - Como você analisa os impactos destas mudanças na produção das agências de notícias brasileiras voltadas para o telejornalismo? 

Maria C. Esperidião  -  Acho que, de uma forma geral, as agências continuam sendo protagonistas na produção das reportagens fora do Brasil. Caberá ao correspondente brasileiro contextualizá-las para o Brasil e incorporar outras fontes e vozes. Ou seja, mesmo sendo submetidos à pressão do deadline, repórteres e editores precisam encontrar o equilíbrio da acomodação do conteúdo. Na prática, é um dilema. Sem agências de notícias fica inviável cobrir o mundo. Mas só mirar o mundo sob a ótica das agências é também sentenciar a morte da reportagem.