Jornalistas do Wall Street Journal pedem à direção melhor distinção entre notícias e conteúdo de opinião

Redação Portal Imprensa | 23/07/2020 10:30

Jornalistas do Wall Street Journal e outros funcionários do grupo Dow Jones enviaram uma carta na terça-feira (21) ao novo diretor de redação do jornal, Almar Latour, pedindo uma diferenciação mais clara entre notícias e conteúdo editorial online.

Crédito:Pexels/Montagem Portal Imprensa


Os mais de 280 repórteres, editores e outros funcionários que assinaram a carta estão preocupados com a precisão e a transparência da seção de Opinião.


Na carta, eles escrevem: "A falta de checagem de fatos e de transparência de ‘Opinião’, e sua aparente desconsideração por evidências, minam a confiança de nossos leitores e nossa capacidade de adquirir credibilidade junto às fontes".


Um exemplo citado pelos jornalistas foi um artigo recente do vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, sobre as infecções do coronavírus, intitulado "Não há uma 'segunda onda' do coronavírus".


Os autores da carta disseram que os editores publicaram os números de Pence "sem verificar as cifras do governo" e comentaram que o artigo foi corrigido mais tarde.


Os jornalistas defendem que muitos leitores não diferenciam os textos da página editorial (de opinião) do Wall Street Journal, supervisionadas por Paul Gigot desde 2001, e o trabalho da equipe de notícias, dirigida pelo editor-chefe Matt Murray.


Clareza na distinção


O pedido dos profissionais é para que o veículo identifique de forma mais destacada os editoriais e as colunas de opinião no site e em aplicativos de celular, incluindo a frase "As páginas de Opinião de The Wall Street Journal são independentes da Redação jornalística".


Eles também sugerem retirar os artigos de opinião das listas de "artigos mais populares" e "vídeos recomendados" no site e criar uma lista separada a ser batizada de "mais populares em Opinião".


Os jornalistas do WSJ querem ainda o fim das repreensões por escreverem sobre erros publicados em Opinião, "quer façamos essas observações em nossas reportagens, nas redes sociais ou em outros lugares".


A porta-voz da Dow Jones e do WSJ não comentou sobre os pedidos feitos pelo grupo.


Cartas anteriores pediram mais diversidade


Almar Latour e Matt Murray já receberam anteriormente cartas de jornalistas que desejavam maior diversidade na redação e manifestavam preocupações sobre práticas de contratação e a cobertura de questões raciais pelo WSJ.


Em junho, segundo citaram, um artigo de opinião intitulado "O mito do racismo político sistêmico" foi um dos artigos mais lidos do jornal, e afirmava que "a acusação de preconceito sistêmico pela polícia foi errada durante os anos de Obama e continua errada hoje".


A mensagem diz que o artigo "apresentou fatos de forma seletiva e tirou uma conclusão errônea dos dados subjacentes".


Segundo a carta, muitos "funcionários não brancos se manifestaram publicamente sobre o sofrimento que esse artigo de opinião lhes causou durante discussões realizadas na empresa sobre iniciativas em torno de diversidade".


Os funcionários disseram que, se "a companhia fala seriamente sobre apoiar melhor seus empregados não brancos, no mínimo deveria elevar os critérios de ‘Opinião’ para que não se publique desinformação sobre racismo".


The New York Times


Outra polêmica recente gerada pela página de Opinião aconteceu em junho no The New York Times. James Bennet deixou o cargo de chefe da seção depois de receber amplas críticas na redação e nas redes sociais à publicação de um texto de opinião do senador republicano Tom Cotton, do Arkansas.


No artigo, o parlamentar pedia que a Casa Branca enviasse tropas federais às cidades para conter os distúrbios nos protestos que eclodiram após a morte de George Floyd, um homem negro assassinado por um policial branco em 25 de maio.


Bennet foi substituído por Kathleen Kingsbury, hoje editora interina da página de editoriais do Times.

Bari Weiss, uma conhecida articulista e uma das editoras da seção de Opinião do Times, demitiu-se em 13 de julho. Ela escreveu em seu site que foi perseguida por colegas e que seu trabalho e seu caráter foram "abertamente menosprezados em canais da empresa no aplicativo Slack, nos quais os principais editores do jornal normalmente expressam suas opiniões".


Uma porta-voz do Times disse à época que o jornal "se compromete a promover um ambiente de diálogo honesto, franco e empático entre colegas, em que o respeito mútuo é exigido de todos".


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