21º ISOJ: simpósio internacional 100% online debate desafios do jornalismo em 2020

Redação Portal Imprensa | 22/07/2020 11:54

Cobertura da campanha eleitoral 2020; reportagens sobre a Covid-19; trabalho remoto; uso da inteligência artificial na apuração; sobrevivência de jornais locais. Esses foram alguns dos temas debatidos no 21º Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ), que ocorre desde segunda-feira (20) e vai até esta sexta (24).

Crédito: Divulgação


Com a participação de jornalistas, professores, pesquisadores e gestores de empresas de todo o mundo, o ISOJ é realizado pela primeira vez totalmente online, com transmissão pelo YouTube, em inglês e tradução para o espanhol.


A sequência de debates tem como pano de fundo o cenário mundial de pandemia, ataques contra jornalistas, reinvenção do jornalismo digital e a busca da imprensa por seu papel nos movimentos mundiais de justiça social, conforme destacou o professor Rosental Alves, fundador da conferência, durante a sessão de abertura.


A conferência de 2020 é mais abrangente do que nos anos anteriores e oferece mais palestrantes e eventos. Veja a programação.


Crédito:Agência Brasil

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DOS EUA EM 2020


As eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2020 foi tema de uma das discussões do Simpósio. O cenário é semelhante ao que ocorre no Brasil, que este ano elege prefeitos e vereadores de mais de 5,5 mil municípios.


A dificuldade relatada pelos repórteres que participaram do debate é o impedimento em cobrir as campanhas e ouvir os eleitores, para ter uma noção mais próxima da realidade sobre quais as demandas e os anseios dos cidadãos.


Evan Smith, co-fundador e CEO do The Texas Tribune, definiu esta como a "campanha mais estranha de todas", não apenas para candidatos e eleitores, mas também para a imprensa.


Ele explicou que a campanha acontece durante uma "crise ‘três em uma’ ocorrendo no mesmo momento: emergência em saúde pública, colapso econômico e acerto de contas sobre a raça".


Os participantes do painel destacaram como estavam acostumados a viajar durante a temporada de campanha, mas agora precisam fazer a maior parte da cobertura de casa, com raras exceções. Eles também enfatizaram a importância de conversar pessoalmente com os eleitores e como é diferente fazer isso on-line.


“A imprensa está tentando descobrir como cobrir isso e, de maneira mais ampla, o que está acontecendo no país quando há tantas considerações logísticas e de saúde”, disse Katie Glueck, repórter de política nacional do The New York Times.


Alexi McCammond, repórter político do Axios, contou que está fazendo grupos focais com os eleitores on-line no Zoom, mas a experiência é muito diferente de conversar com eles em uma manifestação ou parada de campanha.


Mais de um repórter contou que uma das ferramentas que têm colaborado com o trabalho é prestar atenção ao que os eleitores estão perguntando na seção de perguntas e respostas durante as reuniões de zoom com os candidatos.


Crédito:Agência Brasil

COBERTURA DA COVID-19


Outro debate promovido pelo ISOJ tratou das alternativas para cobrir a Covid-19, à medida que as informações mudam e em meio a uma cultura de negação da ciência. Os setoristas de saúde disseram que o jornalismo está enfrentando uma série de questões - desde fatos que mudam a ataques contra os profissionais.


As evidências em torno do coronavírus estão mudando à medida que o campo da saúde obtém melhores dados e libera estudos mais detalhados. Por isso, segundo explicou Helen Branswell, escritora de doenças infecciosas do Stat News, os repórteres devem explicar ao público que as recomendações e informações das organizações de saúde mudam devido ao coronavírus ser um surto nunca visto antes.


O membro do painel, Kai Kupferschmidt, que escreve sobre doenças infecciosas para a revista Science na Alemanha, disse que os jornalistas de ciência estão buscando um equilíbrio entre obter as atualizações mais recentes dos leitores e evitar inundá-los com informações alarmantes.


Os jornalistas observaram que enfrentam ainda funcionários do governo e, às vezes, audiências, que são negadores da ciência.


No Brasil


Álvaro Pereira Jr, correspondente da TV Globo, afirmou que cobrir uma pandemia em um país que tem um negador de vírus como presidente torna a tarefa especialmente difícil. Ele revelou durante o painel a resposta dada pelos meios de comunicação brasileiros, que se uniram para contabilizar os números reais de pandemia, quando os números oficiais deixaram de ser confiáveis.


"Os jornalistas tiveram que intervir", disse o correspondente. "Chegou a um ponto, especialmente nas primeiras semanas da pandemia, em que os âncoras do nosso noticiário no horário nobre assumiram o papel de liderança, que normalmente esperamos do governo".


Em outros lugares do planeta, a situação é semelhante. A jornalista freelancer Vidya Krishnan, que escreveu extensivamente sobre saúde para o Atlântico da Índia, disse que a negação da ciência dos mais altos escalões do governo se espalhou e se transformou em ataques contra jornalistas e demonização da imprensa.


Crédito:Agência Brasil

TRABALHO REMOTO E CRIATIVIDADE


Quando a Covid-19 assumiu o controle da cidade de Nova Iorque, o primeiro epicentro do novo coronavírus nos EUA, todos os funcionários de uma das mais antigas emissoras americanas tiveram que mudar a maneira como fazem o jornalismo, disse a palestrante Catherine Kim, que abriu o debate sobre "Como 2020 mudou profundamente a redação digital e o jornalismo como o conhecemos".


Desde 12 de março, a redação trabalha de casa e os efeitos disso, segundo ela, foram um aumento da criatividade e inovação. "Como você produz vídeos interessantes quando trabalha com entrevistas com zoom e não há muito do que chamaríamos de cenas de ação para trabalhar? Nós nos apoiamos nos gráficos e desenvolvemos animações interessantes e outros floreios ”, disse Kim.


Kim contou ao moderador Robert Hernandez na sessão do ISOJ que, trabalhando remotamente, eles descobriram novas maneiras de desenvolver e criar widgets editoriais (softwares interativos) para lançar material que levariam de seis a oito semanas, ou mais, se fossem produzidos na redação.


Ela também acredita que esse novo ajuste e a mudança para um fluxo de trabalho remoto aproximaram ainda mais a equipe. "Nós, dentro do nosso grupo digital, não somos muito hierárquicos. [Mas] acho que observamos mais gerentes e editores confiando em suas equipes, compartilhando mais responsabilidades, permitindo que os indivíduos se sintam mais empoderados e tomem mais decisões ”.


Como conselho para os pequenos meios de comunicação e jornalistas freelancers que tentam fazer jornalismo e reportagem nesta época, Kim disse que eles devem jogar com suas próprias forças individuais.


“Você não precisa de muitos recursos, pode ser uma história incrível e atraente sobre um indivíduo, e essa é a beleza da internet e do digital - uma história que é profunda, e pode parecer para alguns como nicho, pode ser amplamente lida, consumida e compartilhada”.


Crédito: Pexels

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA APURAÇÃO


“Machine Learning”: o que essa expressão tem a ver com o jornalismo? O poder das máquinas por meio da inteligência artificial pode e deve ser usado para otimizar o tempo de apuração de notícias urgentes. Foi isso o que concluíram os participantes do workshop “Inteligência Artificial e Machine Learning na redação”.


A ferramenta é capaz de melhorar o fluxo de trabalho e ajudar a encontrar histórias que poderiam ter sido perdidas, defendeu Michael Grant, professor do Google News Lab. Grant mostrou aos participantes como diferentes ferramentas podem ser usadas para reunir notícias, encontrar informações, gerar ideias de histórias, identificar tendências, rastrear eventos e categorizar dados.


Um exemplo que ele deu foi que algumas redações, como a Reuters, estão usando uma ferramenta para pesquisar tweets, a fim de detectar cenários de notícias de última hora. Isso economiza aos jornalistas o tempo e a energia necessários para pesquisar nas mídias sociais. Em vez disso, os repórteres podem se concentrar no que fazem de melhor - entrevistas, investigações, pesquisas e redação.


"Isso é realmente bom para suplementares, onde talvez não desejemos lançar nossos recursos em coisas que [têm] uma tonelada de conteúdo e que teríamos dificuldade em cobrir com mão de obra", disse Grant.


A divulgação das notícias também encontra uma aliada na machine learning, como na redação do Vice, que tem usado a ferramenta na tentativa de tornar suas informações mais acessíveis. O Vice usa um sistema de tradução do Google para disponibilizar algumas de suas histórias em vários idiomas diferentes.


Crédito:Pexels

SOBREVIVÊNCIA DOS JORNAIS LOCAIS


Não existe um modelo único para as organizações de notícias locais sobreviverem, portanto elas devem gastar parte de seus esforços experimentando formas editoriais e financeiras para encontrar um equilíbrio para cada organização, de acordo com seu público-alvo. 


Essa foi a discussão do painel “As Novas Notícias Locais: Reinventando a Sustentabilidade, modelos para fazer o jornalismo local sobreviver e prosperar no ecossistema digital”, que reuniu meios digitais locais para tratar de como as organizações são capazes de financiar seu trabalho jornalístico.


Mandy Jenkins, gerente geral da The Compass Experiment, parceira do Google-McClatchy fundada para explorar modelos de negócios sustentáveis para notícias locais, afirmou que não existe uma única “bala de prata”, e que contratações e divulgação locais são essenciais para a construção de relacionamentos editoriais e comerciais, e essas relações são essenciais para gerar receita local sustentável.


Alison Go, diretora de estratégia da Chalkbeat, sem fins lucrativos, explicou que a Internet tornou obsoleto o monopólio da informação, ou o que ela chama de "bolha regional", criada por jornais antigos. Por isso, ela diz, "acreditamos que o modelo de assunto único cria o melhor jornalismo, e fazemos isso elevando a educação a um tópico de prestígio para cobrir e também vinculando intencionalmente as histórias entre os lugares da nossa rede", disse ela.


O modelo da Chalkbeat baseia-se na construção de uma forte rede nacional de repórteres de educação e no desenvolvimento de um nicho de público de professores e pais. Segundo Go, isso é valorizado por patrocinadores e anunciantes, mas também lhes dá acesso a filantropos além dos relativamente pequenos “financiadores de jornalismo”: 83% de seus financiadores são doadores iniciantes de notícias locais. "Isso significa que este modelo tem a capacidade única de atrair novos recursos para o nosso setor", explicou Go.


O ISOJ


O 21º Simpósio Internacional de Jornalismo Online é uma iniciativa do Centro Knight de Jornalismo nas Américas da Universidade do Texas, em Austin. O evento vai até o dia 24, sexta-feira, e ainda dá tempo de participar. Para conferir toda a programação, clique aqui.


Leia também:


Opinião: “O papel do jornalismo público como ‘vacina’ na pandemia de coronavírus”, por Wagner de Alcântara Aragão

Os impactos da inteligência artificial no jornalismo