Comentários de jornalista da CNN Brasil reacendem discussão sobre preconceito e desinformação na cobertura da pauta AIDS

Redação Portal IMPRENSA | 09/07/2020 12:41
O comentarista da CNN Brasil Leandro Narloch recebeu críticas e foi acusado de homofobia nas redes sociais por sua participação no programa “Live CNN” na última quarta-feira (08).

Ao vivo, Narloch comentou sobre o fim da restrição de doação de sangue por homossexuais do sexo masculino pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A revogação cumpriu decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou o impedimento discriminatório. 

O jornalista iniciou o seu comentário afirmando que “A mudança na verdade é pequena” porque “ela vai restringir mais a conduta e não a opção sexual do individuo”. Narloch afirma ainda que “Os homens gays têm uma chance muito maior de ter AIDS”.

O jornalista citou uma pesquisa realizada em São Paulo, em 2018, mas não deu muitos detalhes sobre o estudo. “Em 2018, uma pesquisa mostrou que 25% dos gays de São Paulo eram portadores de HIV. Mesmo que esse número seja exagerado, de fato ele parece mesmo exagerado, o fato é que é dezena de vezes maior a chance do que na população em geral. A questão é que outros critérios para a exclusão já restringem os gays que têm comportamento promíscuo. A regra como estava agora estava muito injusta com os gays que se cuidavam e fazem sexo protegido ou que tinham um parceiro só durante toda a vida. É uma pequena mudança e sim, muito boa”, comentou Narloch.  

Crédito:Reprodução CNN Brasil

Repercussão nas redes
Na rede social Twitter, usuários afirmaram que os comentários do jornalista foram homofóbicos.  

“É de extrema importância a demissão do jornalista Narloch. Destilou homofobia e impessoalidade perante a flexibilização da doação de sangue dos homossexuais. “opção sexual” “maior chance de gays terem aids” sério que estamos ouvindo os mesmos discursos de 1980???”, escreveu um usuário.

“HOMOFOBIA. Em um momento bizarro e triste da TV brasileira, o comentarista Leandro Narloch, da CNN Brasil, deu um show de ignorância enquanto falava sobre a liberação da doação de sangue por homossexuais”, escreveu outro usuário. 

Após a repercussão negativa, Narloch usou o seu perfil do Twitter para comentar sobre o ocorrido: 
“Caros, quero esclarecer meu comentário de hoje sobre doação de sangue por gays. 1. Como eu disse, a nova regra de doação é muito boa. Restringe a doação baseada na conduta que aumenta o risco, e não na identidade sexual. Assim a regra deixa de ser injusta com gays monogâmicos ou que se protegem, que não podem doar sangue enquanto muitos héteros que se expõem a mais riscos podem. Como eu também afirmei mais cedo na TV. O que não desmente o fato da prevalência de HIV ser mais alta entre gays. Isso é de conhecimento notório e incontroverso - mudar essa situação é justamente uma das boas bandeiras do movimento LGBT. Alguns reclamaram do termo "opção" e não "orientação" sexual. Aí discordo. Acho que existem as duas coisas: gays e lésbicas que o são por orientação e outros que optaram. Mas não tenho certeza sobre isso, é uma boa discussão para o futuro. De todo modo, lamento se o comentário pareceu a alguns homofóbico ou preconceituoso. Fiquei muito triste com isso. Não gosto de homofobia e me incomodo bastante em ser rotulado assim. abraços!”

O HIV na imprensa
Durante a realização do 6º Fórum Digital Aids e o Brasil, jornalistas voltaram a debateram sobre os desafios dos profissionais da imprensa na divulgação de notícias sobre AIDS e HIV.

A desinformação sempre foi um inimigo perigoso e cruel desde a descoberta do vírus HIV e da AIDS. Nos últimos tempos, com o crescimento da divulgação de fake news relativas a diversos temas, tornou-se ainda mais relevante discutir os efeitos e antídotos para esse fenômeno no noticiário sobre a doença que chega ao grande público.

O crescimento de posturas conservadoras que tentam tirar do espaço público o debate e a propagação de informações corretas e responsáveis sobre AIDS e HIV também preocupa. "Uma das maiores fake news que está circulando agora é a da ideologia de gênero, que está sendo usada na questão da educação sexual", alertou Helena Bertho, editora da revista AzMina e especializada em cobertura de gênero, direitos humanos, diversidade e sexualidade. 

A jornalista e, na época, doutoranda em Saúde Pública pela USP, Monique Oliveira, ressaltou a necessidade de o profissional de imprensa compreender seu papel no processo de disseminação de informação. 

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