Agência Pública recebe relatos e denúncias sobre mortes por Covid para projeto de investigação participativa

Kassia Nobre | 08/07/2020 09:49
A Agência Pública recebe relatos e denúncias sobre as mortes por Covid-19 para projeto de investigação participativa. 

A abordagem busca envolver o público nas várias etapas do processo jornalístico, desde a elaboração da pauta, até a apuração e a divulgação da reportagem publicada. 

“O projeto tem como objetivo abrir esse canal de comunicação com o público para que nos envie relatos e denúncias sobre a pandemia de Covid-19. Ou seja, qualquer pessoa pode responder ao questionário, seja com uma história sobre um conhecido ou familiar que faleceu por conta da doença, seja com um relato relacionado a qualquer outro aspecto da crise gerada pela Covid-19”, explica a repórter da Agência Pública, Anna Beatriz Anjos. 

O primeiro questionário é sobre pessoas que morreram por conta do coronavírus, mas nele também há a possibilidade de os leitores compartilharem outras denúncias sobre a pandemia. 

O Portal Imprensa conversou com a repórter que coordena o projeto junto com a editora de audiências da Agência Pública, Giulia Afiune. 

Crédito:José Cícero da Silva/Agência Pública

Portal Imprensa - Gostaria que você explicasse como vai funcionar esta coleta dos depoimentos sobre as vítimas do covid. Qualquer pessoa pode participar? 

Anna Beatriz - Primeiro, algumas informações básicas sobre a iniciativa. Este é um projeto de investigação participativa, uma abordagem jornalística praticada há alguns anos por redações norte-americanas como ProPublica, Texas Tribune, Vox e The City e conhecida por lá como engagement reporting. Ainda não muito utilizada no Brasil, essa abordagem busca envolver o público nas várias etapas do processo jornalístico, desde a elaboração da pauta, até a apuração e a divulgação da reportagem publicada.

O projeto tem como objetivo abrir esse canal de comunicação com o público para que nos envie relatos e denúncias sobre a pandemia de Covid-19. O primeiro questionário é sobre pessoas que morreram por conta do coronavírus, mas nele também há a possibilidade de os leitores compartilharem outras denúncias sobre a pandemia. Ou seja, qualquer pessoa pode responder ao questionário, seja com uma história sobre um conhecido ou familiar que faleceu por conta da doença, seja com um relato relacionado a qualquer outro aspecto da crise gerada pela Covid-19. 

O sucesso do projeto depende de alguns fatores. Primeiro, precisamos receber o maior número possível de respostas, o que aumenta a chance de termos acesso a histórias inéditas e identificarmos tendências entre os relatos. Em segundo lugar, é necessário que as respostas expressem diversidade cultural, racial, regional e econômica – em outras palavras, temos que furar a nossa bolha. Por isso, desenhar diferentes estratégias de divulgação para o questionário é parte essencial do trabalho. Estamos fazendo isso a partir do contato com movimentos sociais, veículos parceiros, lideranças comunitárias e mapeamento de grupos nas redes sociais.
 
 
Portal Imprensa - O que acontecerá depois da coleta? Na divulgação, vocês afirmam que os relatos serão o ponto de partida para a construção da primeira investigação participativa da Agência Pública. Você poderia falar sobre esta ação?
 
Anna Beatriz - A partir das respostas, utilizaremos técnicas tradicionais de apuração jornalística – entrevistas, levantamento e cruzamento de dados, análise de documentos, checagem – para investigar as desigualdades por trás das mortes por Covid-19. Queremos identificar problemas e situações que podem ter passado despercebidos e analisar de que forma questões específicas – como a falta de acesso a testes, demora pra conseguir leitos de UTI ou mesmo tratamento de cloroquina – atingem diferentes grupos sociais e comunidades ao redor do país.

Temos usado uma imagem pra representar esse processo: os relatos são como peças de um quebra-cabeças grande. Ao olhar para cada uma individualmente, não há nenhuma conexão entre elas. Mas quando juntamos essas peças, é possível ter uma ideia da figura que elas formam, mesmo que fiquem alguns buracos. Juntas, essas histórias individuais que chegam pelo questionário apontam para um problema coletivo, e aí nós, como jornalistas, trabalhamos para identificar esse contexto maior.

Mas o processo não se encerra com a divulgação do questionário, nem com a publicação das matérias. Depois que as respostas chegam e eventualmente servem de base para reportagens, o canal de comunicação com o público segue aberto. A ideia é contar para as pessoas como a contribuição delas nos ajudou a produzir reportagens, mostrar os resultados, pedir opinião e ajuda na divulgação de novos questionários, o que pode resultar em novas investigações. 

É importante dizer que a investigação participativa não tem a pretensão de fazer um estudo com amostras representativas de uma determinada comunidade, nem necessariamente gerar dados quantitativos. É uma maneira de envolver o público no fazer jornalístico porque acreditamos que isso pode enriquecer nossa cobertura, trazendo a ela mais vozes e pontos de vista, além de criar uma relação de confiança entre as pessoas e a redação.
 
Portal Imprensa - Na divulgação, vocês falam do objetivo que seria investigar as inúmeras violações de direitos humanos que marcam essa pandemia. Você poderia falar mais sobre isso?
 
Anna Beatriz - Há nove anos, a Agência Pública vem investigando violações de direitos humanos em diversas frentes. O Brasil é um país extremamente desigual, o que faz com que a pandemia atinja de forma diferente os grupos sociais e econômicos. Neste projeto, nossa intenção é seguir com o trabalho habitual da Pública e investigar como desigualdades de raça, gênero, renda e região vulnerabilizam mais algumas comunidades do que outras. Nesse primeiro momento, como já dissemos, o foco é entender como essas condições influenciam a mortalidade pela Covid-19, mas a ideia é lançar novos questionários focados em outros aspectos relacionados ao coronavírus.

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