"Acompanhei essa travessia com sofrimento”, diz jornalista sobre trilogia de Casagrande

Leandro Haberli | 06/07/2020 16:26
Amigo pessoal do ex-jogador e hoje comentarista Casagrande, o jornalista e escritor Gilvan Ribeiro é coautor de “Travessia”, que narra a travessia de Casagrande na luta contra as drogas e na retomada da vida social.

A obra faz parte de uma trilogia feita pela dupla.  Em 2013, eles lançaram “Casagrande e Seus Demônios” e, em 2016, “Sócrates e Casagrande, uma história de amor”, todos pela Globo Livros.

Aos 55 anos, Gilvan trabalhou como repórter, editor e colunista em veículos como Folha de S.Paulo, Diário Popular, Diário de S.Paulo, Agora e ESPN/Brasil. 

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Gilvan fala sobre o processo de produção e edição do livro, além da experiência de fazer o lançamento virtual no dia 30 de junho. 

- Como foi o processo de produção do livro – entrevistas, depoimentos, edição etc. Quanto tempo durou cada um?
A produção do livro começou pelas entrevistas com o Casagrande, e à medida que outros personagens iam surgindo na conversa, eles eram procurados. Por exemplo, quando ele falou sobre a volta dos surtos psicóticos e das visões demoníacas, que ocorreu no final de 2014, procurei uma das psicólogas dele daquela época para que contasse a própria percepção dos acontecimentos. Como o Casagrande a havia chamado para lhe mostrar as supostas marcas deixadas pelos demônios nas paredes, nos móveis e no chão do apartamento, era fundamental que ela desse seu depoimento sobre o que concluiu ao ver esse cenário, além das explicações sobre o estado psíquico dele. O mesmo procedimento foi adotado com os filhos que o visitaram naquela ocasião. Eles passaram as suas lembranças, o impacto de ver o pai naquele estado de confusão mental, assim como o clima pesado da casa. Era importante colher o máximo de impressões para que eu pudesse recriar esse ambiente sombrio, enfumaçado, com cheiro de cigarro que podia ser sentido desde a saída do elevador, com o maior realismo possível. No total, foram 28 entrevistados, alguns deles mais de uma vez, então nem sei dizer ao certo o tempo que levou essa fase. Talvez seis ou sete meses, por aí... Há alguns artistas, que às vezes estavam viajando em turnê de um show ou gravando um filme, o que interferiu no calendário da produção das entrevistas. Encerrada essa etapa, eu gosto de me isolar para escrever. Assim como nos livros anteriores, fui para um chalé na praia da Almada, em Ubatuba, sozinho, e fiquei lá traçando o roteiro do livro, a linha da narrativa, definindo a sequência dos capítulos, as amarrações de um para outro, complementando as pesquisas por internet e escrevendo. Passei três meses assim. Em seguida, foram cerca de mais três meses para o processo de edição, diagramação e seleção das fotos que compõem a publicação.

- Esse é o terceiro livro que você escreve com o Casagrande. Fale um pouco sobre como começou a parceria.
Conheci o Casagrande na época que ele ainda jogava na Itália. Durante as férias dele, fazíamos várias entrevistas.  Eram papos longos, para matérias especiais, inclusive em um sítio que ele tinha nas proximidades de São Paulo, onde organizava churrascos e peladas com amigos. Esses contatos prolongados criaram uma afinidade, principalmente porque havia interesses comuns por música, cinema, teatro e literatura. Mais tarde, ao encerrar a carreira de jogador, ele se tornou comentarista da ESPN/Brasil, na qual eu já era repórter. Trabalhamos juntos por um ano em transmissões de jogos, antes de ele ir para a Globo. Posteriormente, o Casagrande foi contratado como colunista do Diário de S. Paulo, e fui seu editor. Eu também escrevia suas colunas, depois de conversarmos sobre um determinado assunto ou almoçarmos com alguma personalidade, em geral um esportista ou artista, com quem trocávamos ideias. Isso trouxe ainda mais intimidade e acabamos nos tornando amigos. Em 2001, houve a morte do titã Marcelo Fromer, que havia iniciado uma série de entrevistas com o Casagrande a fim de fazer uma biografia. Esse projeto ficou no vácuo e, anos mais tarde, o próprio Casa manifestou o interesse que eu o assumisse. Na ocasião, expliquei que não seria possível contar essa história sem tocar na questão das drogas, que ainda não era de conhecimento público. Por isso, tudo ficou em suspenso. Até 2007, quando houve o acidente de carro e a sua internação involuntária, o que fez com que a dependência química viesse à tona. Então a Aída Veiga, editora da Globo Livros na época, me procurou com a proposta de uma biografia. Eu aceitei, só faltava combinar com o personagem. Assim que a clínica liberou as visitas, fui vê-lo, e fechamos a parceria. Inclusive, ele me presenteou com a autobiografia do Eric Clapton, que também sofreu com a dependência em cocaína e heroína, como uma referência para fazermos um livro tão corajoso quanto aquele. O Casagrande saiu da internação em outubro de 2008, mas os terapeutas acharam arriscado que ele revivesse seus demônios naquele momento. Finalmente, em 2012, nós iniciamos as entrevistas para “Casagrande e seus demônios”, publicado em abril de 2013.
Crédito:Lucas Seixas/Divulgação Globo Livros



- Você é amigo pessoal do Casagrande. Como é acompanhar esses momentos e escrever sobre eles?
Como amigo do Casagrande, acompanhei essa travessia com preocupação e sofrimento. Confesso que houve momentos em que cheguei a jogar a toalha, pensando que não teria mais volta. Em 2007, por exemplo, fui a uma festa na casa dele e fiquei assustado com a sua magreza: as costelas bem visíveis, o rosto chupado, com marcas de picadas nos braços e pernas, cobertas por largas roupas de mangas compridas, apesar do calor. Ele estava esquálido mesmo! Esperei todos os convidados irem embora para conversar com ele longamente, a sós, na tentativa de lhe mostrar que ele iria morrer logo se continuasse naquele caminho. Ou então seria internado à revelia pela família, caso ele próprio não tomasse a iniciativa de procurar tratamento. Saí de lá com o dia amanhecendo, mas o esforço foi em vão. Tanto assim que ele continuou em direção ao abismo, e um mês depois, ao tentar fugir das visões demoníacas, sofreu o acidente de carro e acabou, de fato, internado involuntariamente. Claro que acompanhar situações como essa era algo aflitivo, mas, ao mesmo tempo, me deu subsídios para que eu pudesse recriar as cenas com realismo e dramaticidade ao escrever os livros.

- “Travessia” fala de um período específico?
“Travessia” é uma continuação de “Casagrande e seus demônios”, com tudo o que aconteceu na vida dele de 2013 para cá, mas sem uma narrativa linear. Claro que foi necessário retomar algumas situações anteriores, expostas no primeiro livro, para contextualizar e puxar o fio da meada, a fim de mostrar o desenlace dos acontecimentos e as transformações nesse período. Um exemplo: o desabafo duro e ressentido do filho caçula, Symon, no Programa do Faustão, que comoveu o Brasil em 2011, é abordado com o próprio Symon para que ele conte o que sentia na época e compare com os dias de hoje. Ele não é mais um adolescente, se tornou um jovem adulto e passou a morar com o pai. Agora já pode falar das cicatrizes e desse processo de resgate afetivo que ainda está em curso. Em relação às drogas, acontece a mesma coisa. Há depoimentos impactantes de amigos do rock, como Kiko Zambianchi, Paulo Miklos, Branco Mello, Nando Reis, Nasi e Luiz Carlini, referentes à fase de uso intenso de drogas, para que eles possam falar em seguida da ressignificação da amizade a partir da conquista da sobriedade por todos eles. Há passagens surpreendentes do namoro do Casagrande com a Baby, uma relação que o ajudou muito na recuperação. Assim como revelações de suas psicólogas sobre as crises psicóticas e a trajetória acidentada até a conquista da estabilidade.  Apesar de ter episódios dramáticos e sombrios, à medida que a travessia passa pelas turbulências e se aproxima da fase atual, o livro se torna mais luminoso, abordando o envolvimento do Casagrande com as artes, como produtor cultural, e sua volta à luta pela democracia, neste momento em que ela se vê novamente ameaçada no país.

- Como foi fazer um lançamento virtual?
O lançamento virtual foi uma alternativa para que pudéssemos lançar “Travessia” em meio à pandemia. A programação original era fazê-lo presencialmente em abril, mas, com a necessidade de quarentena, houve o adiamento. A princípio, iríamos esperar essa loucura passar e fazer mais para frente um evento tradicional em uma livraria, mas, como ficou claro que vai demorar para controlar a Covid-19 no Brasil, mudamos os planos e partimos para a divulgação por lives, a primeira dela no Instragam da Livraria da Vila, em 30 de junho. Nossa ideia agora é fazer lives com a participação de outros personagens do livro. Uma ferramenta interessante nesses tempos que estamos vivendo, mas é claro que não tem o mesmo calor de uma noite de autógrafos. É bem mais prazeroso o contato direto com o leitor, com abraço, fotografia e dedicatória. Por isso, futuramente, pretendemos organizar eventos para que as pessoas que estão comprando o livro agora, pela internet, possam levá-lo para nós assinarmos.

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