“O jornalismo brasileiro trata o racismo como um treze de maio fora de época”, provoca o Professor Almeida no Roda Viva

Sinval de Itacarambi Leão, editor Portal Imprensa | 23/06/2020 16:15

O programa Roda Viva, em seus 34 anos, tratou ontem, dia 22 de junho, a pauta racial com a pegada do racismo estrutural como base da administração do Estado e da formação do povo brasileiro. Ao convidar o professor Silvio Almeida, doutor em filosofia e teoria do direito pela USP, professor da Universidade Mackenzie no Brasil e professor da Universidade Duke, na Carolina do Norte, nos EUA, e colocar uma bancada majoritariamente de jornalistas negros, a diretora e âncora do programa, Vera Magalhães preparou a audiência a ver um dos momentos mais contundentes do Roda Viva.


Tiago Amparo, professor de direito da FGV e colunista da FSP, Flávia Lima, socióloga, advogada, jornalista e hoje no 2º mandato de ombudsman da FSP, Joyce Ribeiro, apresentadora do Jornal da Tarde da TV Cultura, Paulo Cruz, jornalista na Gazeta do Povo (Paraná), todos jornalistas negros, além de Paula Miraglia, antropóloga e diretora do Nexo Jornal compuseram a bancada. O gancho jornalístico foram as manifestações populares em centenas de cidades americanas para protestar contra o assassinato de Georges Floyd, em Minneapolis, há três semanas. No Brasil, o bastidor é o negacionismo do presidente Bolsonaro à pandemia da covid-19 que já atingiu no mínimo 50 mil mortos e a cifra de 1 milhão de infectados, de março para cá.

Crédito: Reprodução TV Cultura
 

Na entrevista, a pauta racismo teve o adjetivo ‘estrutural’ como o termo mais citado e definidor. Debaixo dele, as pautas ciência, políticas sociais, desigualdade, segurança, educação, SUS, desenvolvimento econômico, violência e segurança foram discriminadas em sua complexidade e importância. Silvio Almeida é um intelectual que navega bem na sistematização cientifica do racismo, assim como no ardor guerreiro pela causa. Valoriza muito o ativismo político tanto da raça negra como da raça branca na construção de uma sustentabilidade racial, harmônica e racional. Elogia o feminismo racial na luta de gêneros.

 

Jornalismo desprezou a pauta do racismo

 

Inquirido pela ombudsman da FSP, Flávia Lima, sobre a cobertura jornalística da pauta no Brasil e nos EUA, Silvio Almeida disse que a diferença entre os dois países está no sucesso dos jornalistas negros, personificado no âncora da CNN, Bernard Shaw. Chamado que foi a opinar sobre as manifestações contra o racismo, Shaw é a prova que jornalistas e intelectuais negros são demandados lá num consenso silencioso de que existem jornalistas negros celebrados pela audiência e que, portanto, podem falar com pertinência e autoridade sobre economia, política ciência e também sobre a pauta racial.

 

No caso do Brasil, ele afirma que os veículos de comunicação são coniventes com a supremacia branca por “reproduzirem um imaginário da raça negra que naturaliza a morte e trata o negro como inferior e bandido”. E quando não o fazem, parece estarem cobrindo um “treze de maio fora de época”. A razão dessa conivência é que o jornalismo brasileiro não está capacitado para entender a complexidade das pautas raciais.

 

A tempestade perfeita, hoje, evidencia a explosão que as 3 crises - política, econômica e sanitária - trazem ao mundo. Potencializa lideranças infensas ao diálogo e que apostam na violência como método de conquistar e manter o poder, a exemplo de Trump e Bolsonaro. Para eles, o racismo termina sempre com a morte.

 

 

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