“A desinformação na pandemia de Covid-19 é um fenômeno completamente novo e um grande desafio para os checadores”, diz Natália Leal, Diretora de Conteúdo da Lupa

Kassia Nobre | 19/06/2020 09:50
Após analisar peças de desinformação sobre o número de mortes e de casos de Covid-19 que foram desmentidas por checadores, a Agência Lupa concluiu que esse tipo de desinformação circulou muito mais no Brasil do que em outros países.   

A Diretora de Conteúdo da Lupa, Natália Leal, explica que o levantamento foi feito usando duas bases de dados públicas, alimentadas por cerca de 100 iniciativas de checagem que trabalham verificando fatos sobre o novo coronavírus desde o início da pandemia. Essas duas bases são um esforço coletivo da International Fact-checking Network e da rede LatamChequea.

O levantamento mostrou ainda que, logo após o Brasil, estão os Estados Unidos. “Ou seja, os dois países onde há mais casos e mortes por Covid-19 também são os dois países que mais têm peças de desinformação relacionadas a esse tema desmentidas por checadores”, afirma Natália.

O Portal Imprensa conversou com a diretora sobre o trabalho dos checadores e as ações da Lupa para combater a desinformação relacionada à pandemia. 

“Na eleição de 2018, nós trabalhávamos muito, mas os tópicos se repetiam, embora as peças fossem novas. Agora, temos mais peças e muito mais tópicos. É necessário estar atento a uma quantidade de temas muito maior do que em qualquer outro momento e, ao mesmo tempo, lidar com o fato de que as informações mudam, porque o vírus é novo e as formas de combatê-lo também estão sendo descobertas aos poucos. É um momento muito desafiador”. 

Crédito:Arquivo pessoal


Portal IMPRENSA -  A Agência Lupa mostrou que o Brasil teve o maior número de posts falsos em redes sociais. Você poderia contar como foi feita esta análise?
Natália Leal - A análise que fizemos não é sobre a quantidade de publicações em redes sociais, mas sim sobre o total de peças de desinformação que foram desmentidas pelos checadores. Também não é sobre todos os assuntos, mas sim sobre as questões relacionadas a número de mortes e de casos de Covid-19. Esse levantamento foi feito usando duas bases de dados públicas, alimentadas por cerca de 100 iniciativas de checagem que trabalham verificando fatos sobre o novo coronavírus desde o início da pandemia. Essas duas bases são um esforço coletivo da International Fact-checking Network e da rede LatamChequea. 

Nesta pesquisa, observamos as peças de conteúdo desinformativo que foram esclarecidas pelos checadores desde o início da pandemia e que tratavam de números de casos e de mortes. O que concluímos é que esse tipo de desinformação circulou muito mais no Brasil do que em outros países, a partir da observação de que os checadores trabalharam em peças desse tipo por aqui muito mais do que em outros lugares. Em segundo lugar, vêm os Estados Unidos. Ou seja, os dois países onde há mais casos e mortes por Covid-19 também são os dois países que mais têm peças de desinformação relacionadas a esse tema desmentidas por checadores.

Portal IMPRENSA -  Quais foram os principais temas das peças de desinformação que circularam no Brasil relacionadas à Covid-19?
Natália Leal - No Brasil, nós observamos algumas ondas de desinformação relacionadas ao novo coronavírus. Tivemos, logo no começo, uma grande quantidade de peças que falavam sobre possíveis curas e tratamentos caseiros, como chás, soluções milagrosas etc. Depois tivemos uma grande quantidade de peças que mostrava hospitais supostamente vazios, o que não era verdadeiro. Em seguida, tivemos algumas publicações que usavam imagens antigas de abordagens policiais para afirmar que pessoas que estavam inocentemente furando o isolamento social estavam sendo tratadas com violência nas ruas por agentes de segurança.

Em seguida, tivemos os caixões vazios, um fenômeno desinformativo muito próprio do Brasil, que não se repetiu em praticamente nenhum outro país e intrigou muito a imprensa internacional. Por último, ainda destaco as comparações dos números de mortes em 2019 e em 2020, com base em distorções de dados verdadeiros, porém desatualizados, obtidos junto aos cartórios. E sempre permeando essas ondas pontuais temos os medicamentos, com destaque absoluto para a cloroquina, que também ganhou um caráter político nesta discussão.

A desinformação na pandemia de Covid-19 é um fenômeno completamente novo e um grande desafio para os checadores, porque há uma quantidade absurda de desinformação circulando sobre temas e assuntos diferentes. Na eleição de 2018, nós trabalhávamos muito, mas os tópicos se repetiam, embora as peças fossem novas. Agora, temos mais peças e muito mais tópicos. É necessário estar atento a uma quantidade de temas muito maior do que em qualquer outro momento e, ao mesmo tempo, lidar com o fato de que as informações mudam, porque o vírus é novo e as formas de combatê-lo também estão sendo descobertas aos poucos. É um momento muito desafiador.

Portal IMPRENSA - A Agência Lupa criou o CoronaVerificado. Você poderia falar um pouco sobre esta iniciativa? Há previsão de outros projetos voltados para combater a desinformação sobre a pandemia? 
Natália Leal - O CoronaVerificado é um projeto em duas fases. Primeiro, uma base de checagens, um grande repositório de tudo que já foi esclarecido por checadores na América Latina a respeito de coronavírus. É um trabalho conjunto, liderado pela rede LatamChequea, que reúne checadores que produzem em espanhol na América Latina. Em abril, essa rede lançou uma plataforma análoga em espanhol e, a partir daí, a Lupa propôs traduzir esse conteúdo e disponibilizar essa grande base de informação verificada para os falantes nativos de língua portuguesa e contou com o apoio do Google News Initiative para desenvolver e manter a plataforma.

A Lupa, apesar de não produzir em espanhol, é parte do LatamChequea, e nós acreditamos que todos os países da América Latina têm traços em comum e que a desinformação, neste momento, seria um traço em comum também. No Brasil, também integram essa rede a plataforma Aos Fatos e o Estadão Verifica, unidade de checagem do jornal O Estado de São Paulo. O site é aberto, os dados são públicos e qualquer pessoa pode consultar a plataforma se tiver dúvida sobre a informação que recebeu. 

Em um segundo momento, com apoio da Unesco e do Instituto Serrapilheira, a Lupa produz análises sobre as ondas de desinformação sobre Covid-19 em todo mundo. Essas análises são feitas a partir da observação do que é registrado na plataforma CoronaVerificado e também na Coronavirus Facts Alliance, mantida pela IFCN. Essas análises são publicadas no site da Lupa e também em sites parceiros, como UOL. Conseguimos observar, por exemplo, que conforme as máscaras foram sendo recomendadas como item de uso obrigatório por diferentes países, a desinformação sobre elas cresceu. Também mostramos que a cultura local influencia a desinformação sobre curas para a Covid-19 - no Brasil, aparece o chá de jambu, mas na França é o queijo roquefort, enquanto na Argentina se recomenda o vinho, por exemplo. As análises não visam destacar checagens específicas, mas sim mostrar como os conteúdos falsos circulam por diferentes países ou coincidem com fatos importantes durante a pandemia.

Além do CoronaVerificado, a Lupa mantém duas newsletters diárias - uma voltada para o público em geral e outra voltada para profissionais e entidades de saúde, que disponibiliza conteúdo multimídia para uso livre -, um podcast semanal, o Verifica, com uma temporada de 20 episódios específicos sobre o novo coronavírus, e uma parceria com o Redes Cordiais, em que abastece com informação verificada uma imensa rede de influenciadores digitais, além de produzir vídeos e lives educativas sobre desinformação e comunicação não-violenta.

Também temos o Lupa na Ciência, uma revisão de artigos científicos relacionados ao novo coronavírus, que publicamos às segundas, quartas e sextas-feiras no nosso site e que traduz para uma linguagem mais acessível os principais consensos nas pesquisas sobre a Covid-19. Neste espaço, já tratamos de isolamento social, diferentes medicamentos, desenvolvimento de vacinas e outros temas. Temos outros projetos e parcerias em desenvolvimento que envolvem o novo coronavírus e que pretendemos anunciar em breve.

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