“A eleição digital”, por Carlos Henrique Carvalho

Carlos Henrique Carvalho | 15/06/2020 11:54


Estamos em ano eleitoral. E em plena pandemia do Coronavírus, as eleições municipais, marcadas para 3 de outubro, estão cercadas por algumas incertezas. E uma certeza. A data da eleição e o formato das convenções partidárias, bem como a própria dinâmica da campanha eleitoral devem sofrer alterações e ainda há discussões sobre esses pontos no Congresso e no TSE. A única certeza que o meio político nos garante é a de que não haverá prorrogação de mandatos dos atuais prefeitos e vereadores. Ou seja. Teremos eleições em 2020. Quando, ainda é uma questão a se decidir. 

O grande desafio de partidos e candidatos será o formato da campanha. A julgar pelo andamento das medidas de reabertura gradual da atividade econômica em meio à curva crescente de novas contaminações e a triste escalada de mortes provocadas pela Covid-19, teremos uma eleição voltada para a arena digital, talvez em períodos de novas ondas de transmissão do vírus e possíveis medidas de isolamento social, o que vai dificultar, mas não impedir a campanha de rua, já que os brasileiros parecem gostar de descumprir as orientações dos especialistas e das autoridades de saúde.

Crédito: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Se as redes sociais e os algoritmos já tiveram um papel relevante na eleição presidencial brasileira de 2018, repetindo o fenômeno que se deu nos Estados Unidos em 2016 e no plebiscito do Brexit, a corrida pelo voto dos brasileiros nos 5570 municípios brasileiros terá no ambiente digital a principal forma de contato entre os candidatos e os eleitores.

Muitos desses candidatos vão apostar na própria intuição e no uso massivo de seus celulares para manter seu eleitorado em conexão e buscar os votos. Mas são poucos os que já têm uma rede de seguidores robusta e usam seus canais de forma a manter a fidelidade e o engajamento para multiplicar votos. 

Se você é candidato, assessor de candidato, dirigente partidário ou vai coordenar uma campanha eleitoral e ainda não planejou como será a comunicação digital de suas candidaturas, já está perdendo tempo. Para agregar seguidores, divulgar plataformas e propostas de campanha, convencer os eleitores a trabalhar para conquistar mais votos e converter todo o esforço digital em números que garantam um lugar na prefeitura ou na câmara de vereadores é preciso muito mais do que intuição. Por isso, já está na hora de preparar seu plano de comunicação, levando em conta o papel relevante que o digital terá neste pleito.

E se você é profissional de comunicação e gestor de agência de comunicação está esperando o quê para mostrar aos partidos e candidatos que está pronto para atendê-los? Organize suas ideias, estude a presença do digital nos pleitos recentes, visite os perfis de políticos e partidos e apresente planos de trabalho. Teremos pela frente uma eleição cheia de riscos, provocados pela disseminação indiscriminada de fake news, que já foram as pragas das últimas campanhas. Por isso, mostrar aos candidatos como monitorar as redes, responder às mentiras que possam estar em circulação, divulgar plataformas claras e propostas verdadeiras como forma de conquistar a confiança dos eleitores é um trabalho que exige investimento, planejamento e muito suor. O corpo a corpo digital deve começar em agosto, depois do prazo final para que partidos realizem suas convenções, que devem ser realizadas em assembleias online, com autorização da Justiça Eleitoral. A data de início da campanha ainda é uma incógnita e o período de  divulgação das candidaturas será curto, como já estava previsto pela legislação que regulamentou o pleito de 2020. 

Mas quem está parado, à espera, já está perdendo tempo para a concorrência. É só dar uma passeada pelas redes para perceber que está bem claro quais são os possíveis candidatos, que já fazem lives a torto e a direito, tentando ampliar seu alcance no mundo digital. 

Parece que desta vez não teremos as cenas tradicionais da caminhada dos candidatos pelas ruas comerciais, com as indefectíveis paradas para a coxinha de anteontem, o café ralo e morno e as criancinhas no colo. Talvez tenhamos cenas divertidas das transmissões feitas a partir da casa dos políticos e nossos perfis nas redes sociais serão inundados pelos pedidos de votos, convites para transmissões ao vivo, eventos virtuais, debates e, infelizmente, um bocado de polarização. Mas, quem sabe, com o trinfo do digital tenhamos uma eleição mais horizontalizada, com oportunidades menos desiguais para candidaturas dos mais variados segmentos, com mais diversidade, mais mulheres e mais negros e negras com chances reais de eleição para câmaras e prefeituras.

Vem aí a eleição digital. Preparem-se.


*Sobre o autor: Carlos Henrique Carvalho é Presidente-Executivo da Associação Brasileira das Agências de Comunicação – Abracom. Jornalista graduado pela PUC/SP, cursou especialização em gestão de empresas de comunicação na Fundação Dom Cabral. Foi produtor, roteirista e diretor de programas de jornalismo, educação, debates políticos e temas acadêmicos para os canais Sesc/Senac, Record, Gazeta e Cultura. Produziu vídeos para os movimentos sociais da periferia de São Paulo e atuou na equipe de comunicação da Prefeitura de São Paulo na gestão de Luiza Erundina (1989-1992) com ênfase em educação, urbanismo, meio ambiente, diversidade, transporte e planejamento. É co-autor do blog Lombada Quadrada, dedicado a resenhas sobre literatura e a paixão por livros.

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