Pesquisadora lança livro e compartilha dicas práticas para a produção de perfis no jornalismo

Kassia Nobre | 09/06/2020 10:42
A pesquisadora Marta Maia acaba de lançar o livro Perfis no jornalismo: narrativas em composição (Editora Insular). A obra faz parte da série “Novas Diretrizes” de divulgação de livros para o ensino de jornalismo.

O Portal IMPRENSA entrevistou a autora sobre a produção do livro. Além da conversa, Marta disponibilizou dicas práticas para a produção de perfis.
 
Confira as dicas 
a) Escrevo sempre para alguém (por mais que eu goste do meu texto, eu escrevo para um público). Por isso, tenha sempre em mente que é preciso agenciar o leitor, possibilitando a ele o desejo de fazer a leitura de maneira prazerosa, sem interrupções.

b) O perfil, preferencialmente, deve ser acionado pelo presente. Evite começar um perfil com o nome, data e local de nascimento e a descrição da infância da pessoa (a não ser quando essa questão for o motivo principal da escrita).

c) Como todo texto jornalístico, o perfil admite certo volume de informações, mas é sempre bom pensar que determinados detalhes distanciam a escrita da fluência, portanto, não tenha receio de fazer uma boa edição, cortando o que for preciso. Não somos obrigados a publicar todas as hesitações dos entrevistados. É claro que algumas são bastante interessantes e devemos aproveitá-las, outras, entretanto, são absolutamente desnecessárias, não acrescentam nenhuma faceta ao que está sendo contado. Outro aspecto importante é que, ao observarmos essa questão, podemos desenvolver nossa capacidade de síntese.

d) Quando possível, já que nem sempre há essa escolha, busque fazer uma checagem de determinados relatos. A voz do entrevistado não pode ser absoluta, afinal estamos falando de perfis jornalísticos que tem na veracidade um de seus pilares de sustentação.

e) Quando houver mais tempo para a produção de um perfil, procure ampliar, ao máximo, as vozes presentes no texto. O entorno da vida do perfilado proporciona mais elementos para a composição do retrato da pessoa em foco para o leitor.

f) O perfil não precisa ter um fim, mas sim um arremate que dê conta daquele momento específico da vida do perfilado. Mesmo em casos de obituários, novas questões podem emergir a partir de um diário encontrado, de um depoimento descoberto a posteriori, portanto, não há como definirmos a vida de alguém de modo linear, sequencial, com começo, meio e fim, até porque toda narrativa apresenta lacunas. Como já discutido anteriormente, a vida é repleta de contradições e incertezas.

g) Tome muito cuidado com a descrição das circunstâncias da entrevista. Muitas vezes, levado pela ideia de mostrar como aconteceu a entrevista, o jornalista exagera na descrição, apresentando detalhes que não acrescentam quase nada para quem está lendo o texto. É sempre importante ter um espírito autocrítico no sentido de questionar se há necessidade de manter ou não determinada informação.

h) O nosso corpo é um elemento fundamental enquanto comunicação humana. Esse lugar que habitamos precisa de cuidados, afinal o gesto precede a escrita. Cuide para ele esteja sempre com saúde, afinal precisamos dele (bem) tanto para as entrevistas quanto para a escrita.

i) Os bastidores do processo de produção podem ser revelados com o objetivo de mostrar para os receptores quais os recursos utilizados: a concepção da pauta, quais fontes foram acionadas e os motivos de sua presença ou ausência, como se deu a pesquisa realizada e a própria edição do material. Esse mecanismo de transparência pode aparecer ao longo do texto ou ao seu final, como um making of. Além de estarmos contribuindo para uma cultura comunicacional mais democrática e inclusiva, conseguimos assim refletir sobre o nosso próprio fazer jornalístico.

j) Importante pautar-se, sempre, pelo viés da diversidade. Nós, jornalistas, não temos autonomia absoluta, mas podemos (e devemos) romper com o silenciamento, por parte de alguns meios de comunicação, das histórias de pessoas que passaram por violência de gênero, por situações de racismo, ou de qualquer tipo de preconceito. 

Crédito:Divulgação Editora Insular


Portal Imprensa - A Editora Insular lançou a série "Novas Diretrizes" para a divulgação de obras para o ensino de jornalismo. Você poderia falar um pouco sobre esta iniciativa?
Marta Maia - A Série Novas Diretrizes busca atender aos novos currículos de Jornalismo na formação humanística, teórica e prática de profissionais preocupados com a ética e a qualidade da informação em uma sociedade democrática. 

A Série é coordenada pelo jornalista Samuel Lima, que também é professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisador do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS/UFSC). Ela tem um Conselho formado por experientes pesquisadores do Brasil e de outros países: Adriana Amado Universidad Argentina de la Empresa), Alfredo Vizeu (UFPE), Celso Schröder (PUCRS-Fenaj),  José Carlos Camponez (Universidade de Coimbra), Liziane Guazina (UnB), Marta Maia (UFOP), Rafael Bellan (UFES), Rogério Christofoletti (UFSC), Roseli Fígaro (USP) e Sylvia Moretzshon (UFF/ Universidade do Minho). 

A edição da Série ficará a cargo de Nelson Rolim de Moura, Editor da Insular, que firmou parceria com o Programa de Pós-Graduação em Jornalismo, da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGJOR/UFSC), para essa ação.

Qualquer pesquisador poderá submeter sua obra original aos membros do Conselho ou para o Coordenador; o original receberá parecer qualificado de dois membros do Conselho; caso haja empate, será encaminhado para um terceiro parecerista. A perspectiva é que sejam lançadas várias obras por ano.
 
Portal Imprensa - Você poderia falar sobre o processo de criação do livro Perfis no jornalismo? 
Marta Maia - Esse livro surgiu como resultado de inquietações advindas durante o processo de ensino. Muitas pesquisas conduzidas no ambiente acadêmico têm sua origem em circunstâncias motivadas pela curiosidade epistemológica do pesquisador - o que, diga-se de passagem, é legítimo -, entretanto, nota-se que, muitas vezes, acabam atendendo demandas conceituais ou até mesmo empíricas em detrimento de questões oriundas, por exemplo, das atividades de ensino. Considerando então que a sala de aula permanece ainda como um espaço de pouca investigação, resolvi levar adiante essa narrativa.

Foram muitos anos de ensino dedicados à produção de perfis. Lembro-me com especial atenção da página que criei no jornal da Apropucc (Associação dos Professores da PUC Campinas), como assessora de imprensa da entidade de 1990 a 1993. Eu produzia para o jornal, com periodicidade mensal, o perfil de um professor ou professora da Universidade. Era das tarefas mais prazerosas da minha função. Depois, retomando a produção desse tipo de narrativa como editora do Jornal-laboratório da Universidade Metodista de Piracicaba, como docente, e, em seguida, nas pesquisas do doutorado. Na UFOP, iniciei um projeto, denominado Prosaico, com a publicação dos perfis realizados pelos estudantes para a disciplina Redação em Jornalismo, ministrada por mim no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto desde 2010. 

Ciente, entretanto, que não deve haver uma cisão entre as práticas educacionais e o processo de investigação científica – pelo contrário, há que se estabelecer cada vez mais uma ponte entre esses campos -, optei por coordenar projetos de pesquisa que trouxeram à tona a variedade de perfis e o espaço que esse tipo de escrita tem ocupado na dinâmica cotidiana do fazer jornalístico. O primeiro deles foi sobre os perfis veiculados por quatro revistas brasileiras: Brasileiros, Época, Veja e piauí (2012-2013). Dei continuidade à pesquisa no pós-doutorado em Comunicação na UFMG (com supervisão da Vera França), em 2014. Retomei, em 2017, as investigações com o projeto “Gêneros, angulações e temporalidades na produção de perfis” nas revistas Brasileiros, piauí, Veja, Época. Em 2018, complemento as análises com as revistas IstoÉ, Caros Amigos e Carta Capital. Nesse mesmo ano, iniciei investigação inédita sobre a presença de perfis em jornais brasileiros e mineiros. Também com bolsistas de Iniciação (CNPq, Fapemig e UFOP), analisamos os jornais Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, O Globo, O Tempo, Estado de Minas e o Super Notícias. Atualmente (2020-2021), coordeno uma pesquisa sobre os livros de perfis. O que essas pesquisas demonstram é que os veículos estudados reservam um grande espaço em suas páginas para este formato jornalístico.

Outro aspecto não menos importante da experiência com a disciplina na UFOP é a aproximação dos estudantes com a comunidade local. Ao conhecer histórias de vida das pessoas que conduzem a dinâmica da sociedade, os estudantes podem ter assim acesso a novas percepções da realidade por intermédio das inúmeras vozes, que, muitas vezes anônimas, acabam não tendo espaços de expressão nas chamadas mídias convencionais.

A partir dessas experiências de ensino, pesquisa e extensão, comecei a escrever o livro em 2017, com relativa dificuldade por conta das inúmeras atividades que nós professores acumulamos na Universidade. E somente consegui concluí-lo em 2019, com revisão e acertos já em 2020.

Uma rápida pincelada sobre os capítulos: No Capítulo 1 realizo uma discussão sobre a inequívoca presença das narrativas do eu na atualidade, percorrendo uma trajetória que passa pelo gesto do selfie, pela alteridade, pelas biografias e a potência dos testemunhos até chegar ao jornalismo. No Capítulo 2 apresento o conceito de perfil como uma “composição textual discursiva do sujeito a partir de determinadas angulações que traduzem as perspectivas adotadas na escolha do perfilado, na captação e na edição”; aponto ainda um panorama histórico dos perfis e exponho o resultado de várias pesquisas coordenadas por mim nos últimos oito anos. O terceiro capítulo é dedicado aos estudos de gênero, às narrativas jornalísticas e literárias e aos tipos recorrentes de perfilados nos veículos de comunicação. Identifiquei sete tipos: 1) sucesso, 2) exaltação, 3) utilitário, 4) ironia, 5) cronológico, 6) humanizado e 7) complexo. O Capítulo 4 delineia os itinerários possíveis na produção de perfis por intermédio de algumas orientações e sugestões. E, após, algumas considerações finais, e considerando a importância de aliar teoria à prática profissional, apresento três perfis e dois obituários autorais.

PS: Perfis de Cremilda Medina, João Moreira Salles, Maria de Lourdes da Costa (costureira) e Lourenço Diaféria. Os obituários: Audálio Dantas e Paulo Iabutti.

Portal Imprensa - Como você avalia a importância dos perfis no jornalismo? Como ele deve ser construído? 
Marta Maia - O encontro da história com o sujeito, na atualidade, obstrui qualquer pretensão de privacidade. Nunca se falou tanto de pessoas, de seus hábitos, suas vontades, seus costumes e suas condutas, ou seja, há uma proeminência do sujeito na vida social. Esse sujeito, que parece ocupar todos os espaços possíveis, em especial os das redes sociais, precisa ser visto, precisa ser “curtido”, precisa estar em evidência o maior tempo possível. Basta acessar qualquer meio de comunicação para constatar que as histórias individuais ocupam esses espaços de maneira acachapante. São inúmeros os programas na TV, rádio e internet, além de colunas e matérias nos meios impressos que relatam narrativas de vida, que conduzem os receptores para uma visita quase íntima, digamos assim, ao ambiente privado dessas pessoas, espaço antes destinado às pessoas mais próximas.

Nesse contexto, apresento, no livro, alguns itinerários possíveis para a construção de perfis que, mesmo pertencendo aos gêneros jornalísticos, não seguem parâmetros tão delineados como a produção de uma reportagem, por exemplo. Esclarecendo: a escrita de um perfil pode (e deve) ter pauta, pesquisa, captação, entrevista e checagem, mas a dinâmica do imponderável sempre estará presente no horizonte de quem produz esse formato textual. Se a obediência ao real é um dos pressupostos do bom jornalismo, visto que estamos falando de alguém que existe (ou existiu, no caso de obituários), não podemos deixar de considerar o alto grau de subjetividade que os sentidos da vida de alguém nos oferece.

Aponto então alguns cuidados e algumas dicas para a produção de perfis, compreendendo que não há regras absolutas quando se trata de narrativas. Reflito sobre como conduzir as entrevistas, a importância da alteridade e empatia nesse processo, o respeito aos “silêncios” dos entrevistados, a necessidade de singularizar o perfilado (evitar a generalização) e a habilidade de observar tudo que ocorre durante o contato. Dessa forma, podemos seguir por uma via de mão dupla, sem teses pré-concebidas ou prescrições a serem seguidas, afinal a experiência de cada um complementa as sugestões apresentadas.

Acrescento ainda que a escrita deve seguir de maneira fluente, sem muitas regras e amarras. Tendo como base o tripé ética, técnica e estética, devemos ter sempre em mente que a redação de um perfil deve envolver conhecimento, sensibilidade, sensualidade e coragem, afinal a linguagem tem o poder de criar novas maneiras de ver o mundo e afetar pessoas.

Portal Imprensa - Você poderia citar exemplos de jornalistas que produzem atualmente bons perfis? 
Marta Maia - Como nosso país tem dimensão continental, fica um pouco difícil estabelecer parâmetros objetivos para identificar jornalistas especializados na escrita de perfis (o risco de se cometer injustiça é enorme). Posso ressaltar, entretanto, os jornalistas Fred Melo Paiva e Eliane Brum como expoentes nesse formato. Listo ainda, a seguir, alguns jornalistas e/ou escritores que, em sua maioria, já publicaram livros (ou participaram de coletâneas) com escritas de perfis, como Consuelo Dieguez, Daniela Pinheiro, Fabiana Moraes, Ivan Marsiglia, João Moreira Salles, José Carlos Fernandes, Ricardo Kotscho e Luiz Maklouf Carvalho (infelizmente, morreu em maio de 2020).