Livro “Contra o ódio” aborda racismo, fanatismo e sentimento antidemocrático

Kassia Nobre | 02/06/2020 10:02
O livro “Contra o ódio” da jornalista e filósofa alemã Carolin Emcke acaba de ser lançado no Brasil pela editora Âyiné. A obra aborda o racismo, fanatismo e o sentimento antidemocrático em um espaço público cada vez mais polarizado. 

Carolin é considerada uma das intelectuais europeias mais interessantes de sua geração porque defende uma sociedade aberta a diferentes vozes.
 
“Uma democracia se realiza plenamente apenas com a vontade de defender o pluralismo e a coragem de se opor ao ódio. Com esses anticorpos, podemos derrotar os fanáticos religiosos e nacionalistas, que fabricam consenso, mas têm medo da diversidade e do conhecimento, as armas mais poderosas que temos”, afirma a autora.
 
O Portal IMPRENSA entrevistou o tradutor da obra, o professor universitário Maurício Liesen. Ele ressaltou a importância de Carolin para a comunicação. 

“Sua escrita consegue entremear reflexão filosófica e relato jornalístico de uma maneira tão bem equilibrada que não há precedência de um sobre o outro. Desta maneira, sua teoria ganha forma na medida em que diferentes vozes, relatos e testemunhos tornam-se visíveis pela própria reflexão”.

Maurício mencionou ainda os caminhos apontados pela autora para uma democracia que se opõe ao ódio. 

“Carolin Emcke faz em seu livro um grande apelo ao engajamento civil no combate ao ódio. É necessário intervir, tomar a palavra, fazer com que outros, que têm o discurso negado, sejam ouvidos. É necessário coragem para antecipar a explosão do ódio”.

Crédito:Divulgação Editora Âyiné


Portal IMPRENSA -  A obra da filósofa Carolin Emcke é interessante para a área de comunicação não apenas pela sua temática, mas também pelo estilo da autora. Você poderia comentar sobre isso?
Maurício Liesen  - É a partir de uma observação extremamente sensível dos fatos que Carolin Emcke tece uma crítica profunda sobre as estruturas e os contextos que explicam e moldam as várias formas do ódio nas sociedades contemporâneas. Sua escrita consegue entremear reflexão filosófica e relato jornalístico de uma maneira tão bem equilibrada que não há precedência de um sobre o outro. Desta maneira, sua teoria ganha forma na medida em que diferentes vozes, relatos e testemunhos tornam-se visíveis pela própria reflexão.

A meu ver, a obra de Carolin Emcke nos mostra a importância e a urgência de uma aproximação do jornalismo às ciências humanas, em especial à filosofia – o que vai em direção contrária ao atual movimento acadêmico no Brasil de ultraespecialização e fragmentação da Comunicação em profissões. A autora possui tanto uma sólida formação em filosofia (sob tutoria de autores contemporâneos importantes, como Jürgen Habermas e Axel Honneth) como uma ostensiva carreira como jornalista.

Por quase dez anos, por exemplo, ela foi correspondente do semanário Der Spiegel em áreas de crise, como o Oriente Médio e o Haiti. Herdeira intelectual da teoria crítica da chamada Escola de Frankfurt, Emcke disse certa vez que a carreira de jornalista em nada concorre com sua formação filosófica, já que sempre desejou educar, testemunhar contra injustiças sociais e atuar criticamente no espaço publico.

Portal IMPRENSA - A autora escreve sobre um ambiente cada vez mais polarizado de um pensamento que só permite duvidar das opiniões dos outros, nunca das próprias. Você acredita que Isso também estaria relacionado com a diminuição da credibilidade da mídia? Ou seja, as pessoas também não acreditam mais na voz da mídia?
Maurício Liesen  - Como ela mesma escreve no livro, a dúvida, a diferenciação, o questionamento das próprias atitudes são elementos que minam o ódio. A pluralidade de singularidades, de perspectivas, de vozes são inconcebíveis para aquele que odeia. A certeza de que sua visão de mundo é a única possível é uma condição para que seu ódio seja descarregado de maneira tão impiedosa. 

Por esse motivo, tudo aquilo que abala essa certeza deve ser combatido – por exemplo, no caso do jornalismo e das esferas públicas tradicionais, não basta apenas negá-los, mas eles devem ser combatidos. Seu descrédito deve ser entendido também como uma estratégia política, pois é uma condição para que pensamentos extremistas e excludentes repliquem seus moldes de ódio. 

Quando vemos ataques sistemáticos a jornalistas e a determinados espaços de informação devemos sempre questionar os contextos e estruturas que fabricam e direcionam esses ataques.

Por outro lado, assim como uma democracia sem uma formação democrática consolidada em suas instituições e cidadãos pode eleger um governo autoritário e antidemocrático, jornais e jornalistas que não fazem uma defesa clara de determinados valores humanos e plurais em sua própria cobertura podem contribuir com a generalização do seu próprio descrédito. Na tentativa de se tornarem imparciais a todo custo, dão espaço para discursos perigosos e falaciosos sem o devido contraponto. Assim como a tolerância deve ser intolerante diante da intolerância, o jornalismo deveria combater qualquer discurso que fere direitos fundamentais e constitucionais.

Mas voltando à sua pergunta, sobre a credibilidade (ou a falta dela) das pessoas na grande imprensa. O problema maior, a meu ver, é que o espaço de pluralidade e confronto de perspectivas próprio do espaço público é substituído por espaços privados de circulação de mensagens e reforço de opiniões. Sem uma devida regulação e responsabilização das próprias plataformas, as chamadas redes sociais se tornam o lugar ideal para constituição e proliferação dos discursos de ódio, já que são baseadas na circulação de informações independente de sua semântica.

Portal IMPRENSA - A autora escreve sobre a riqueza de uma sociedade aberta a diferentes vozes: uma democracia se realiza plenamente apenas com a vontade de defender o pluralismo e a coragem de se opor ao ódio. Quais são os caminhos apontados por ela para que isso ocorra na prática?
Maurício Liesen - Carolin Emcke faz em seu livro um grande apelo ao engajamento civil no combate ao ódio. É necessário intervir, tomar a palavra, fazer com que outros, que têm o discurso negado, sejam ouvidos. É necessário coragem para antecipar a explosão do ódio. Para quebrar o desejo de uma única voz, para interromper a univocidade do discurso em torno do homogêneo, do puro, do natural. 

Por isso que, ao final do seu livro, ela faz um apelo àquilo que é impuro, uma espécie de elogio à pluralidade. A diversidade cultural, religiosa, sexual significam enriquecimento do indivíduo, e não uma perda identitária ou de pertença. Nesse sentido, para promover a pluralidade das singularidades, o jornalismo tem, na minha opinião, um papel fundamental. É necessário que vozes silenciadas sejam ouvidas. O desafio também é conceitual. É necessário desestabilizar estereótipos e lugares-comuns, para abandonar de vez aquele jornalismo que busca apenas personagens para encaixá-los em moldes predeterminados. É necessário uma defesa intransigente de valores democráticos e humanos.