Autora do livro “A Era da Desinformação” dá dicas aos jornalistas para cobrir informações científicas sobre o coronavírus

Kassia Nobre | 13/05/2020 09:30
O combate à desinformação foi o tema do terceiro painel do seminário online “Liberdade de imprensa durante a pandemia”, uma realização da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e da Embaixada e os Consulados dos Estados Unidos no Brasil. 

A conversa contou com as participações de Cailin O'Connor, autora de “A Era da Desinformação” (Yale University Press, 2019); Cristina Tardáguila, diretora-adjunta da Rede Internacional de Checagem de Notícias (IFCN, na sigla em inglês); e Sergio Lüdtke, editor do projeto Comprova. O presidente da Abraji, Marcelo Träsel, fez a mediação.

Crédito:Reprodução Abraji


Informação Zumbi
Cailin explicou sobre a existência da informação zumbi. Ou seja, a informação que não deixa de circular nas redes sociais, mesmo quando é comprovadamente falsa. 

“No final de janeiro, uma equipe de pesquisadores da Índia publicou um artigo que dizia que o novo coronavírus tinha sido feito dentro do laboratório. Posteriormente, os próprios autores falaram que o artigo estava problemático e que eles estavam errados, porém o artigo continuou sendo discutido nas redes sociais. Não é um caso de desinformação comum. Não é boato. É algo que veio da comunidade científica. Causa problemas porque leva enganos à população. A informação não morre mesmo sendo falsa. Por isso, ela é um zumbi”, avalia. 

Segundo a autora, existem formas de o jornalista evitar a informação zumbi. Ela listou algumas delas:
- Cuidado com novas descobertas que ainda não foram fundamentadas. Não fale só com um especialista. Fale com a equipe.
- Não relate o estudo de um único indivíduo. Mesmo que o autor seja muito bom. 
- Atenção com o viés da extremidade. Procure evidências científicas que fogem do extremo.
- Esmiúce os erros. E se errar compartilhe o seu erro com os leitores. É compreensível que cometamos erros. 

A desinformação no mundo
Como diretora adjunta da Rede Internacional de Checagem de Notícias, Cristina Tardáguila pôde acompanhar os ciclos de desinformação que ocorreram durante a pandemia do coronavírus em todo o mundo.
  
Segundo a jornalista, os membros da rede de checagem passaram a checar informações nos seus países e compartilhar entre si para criar uma base de dados sobre as notícias falsas durante a pandemia. 
 
“A desinformação não enfrenta barreira politica, geográfica e de língua, muito menos de plataforma de divulgação. O maior risco que a covid representa é a falta de informação que leva a desinformação. Convivemos com o vírus no máximo cinco meses. São bases de dados mutantes. Areia movediça para qualquer jornalista. Nós jornalistas e checadores também não temos informação de qualidade e nos arriscamos todos os dias para passar informação de qualidade para o público”, explica.

Polarização no Brasil 
Já o editor do projeto Comprova afirma que o trabalho da checagem começou a crescer no Brasil a partir do momento em que a política e a polarização assumiram narrativas durante a pandemia.  

“A cloroquina virou remédio de direita e a esquerda demonizou o remédio. A polarização é uma encrenca para a gente. O Comprava sempre teve dificuldade para lidar com temas da saúde porque são temas não conclusivos. Estamos lidando com algo mais difícil em um momento de extrema incerteza. Muitas vezes pela esperança de uma cura. Isso tudo em um ambiente em que o jornalismo vem sendo atacado publicamente por autoridades, o que torna tudo isso muito mais difícil”. 

Sobre o seminário 
Para comemorar o Dia Mundial de Liberdade de Imprensa (3 de maio), a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Embaixada e os Consulados dos Estados Unidos no Brasil convidaram profissionais da mídia e alunos de jornalismo para participar, no dia 12 maio, do seminário virtual “Liberdade de imprensa durante a pandemia”. 

Em pauta, alguns dos principais temas que preocupam e desafiam os profissionais da mídia ao redor mundo diante da crise global de saúde.

O Seminário conta também com apoio do Instituto Palavra Aberta, Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo - Projor e da Associação Nacional de Jornais - ANJ.