"Nossa presença é fundamental para a democracia", diz Américo Martins, VP de conteúdo da CNN Brasil

Redação Portal IMPRENSA | 11/05/2020 13:11
Mestre em política e política internacional por instituições britânicas, o jornalista Américo Martins deixou a direção de jornalismo para Europa e Américas da BBC de Londres para assumir o cargo de vice-presidente de conteúdo da CNN Brasil, que estreou em 15 de março. 

Martins concedeu entrevista ao Portal IMPRENSA, na qual comenta a importância da presença da emissora no Brasil neste momento em que o país já é considerado o epicentro mundial da pandemia e a imprensa e a ciência são fortemente atacadas por setores radicais da sociedade . 

Martins tampouco se furtou a comentar temas espinhosos, como o impacto da drástica queda do mercado publicitário na estratégia da emissora e as notícias que circularam nos bastidores do jornaslimo sobre os meios de financiamento da CNN Brasil e a eventual participação de Edir Macedo no negócio. 

Ele também detalha a seguir como a crise do novo coronavírus mudou radicalmente todo o planejamento da emissora, informando que 40% dos funcionários da CNN Brasil estão em home office. 
Crédito: Arquivo Pessoal
"Jamais esperávamos, assim como todas as outras empresas de comunicação, que a realidade de nossas vidas e de trabalho mudaria tão rapidamente a partir da declaração de estado de Pandemia pela OMS", relata Martins.

Além de ter vivido 16 anos na Inglaterra, o jornalista foi presidente da EBC (Empresa Brasil de Comunicação) entre agosto de 2015 e fevereiro de 2016, a convite da então presidente Dilma Rousseff. Também atuou no Jornal do Brasil, na Rede TV! e na Folha de S.Paulo. 

Portal IMPRENSA - Qual a importância de um veículo com o porte da CNN para a liberdade de imprensa no Brasil?
A presença da CNN no Brasil é fundamental para a nossa democracia. Eu sempre acreditei muito que a competição enriquece e fortalece o jornalismo. E um jornalismo forte e independente é um dos pilares da democracia. Nós oferecemos um serviço essencial para o país neste tempo de grande polarização e com tantas fake news. A CNN é uma das marcas mais respeitadas do jornalismo mundial. É muito importante contar com essas grandes marcas internacionais do jornalismo operando no Brasil.

Portal IMPRENSA - Os jornalistas têm sido alvo de ataques frequentes do presidente Jair Bolsonaro e de seus apoiadores. Na sua opinião, de que forma isso afeta a liberdade de imprensa? 
É importante deixar claro que a CNN Brasil condena e repudia qualquer ato de violência contra os jornalistas ou atos de interferência de caráter intencionalmente invasivo observados durante a realização de reportagens pelo canal ou por seus concorrentes. Consideramos tais iniciativas, independente de onde venham, uma clara agressão ao direito de liberdade de imprensa e um desrespeito ao pleno exercício profissional do jornalista. De qualquer forma, é normal que os governos critiquem a imprensa. Isso acontece no mundo todo. Mas violência não pode ser tolerada.

Portal IMPRENSA - Quais as recomendações dadas pela CNN para os funcionários que sofrerem ataques virtuais?
Os ataques virtuais que extrapolarem o campo de ideias e do debate saudável devem ser levados ao conhecimento da direção da CNN Brasil para que o conteúdo seja avaliado. Orientamos os jornalistas atacados a jamais responder. Isso só tende a alimentar a polêmica no sentido de transformar o conflito em confronto.

Portal IMPRENSA - Qual balanço você faz deste início da CNN no Brasil?
Avalio como muito positiva a chegada no Brasil da CNN, o maior canal de notícias do mundo.  Estreamos num momento intenso, quando o jornalismo está sendo muito exigido, no que se refere à cobertura da covid-19, e requisitado num ambiente de polarização de ideias. O público está muito receptivo à nossa linha editorial, ao conteúdo e aos profissionais de vídeo que marcam presença, diariamente, na TV e em nossas plataformas digitais. A boa audiência no Painel  Nacional de TV e da Grande São Paulo referendam nossa aceitação.

Portal Imprensa - Em linhas gerais, como a pandemia do coronavírus alterou o dia a dia dos jornalistas da CNN?
Em meio ao turbilhão da pandemia, vários reordenamentos de rotinas de trabalho dos jornalistas e dos demais profissionais da emissora foram feitos. Fizemos uma revisão ampla das pautas; mudamos os procedimentos de escalas de equipes; implantamos imediatamente práticas de limpeza e asseio em nossos locais de trabalho; afastamos da redação os profissionais pertencentes aos grupos de risco e com suspeita de contaminação; estimulamos o home office em vários setores; colocamos máscaras, álcool gel  e outros acessórios à disposição de todos; e adotamos condutas preventivas com profissionais, entrevistados e prestadores de serviços. O dia a dia do repórter de rua é, hoje, similar ao de um correspondente de guerra. Ele está presente no campo de batalha acompanhando a evolução dos fatos. Oferecemos um serviço essencial que precisa ser valorizado por todos.

Portal IMPRENSA - Quais as principais medidas tomadas para proteger os profissionais?
Em 19 de março, William Waack passou a apresentar o telejornal de sua residência e, no mesmo dia, a direção da CNN intensificou a medidas para preservar a saúde de seus funcionários ante à pandemia do novo coronavírus. Aumentamos o controle de limpeza e higiene nas instalações e determinamos que parte dos funcionários desempenhassem suas atividades à distância. A higienização foi reforçada com desinfecção diária em toda a empresa.  O canal mantém à disposição de todos uma profissional de saúde um serviço de medição de temperatura e nível de oxigênio no sangue; higienização contínua dos locais e estações de trabalho por profissionais de limpeza; álcool em gel nas diversas áreas da empresa; máscaras e luvas especialmente para pessoas que trabalham nas áreas técnicas e apoio onde há maior número de pessoas nos ambientes e/ou tenham contato frequente com várias pessoas diferentes. Estão em home office, colaboradores de diversos departamentos, as grávidas e os funcionários com idade acima de 60 anos.  A CNN, neste momento, conta com cerca de 40% de seus profissionais em home office e segue com ações de prevenção para evitar a propagação da doença nas dependências da empresa.

Portal IMPRENSA - A CNN americana não esconde sua posição anti-Trump e é frequentemente alvo de ataques do presidente norte-americano. Em sua estreia no Brasil, a CNN foi criticada por ser governista e fazer poucas críticas ao presidente Jair Bolsonaro, que é contra o isolamento social nesta pandemia. Nos bastidores do jornalismo, foram, inclusive, publicadas reportagens sobre os meios de financiamento da emissora e até a participação velada de Edir Macedo no projeto. Nesse cenário de polarização e ânimos acirrados, como você avalia essas críticas?
A chegada de um novo player no setor de comunicação sempre gera especulações, seja por sua linha editorial ou por sua constituição societária. Desde o anúncio de implantação do projeto CNN Brasil, balizamos que o fato sempre vem em primeiro lugar. O fato é o protagonista. Como diz o nosso CEO Douglas Tavolaro, a CNN Brasil é um canal independente: não é nem de esquerda e nem de direita. Nestes temas polarizados, a divergência de opiniões nos mostra que estamos no caminho certo. O sócio majoritário da CNN Brasil, Rubens Menin, e o CEO e fundador Douglas Tavolaro são os únicos investidores neste contrato de licenciamento da marca CNN para o Brasil.

Portal IMPRENSA - A crise está batendo forte no jornalismo, com todos os veículos de imprensa reduzindo salários e cortando colaboradores. Como tem sido o cenário na CNN Brasil? 
A marca CNN Brasil carrega consigo um dos valores  fundamentais do jornalismo: a credibilidade. O reconhecimento da chegada do canal, por parte do mercado publicitário e anunciantes, foi imediato, o que permitiu que, a partir da estreia, contássemos  com a comercialização de 03 cotas fundadoras, 10 cotas especiais e mídias avulsas. Este cenário comercial nos dá base de sustentação para enfrentar este período de pandemia sem precisar alterar a previsão orçamentária e nem sacrificar remunerações e nem postos de trabalho.

PORTAL IMPRENSA - O quadro de jornalistas está completo? Qual é o tamanho da equipe? 
Estreamos com a equipe completa, sendo 450 jornalistas no total, distribuídos nas sedes de SP, Rio e Brasília, além dos repórteres destacados por diferentes estados e os correspondentes internacionais. Além disso, contamos com todo o apoio da CNN pelo mundo, o que nos ajuda a oferecer a melhor cobertura internacional da mídia brasileira.

Portal IMRPENSA - A CNN Brasil possui/segue um código de ética e conduta para os jornalistas? 
Sim. Seguimos os modelos internacionais adotados pela marca CNN aliados aos procedimentos de práticas de comunicação da CNN Brasil.

Portal IMPRENSA - Quais são os planos/metas da CNN Brasil para 2020? 
Estamos analisando os cenários pós-pandemia, para a retomada da programação prevista para a estreia. Mas a maior marca da CNN Brasil é a agilidade. Estamos analisando a programação e o jornalismo o tempo todo. Não temos medo de fazer mudanças pontuais sempre que necessário.

Portal IMPRENSA - O Grande Debate é inspirado na CNN americana. Como você avalia a versão brasileira do programa, considerando que houve mudanças nos participantes?
A inspiração veio do formato da CNN americana, com as adaptações para o perfil do brasileiro. O quadro O Grande Debate leva ao público a mais ampla diversidade de ideias. A temática proposta pelo mediador provoca raciocínios diferentes e sustentações de pontos de vista distintos, na maioria das vezes, com o intuito de inspirar nossos assinantes ao entendimento de assuntos polêmicos. A mudança de participantes também fortalece o formato e destaca a importância da pluralidade de ideias. Além do Grande Debate, promovemos muitos debates entre políticos e autoridades ao longo da programação. Isso teve um grande impacto no jornalismo de TV no Brasil. E fico muito feliz em ver que a concorrência também decidiu adotar esse formato. Ao seguir o nosso modelo, outras emissoras de TV também ajudam a melhorar o jornalismo brasileiro. A competição é muito importante para o nosso setor. E para a democracia no Brasil. Adoro o formato dos debates.

Portal IMPRENSA - Quais outros programas/formatos inspirados na CNN americana você poderia destacar?
Vários dos nossos formatos foram inspirados em iniciativas que deram certo na CNN americana. Mas, como disse anteriormente, esses formatos foram adaptados para a realidade brasileira. Aqui no Brasil, tivemos o cuidado de dosar as referências do modelo americano com o nosso na hora de desenhar a grade. Posso destacar a agilidade do formato Breaking News. O conceito de interrupção proporcionado por ele, dá ideia ao público que um fato relevante está para ser anunciado. E diferente de um plantão, o Breaking News procura mergulhar na informação podendo trazer a análise de comentaristas e de convidados. Também destaco a agilidade em entrar ao vivo com a cobertura de todos os fatos relevantes, com grande agilidade –outra marca da CNN. E nosso estilo registrado de dividir a tela com os grandes nomes do nosso jornalismo, convidados e entrevistados.