“A prática jornalística deve estar focada no interesse público”, afirma Maria Elisabete Antonioli

Gisele Sotto, em colaboração | 23/04/2020 12:43
De que maneira o interesse público e a liberdade de imprensa estão relacionados, e como se tornam fundamentos para a comunicação jornalística democrática? Para avaliar esta questão, o Portal IMPRENSA entrevistou Maria Elisabete Antonioli, coordenadora e professora do bacharelado de Jornalismo da ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo.

Nesta entrevista, a jornalista e Doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade São Paulo, com pós-doutorado pela mesma universidade, fala sobre as ameaças para o exercício do jornalismo na atualidade, e como fica no Brasil a formação dos futuros jornalistas em meio a este cenário.  
Crédito:Reprodução / site ESPM

Portal IMPRENSA - Partindo da afirmação que “o interesse público e a liberdade de imprensa são condições precípuas para o desenvolvimento da sociedade e afirmação da democracia”*, pode definir o conceito de interesse público, associando à prática jornalística? 

O jornalismo é uma profissão social e tem como norte o interesse público, ou seja, pressupõe que os indivíduos, em uma sociedade democrática, tenham o direito de receber informações devidamente apuradas quer seja sobre o meio empresarial, quer seja sobre as organizações não governamentais, quer seja sobre as esferas governamentais e políticas, mediante o pleno exercício da profissão do jornalista. O próprio Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, publicado pela Federação Nacional dos Jornalistas, no art. 2º, dispõe que “a produção e a divulgação da informação devem se pautar pela veracidade dos fatos e ter por finalidade o interesse público”. Nesse sentido, a prática jornalística deve estar focada no interesse público. Um exemplo interessante que podemos citar, atualmente, é a cobertura jornalística sobre a pandemia do coronavírus, pois os jornalistas estão oferecendo à população informações de toda ordem, como atitudes preventivas, entrevistas com renomados especialistas, remédios e o desenvolvimento de vacinas, hospitais, enfim uma gama de prestação de serviços voltados ao interesse público.

Portal IMPRENSA - De que forma o interesse público e a liberdade de imprensa tornam-se condições para a afirmação da democracia?

O interesse público e a liberdade de imprensa são condições inerentes para a afirmação de regimes democráticos. O jornalismo, para seu desenvolvimento absoluto, necessita ser livre e independente, e para que isso ocorra é necessário ser praticado em uma cultura democrática, pois a informação não pode ser versão nem do estado, nem da iniciativa privada ou de outros organismos. A informação jornalística é fruto de uma detalhada apuração que revela a realidade dos fatos, e não pode, em hipótese alguma, ter interferências de interesses políticos e econômicos parciais que possam macular o trabalho do profissional. Por sua vez, a democracia também necessita de um jornalismo independente. A imprensa, como afirmou Rui Barbosa “é a vista da nação”. Portanto, o jornalismo exerce um relevante papel na promoção da democracia, pois ela não ocorrerá, efetivamente, se não houver liberdade de informação, de opinião, de circulação de ideias. O jornalista norte-americano James Carey afirmou que “o jornalismo é sinônimo de democracia”. O ministro Ayres Britto se referiu à imprensa como verdadeira irmã siamesa da democracia. Assim, podemos considerar que uma dá vida a outra. 

Portal IMPRENSA - Que ameaças você identifica na atualidade para o exercício do jornalismo no Brasil? Quais são as interferências e tentativas de cerceamento da liberdade de imprensa mais preocupantes? 

Infelizmente, no Brasil, temos ameaças constantes em relação à liberdade de imprensa e aos próprios profissionais que são provenientes de diversas formas. É um tema bastante complexo, mas podemos em primeiro lugar considerar as ameaças à vida dos profissionais. O Relatório de 2019 publicado pela Fenaj sobre Violência contra jornalistas e liberdade de imprensa no Brasil, apontou que nesse ano o número de casos de ataques a veículos de comunicação e a jornalistas chegou a 208, portanto, um aumento de 54,07% em relação a 2018, quando foram registradas 135 ocorrências. O relatório também dá conta que dois jornalistas e um radialista foram assassinados e diversos profissionais agredidos em pleno exercício de suas funções. É uma situação bastante preocupante. É importante lembrar também, nesse momento, as agressões que os profissionais da Rede Globo têm sofrido. São agressões físicas, interferências durante as gravações por cidadãos que representam uma ameaça à liberdade de informação. E, o pior, já está se tornando usual assistir a essas cenas na televisão.

Uma outra questão preocupante, no que diz respeito ao cerceamento da imprensa, se refere ao próprio poder judiciário, quando por meio de decisões em diversas instâncias, impede a veiculação de determinadas notícias. É um controle judicial que fere a liberdade de informação e é contrário à Constituição Federal de 1988 que assegura a livre manifestação do pensamento. 

Em 2019 também foi publicado um relatório, apurado em 2018, da ONG Artigo 19, que situa o Brasil em 7º lugar entre os países da América do Sul em relação à liberdade de expressão. Realmente não estamos bem. Precisamos estar atentos e manter posição firme em relação à manutenção da liberdade de imprensa em nosso país.

Portal IMPRENSA - Pode comentar de que maneira a formação dos futuros jornalistas têm contribuído para esclarecer a eles esta conexão entre interesse público e liberdade de imprensa, e entender também seu papel e os desafios associados à profissão? 

No caso da formação dos futuros jornalistas, acredito que esses temas devem ser tratados transversalmente em diversas disciplinas do curso para que o aluno possa ter uma reflexão sobre o conjunto. E não apenas nas disciplinas de cunho mais humanístico, mas também naquelas voltadas à prática da profissão, pois, como eu comentei anteriormente, o jornalismo é uma profissão social e necessita ser exercida com liberdade de imprensa e voltada em direção ao interesse público. Muitos são os desafios, e cabe aos professores dialogarem continuamente com os alunos sobre esses desafios que muitas vezes se tornam entraves para o desenvolvimento da profissão. É importante que os alunos tenham condições de analisar os problemas que se interpõem na profissão, como os discutidos aqui sobre a liberdade de imprensa e outros que ocorrem na prática profissional. Além da análise, é fundamental sempre seguir as normas deontológicas da profissão. A conduta ética do jornalista deve prevalecer em toda sua prática jornalística, portanto, também deve ser discutida transversalmente em diversas disciplinas do curso, assim como discutida com mais profundidade em uma disciplina única. São questões que devem fazer parte da formação do jornalista e, portanto, estar presentes nos cursos de Jornalismo por meio de conteúdos teóricos e práticos ao longo da formação do aluno.

*Trecho extraído do artigo “O interesse público e a liberdade de imprensa como fundamentos da comunicação jornalística democrática”, escrito por Maria Elisabete Antonioli e Cassio Cavalcante Andrade. Acesse o artigo neste link

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