Jornalista conta histórias da gastronomia sergipana em livro

Kassia Nobre | 15/04/2020 10:30
Pesquisadora da gastronomia sergipana, a jornalista Paloma Naziazeno acaba de lançar o livro Panela Sergipana: Sabores da Terra de Araras e Cajus.

A obra apresenta 15 alimentos que eram consumidos em Sergipe e que, com o passar do tempo, foram desaparecendo da dieta alimentar da maioria da população. 

Para escrever o livro, a jornalista ouviu histórias e memórias do povo do campo, do pequeno agricultor e de cozinheiras. A obra teve apoio do programa Rumos Itaú Cultural.

“Foram 2 anos e meio de pesquisa e produção.  Idas e vindas por todo o Sergipe. Mais de 2 mil quilômetros rodados. Muita conversa, muitos sergipanos que me abriram as portas e me contaram suas histórias”, explica.
 
Lançamento
A obra será lançada no dia 21 de abril, às 17h, pela plataforma de conferência remota Zoom. Organizado pela página Jornalismo Gastronômico: Comunicação Cultura Educação, o lançamento virtual é aberto ao público e encerra uma programação especial do portal para o mês de abril. 

As inscrições já estão abertas e podem ser feitas pelo e-mail gastronomicojornalismo@gmail.com. É necessário enviar nome, telefone e o título do evento de que deseja participar.

Crédito:Divulgação


PORTAL IMPRENSA  - Você poderia contar sobre o processo de produção do livro? Como surgiu a ideia de escrever sobre o tema?
Paloma Naziazeno  - Por causa das mulheres que vieram antes de mim, as mulheres da minha família.  Avó, bisavó e tias avós.  Uma família de mulheres que cozinhavam muito. E tinha sempre um aroma, sempre a cozinha cheia delas. Deu essa vontade de fazer uma ponte entre as minhas memórias e os alimentos que eram consumidos nos tempos de vó.  Foram desaparecendo com a mudança dos hábitos alimentares. 

Conheci a chefe Seichele Barboza que já trabalhava com o resgate desses alimentos na gastronomia sergipana e, ao conversar com ela, surgiu a ideia do livro. Então apareceu o edital do Rumos Itaú Cultural 2017/18 e tudo aconteceu.

Foram 2 e meio de pesquisa e produção.  Idas e vindas por todo o Sergipe. Mais de 2 mil quilômetros rodados. Muita conversa, muitos sergipanos que me abriram as portas e me contaram suas histórias.  Depois da pesquisa e entrevistas, as fotos foram feitas. O livro foi então criado. Toda a equipe era formada por mulheres. 

Fotografia de Melissa Warwick, receitas criadas pela chefe Seichele Barboza, ilustrações de Elisângela Queiroz, revisão de texto Gabriela Amorim e direção de arte de Germana de Araújo.

PORTAL IMPRENSA - O livro traz 15 alimentos que eram consumidos em Sergipe e que, com o passar do tempo, foram desaparecendo da dieta alimentar da maioria da população. Você poderia citar três destes alimentos e falar um pouco sobre eles?
Paloma Naziazeno  - Temos como exemplo o Major Gomes, ou majogome.  Muito comum nos quintais antigamente, quando tínhamos uma Aracaju ainda não verticalizada. É uma Planc. Minha avó usava nas sopas. Outro que posso citar é o Maracujá de trovoada, diz a lenda que só aparece quando trovoa. Também conhecido dos sergipanos há cerca de 30, 40 anos.

Infelizmente o processo da monocultura no campo tornou muitas espécies extintas. Com esse maracujá se fazia doce em calda. Um terceiro exemplo é o peixe Caboge. Um peixe de açude, de rio.  Caboge é uma espécie que sofre muito preconceito por ser um peixe que atende as necessidades da população de baixa renda. Uma vez que ele consegue sobreviver em tempos de seca.

PORTAL IMPRENSA - Como você enxerga o cenário do jornalismo gastronômico no Brasil?
Paloma Naziazeno  - Um cenário ainda novo. A gastronomia ganhou força de uns tempos pra cá, embora já tivéssemos cronistas incríveis que eram capazes de transformar a comida em poesia, como era o caso da Nina Horta. Como campo de atuação, acredito que ainda temos muito o que contar. O Brasil é muito grande. Há ainda tantos sabores por conhecer.

Nossa mistura étnica nos trouxe riqueza. Tantos povos cabem em nossa cozinha...É preciso claro que os cursos de gastronomia queiram também incorporar disciplinas que abrem o olhar de um chefe, como a sociologia ou a antropologia. Para os que são da área de comunicação, jornalismo, temos muito o que escrever.