"Pandemia impõe desafios enormes à imprensa", diz Paulo Saldiva

Leandro Haberli | 31/03/2020 13:11
Comentarista voluntário do Jornal da Cultura há 6 anos e colunista do Jornal da USP, Paulo Saldiva é professor da Faculdade de Medicina da USP, médico patologista e especialista em doenças respiratórias. 

Nos últimos dias, ele tem alternado seu trabalho de divulgação científica na imprensa com uma missão que o coloca na linha de frente do combate à epidemia de covid-19.

Em conjunto com outros médicos patologistas, Saldiva tem trabalhado na autópsia de corpos de pessoas que morreram da doença. 
Crédito: Reprodução

A atividade tem alto risco de contaminação (ele leva 30 minutos apenas para colocar os trajes e acessórios de proteção), obrigando-o a se auto-isolar da esposa quando está em casa. 

A ideia é que a USP forme um biobanco de tecido humano, que vai permitir que os médicos conheçam mais sobre o vírus e as formas que ele atua no corpo humano.

Solícito a despeito da agenda corrida, Saldiva conversou por Skype com o Portal IMPRENSA nesta segunda (30) sobre o impacto e os desafios da epidemia na imprensa.

Neste primeiro momento do surto, ele faz coro aos institutos de pesquisa, avaliando que a imprensa saiu valorizada e ganhou credibilidade com a pandemia, especialmente na comparação com as redes sociais. 

Como exemplo das "coisas irreais" da internet, ele cita as diversas sindicâncias que o CRM vem tendo que abrir para apurar a atuação de médicos que divulgam curas e tratamentos não comprovados de covid-19 nas mídias sociais.     

Apesar do ganho de credibilidade, Saldiva lembra que a pandemia impõe desafios enormes à imprensa, a começar por informações conflitantes que tendem a surgir por se tratar de uma nova doença. 

Como exemplo, ele cita o caso da hidroxicloroquina, que acabou divulgada como um tratamento eficaz para a covid-19 por parte da mídia e até por Bolsonaro. 

Para ele, porém, o medicamento não foi submetido a estudo clínico adequado. "Por esperança, médicos na China e na Itália começaram a receitar para pacientes que eles estavam perdendo. Mas o estudo foi muito limitado", ressalva. 

Frente à epidemia, outro "dilema insolúvel" da imprensa apontado pelo patologista reside no confronto entre as projeções matemáticas mostrando que a saúde não vai dar conta e os valores culturais de nossa sociedade, que não permitem escolher quem vai viver e quem vai morrer. 

"Essa discussão da 'escolha de Sofia' nunca foi levada com profundidade na imprensa", analisa, acrescentando que falta uma abordagem neutra, sem adjetivos e desapaixonada na pauta "proteger a economia x salvar vidas".  

Deixando de lado a análise da imprensa, Saldiva gosta de comparar a crise do novo coronavírus com outras epidemias da história. 

Embora afirme que a conectividade e as grandes aglomerações humanas existentes hoje tenham feito com que a covid-19 se espalhasse numa velocidade sem precedentes, ele lembra que, à semelhança do que se vê na atual crise, praticamente todas as epidemias conhecidas foram politizadas, tornando-se bodes-expiatórios de governos previamente fracassados ou mesmo subterfúgio para a instauração de regimes totalitários.

O médico conclui sublinhando que a situação reforça no Brasil e no mundo a importância dos serviços públicos de saúde e do investimento em pesquisa científica.

E, em pelo menos um ponto, mostra-se otimista: "não quero ser romântico, mas em geral as sociedades saem melhor depois de uma epidemia", prevê.