Jornalista Chico Felitti escreve livro-reportagem sobre o líder espiritual João de Deus

Kassia Nobre | 30/03/2020 09:40
O jornalista Chico Felitti acaba de lançar o livro-reportagem A Casa (todavia). A obra revela a história de João Teixeira de Faria, o líder espiritual João de Deus. 

No final de 2018, veio a público uma onda de acusações de assédio sexual contra João de Deus. Dezenas de mulheres contaram experiências de abuso e estupro. Em seguida, surgiram as denúncias na Justiça. 

“Ouvi centenas de pessoas, tive acesso a documentos inéditos e passei meses em Abadiânia, a cidade do interior de Goiás onde João Teixeira de Faria era a pessoa mais poderosa, para contar a história dessa seita, e consequentemente dessa cidade”, relata o jornalista.

O Portal Imprensa conversou com o jornalista sobre a construção do livro-reportagem. Felitti compartilhou ainda dicas para aqueles que desejam escrever grandes reportagens. 

O livro está em pré-venda no site da editora todavia até 6 de abril. Quem adquirir a obra neste período ganha um exemplar autografado.  

Crédito:Todavia


Portal IMPRENSA - Gostaria que você contasse sobre o processo de criação do livro A Casa. Podemos considerá-la uma biografia de João de Deus ou uma grande reportagem sobre o líder espiritual? 
Chico Felitti - A Casa é um retrato da seita que o João Teixeira de Faria fundou em Abadiânia no fim da década de 1970, e que resiste até hoje, mesmo com ele preso. O nome do centro ecumênico onde ele fazia o que chamava de “cirurgias espirituais” é Casa de Dom Inácio de Loyola, mas na prática o lugar é chamado só de “A Casa”, vem daí o título.

O livro é uma reportagem que reconta as quatro décadas de história da Casa. Ouvi centenas de pessoas, tive acesso a documentos inéditos e passei meses em Abadiânia, a cidade do interior de Goiás onde João Teixeira de Faria era a pessoa mais poderosa, para contar a história dessa seita, e consequentemente dessa cidade.

E tinha muita história ali: orgias dentro do centro ecumênico, dinheiro escondido em sacos de lixo, viagens secretas à Disney e denúncias de assédio sexual e de estupro que já haviam ocorrido décadas antes de o líder místico ser denunciado na TV, em dezembro de 2018. O livro também traz novas acusações a Teixeira e revela uma rede de influência que impedia os crimes dele de virem a público. 

Portal IMPRENSA - Você destacaria uma passagem do livro ou uma história que tenha chamado a sua atenção?
Chico Felitti  - Vou me esforçar pra pinçar só duas, porque são várias (risos). Descobri que João Teixeira de Faria já havia sido alvo de uma investigação por assédio sexual nos EUA. E que a polícia de um condado no Arizona já havia reunido evidências de que havia uma rede internacional para silenciar vítimas, inclusive uma escritora famosa, europeia, deu cheques de até US$ 50 mil para uma mulher que acusava João Teixeira de Faria de assédio.

Outro destaque é para as histórias que não envolvem crimes, mas jogam luz sobre aspectos humanos, mostram como A Casa virou uma entidade tão forte; Por exemplo, a ex-atriz pornô britânica que virou um dos braços direitos de João na Casa, ou como a cidade se frustrou com a visita de Oprah a Abadiânia --ninguém sabia quem a apresentadora americana era. Enquanto isso, a passagem de Xuxa pela Casa parou a cidade. Professores tiveram de liberar seus alunos, inclusive, para ver a rainha dos baixinhos.

Mas o que vale mais destaque é a humanidade por trás dos crimes. Foi muito comovente ouvir uma sobrevivente de estupro dizendo: “Eu sei que as pessoas me julgam. Acham que eu sou burra porque fui lá e continuei voltando, mesmo depois do que ele fez comigo. Mas na hora fazia todo o sentido do mundo. Porque eu acreditava. Ele mexeu com a coisa mais sagrada que eu tinha. Ele mexeu com a minha fé.” 

Portal IMPRENSA - Diante do cenário de desinformação, qual é a importância de uma investigação aprofundada?
Chico Felitti  - Trazer histórias à luz é mais importante do que nunca. Quando a Todavia me convidou para escrever esse livro, eu hesitei bem.  Era um misto de medo de mexer com uma figura mística e desinteresse, por ser cético. Mas, quando visitei Abadiânia pela primeira vez, no começo de 2019, eu notei que havia uma história ali. A cidade era a história. E ninguém tinha contado como esse homem, quase analfabeto, fez para construir um império que atraiu milhões de euros e de dólares para o meio do Cerrado. 

E foi aí que meu olho brilhou. Porque é uma cidade em crise aguda. É possível que daqui a dez anos as pessoas já tenham migrado, e não seja mais possível contar a história. Foi daí que eu me convenci e passei um ano debruçado sobre essa história assombrosa.

Portal IMPRENSA - Você poderia passar algumas  dicas para estudantes e jornalistas que desejam escrever grandes reportagens em livro?
Chico Felitti  - Sim. O Homem-Aranha tem um super-poder que fica em segundo plano que é o “sentido aranha”. Ele consegue sentir quando algo vai acontecer, antes de essa coisa acontecer. E acho que cada repórter tem uma intuição parecida. Uma boa história demora meses para ser descoberta, mas é preciso confiar na primeira fagulha que aparece. A primeira centelha de interesse por um assunto --afinal, outras pessoas também vão ter que se interessar para consumir a notícia que você vai produzir. 

E uma outra dica que eu mesmo demorei tempo demais para aprender: um não é só um não. Se um professor ou uma professora não gostou de uma ideia sua, e você acredita nela, vá lá e faça --tente não se colocar em perigo, é claro, mas acredite na sua crença. Essa é a riqueza da diversidade: quanto mais gente diferente houver escrevendo, mais diferentes e interessantes serão as histórias contadas. Eu acredito piamente nisso.