Livro Do Fake ao Fato reúne artigos de historiadores brasileiros sobre o bolsonarismo

Kassia Nobre | 25/03/2020 11:09
Como foi possível Bolsonaro ganhar as eleições? Quais as alianças e bases sociais do bolsonarismo? Essas e outras questões estão no livro Do Fake ao Fato: des(atualizando) Bolsonaro (Editora Milfontes). 

Os autores são historiadores e professores universitários de diferentes instituições de ensino brasileiras. O Portal Imprensa conversou com um dos organizadores, o professor Valdei Araújo, sobre a construção da obra e sobre as consequências do bolsonarismo para os historiadores.
 
“O historiador e a história produzida na universidade se tornaram alvo do bolsonarismo. A gente pode dizer que há uma fake history. Uma história fake que embasa o bolsonarismo. O exemplo maior da fake history é a ideia que não houve ditadura no Brasil contra todas as evidências factuais. Isso é claramente um negacionismo. Tudo isso é moeda corrente nas bolhas bolsonaristas e a historiografia tem muita dificuldade em quebrar essas estruturas, bem como a própria imprensa tradicional, que é um outro alvo destas bolhas”, explica. 

Valdei Araújo é professor de história na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), assim com os demais organizadores da obra, Bruna Klem e Mateus Pereira. 

Crédito:Divulgação Editora Milfontes


Portal IMPRENSA - Como foi o processo de criação do livro?
Valdei Araujo - O livro nasceu no contexto eleitoral, em outubro de 2018. A ideia dele surgiu em um seminário da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) que reuniu pesquisadores para discutir a história do Brasil e os problemas contemporâneos. Naturalmente, às vésperas das eleições, o fenômeno Bolsonaro já despertava a atenção dos organizadores. 

É um livro produzido no calor do momento. Poucas pessoas, em 2018, imaginavam que o Bolsonaro pudesse efetivamente chegar a ser presidente do Brasil. Então, é um livro que nasce desse primeiro choque da eleição do Bolsonaro e tudo aquilo que ele representava no Brasil. 

Portal IMPRENSA - O livro aborda algumas questões sobre o Bolsonarismo, como "Como foi possível Bolsonaro ganhar as eleições?" "Seu projeto destrutivo será duradouro?" "Quais as alianças e bases sociais do Bolsonarismo?" Você poderia falar um pouco sobre isso?
Valdei Araujo - Usamos a ideia de atualizar e desatualizar o Bolsonaro justamente porque nós imaginamos que ele vive de um atualismo, uma atualização constante das suas redes sociais de notícias falsas e de narrativas que só respeitam suas conveniências políticas. 
 
Ele talvez tenha sido o primeiro grande fenômeno na política brasileira desse atualismo. Ou seja, da produção incessante de notícias que soterram qualquer possibilidade de uma reflexão mais detida e mais profunda. Quando você começa a responder a uma ação do Bolsonaro, ele já praticou dez outras ações e isso se embaralha. 

Nós como historiadores e pesquisadores entendemos que a nossa ação precisa ser diferente. Precisa entender o passado e o presente do Bolsonaro. Além do futuro que ele oferece para a sociedade brasileira. Qual é o projeto efetivo que se esconde por trás desta cortina de fumaça constante que o bolsonarismo produz? O livro se dedica a contar a história do Bolsonaro por trás desta cortina de fumaça constante que ele produz para se sustentar.

Diversos artigos do livro acabam tratando da base do bolsonarismo. Dois artigos muito interessantes lidam com o fenômeno evangélico. Qual é o traço do evangelismo típico brasileiro que ajuda a compreender a adesão dos evangélicos ao projeto do Bolsonaro?

Há um artigo também que fala sobre como o Bolsonaro consegue se tornar uma voz dos trabalhadores precarizados. Há um que fala particularmente de motoristas de aplicativo. Procuramos entender também a base política do Bolsonaro no Rio de Janeiro. Há também a questão do Olavismo. O que significa esta junção do bolsonarismo com uma concepção de desconfiança em relação a todo conhecimento constituído.
 
Como este falso ceticismo e esta dúvida destruidora que se apropria de uma tendência do nosso tempo em que as pessoas só acreditam naquilo em que elas tenham experiência direta. Ou seja, você não experimentou diretamente, você é incrédula. Isso explicaria a voga global do terraplanismo, dos movimentos antivacina e do negacionismo da ditadura no Brasil. 

Todos os autores do livro entendem que o fenômeno do bolsonarismo é duradouro mesmo que a figura do Bolsonaro desapareça. Ele acabou sendo um grande produtor de um movimento social conservador à direita que hoje está enraizado no Brasil. O bolsonarismo é um fenômeno de média a longa duração na vida política e social brasileira.

Fica claro em um dos artigos que uma das bases do bolsonarismo é a política de morte. O artigo do Daniel Pinha que analisa a atividade parlamentar do Bolsonaro mostra como ele sempre teve uma desconfiança muito grande em relação à população pobre. Já defendeu a laqueadura e métodos mais autoritários de controle de natalidade. Sempre adotou política de retirada de direitos sociais e de desinvestimento na população mais pobre. O que está muito acoplado com o seu racismo e com o racismo de parte da elite brasileira que não acredita na capacidade de parte da população mestiça de se qualificar e de ocupar papeis no mercado de trabalho. Então o racismo arraigado no discurso e no comportamento do presidente faz com que a política pública que ele estrutura seja sempre uma política de extermínio desta população. 

Portal IMPRENSA - As notícias falsas (fake news) também são um problema para os historiadores? Como combatê-las?
Valdei Araujo - A fake news é um problema fundamental para o historiador. O historiador e a história produzida na universidade se tornaram alvo do bolsonarismo. Eles precisavam fazer com que a população acreditasse na narrativa que desde o final da ditadura na década de 80 teria predominado no Brasil uma espécie de hegemonia completa da esquerda. Naturalmente, esta narrativa não se sustenta diante da menor análise dos fatos porque teve partidos de direita e do centro, como o PMDB e o antigo PDS, que se tornou PSL, que foram hegemônicos em boa parte da história recente. Para poder passar esta narrativa era preciso criar uma desconfiança em torno do historiador e da história produzida até então. 

A gente pode dizer que há uma fake history. Uma história fake que embasa o bolsonarismo. Então tem sido muito difícil porque o historiador está no centro dos ataques do bolsonarismo, mas tem reagido e tem a preocupação cada vez mais aguda de como produzir uma história mais acessível e ligada às preocupações mais cotidianas. O exemplo maior da fake history é a ideia que não houve ditadura no Brasil contra todas as evidências factuais. Isso é claramente um negacionismo. Tudo isso é moeda corrente nas bolhas bolsonaristas e a historiografia tem muita dificuldade em quebrar essas estruturas, bem como a própria imprensa tradicional, que é um outro alvo destas bolhas.

Portal IMPRENSA - Quem é o público-alvo do livro?
Valdei Araujo - A nossa ideia é que o livro possa interessar a todo mundo que quer entender a política brasileira contemporânea. Os artigos são bastante ensaísticos e não são artigos acadêmicos no sentido estrito da palavra. Alguns são um pouco mais curtos, outros se preocupam em ensaiar certas soluções. Então me parece que o livro interessa a um público amplo nessa conjuntura onde todo mundo se pergunta até onde vamos com essa onda bolsonarista. 

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