Se a imprensa chinesa fosse livre, o coronavírus talvez não tivesse se tornado uma pandemia

Redação Portal IMPRENSA | 24/03/2020 11:06

A ONG Repórteres sem Fronteiras publicou um texto em francês argumentando que, sem o controle da imprensa pela ditadura chinesa, os veículos de comunicação do país teriam informado a população muito antes sobre o novo coronavírus, salvando milhares de vidas e possivelmente evitando a pandemia.


A RSF informa que, em análise publicada em 13 de março, pesquisadores da Universidade de Southampton sugerem que os casos de coronavírus na China teriam sido reduzidos em 86% se as medidas contra a epidemia, postas em prática a partir de janeiro, tivessem sido antecipadas em duas semanas.

Baseada nessa informação, a RSF fez uma cronologia da crise na China (país que ocupar a 177ª  posição no ranking de liberdade de imprensa da própria RSF, que conta com 180 países) que começa em outubro.
Crédito:Mark Ralston/AFP
No dia 18 daquele mês, estudo do Centro Johns Hopkins de segurança sanitária, feito em parceria com o Fórum Econômico Mundial e a Fundação Bill e Melinda Gates, simulou uma pandemia de coronavírus na qual 65 milhões de pessoas poderiam morrer em 18 meses. 

"Se a internet chinesa não estivesse isolada por um elaborado sistema de censura eletrônica e se os veículos de imprensa do país não fossem obrigados a seguir as instruções do Partido Comunista, o público e as autoridades certamente teriam interesse nessa informação proveniente dos EUA", diz a RSF.

A cronologia da ONG salta para o dia 20 de dezembro, quando, bem antes do primeiro caso ser oficialmente documentado, a cidade de Wuhan já contava 60 pessoas acometidas de uma doença pulmonar desconhecida que lembrava a SARS. 

Muitos desses primeiros pacientes frequentavam o mercado de peixes de Huanan. Apesar disso, as autoridades não comunicaram a notícia aos veículos de comunicação chineses.

"Se as autoridades não tivessem escondido da imprensa a existência de um início de epidemia ligado a um mercado bastante popular, o público teria por conta própria parado de frequentar o local muito antes de seu fechamento no dia 1 de janeiro", prossegue a RSF.

No dia 25 de dezembro, a ONG lembra que a médica Lu Xiaohong, do hospital número 5 da cidade de Wuhan, reportou casos de infecção entre humanos da nova doença. Porém, como os veículos de comunicação na china não têm acesso livre a fontes da área de saúde (nem de qualquer outra), a informação não chegou ao conhecimento da população. 

Na cronologia da RSF, em 30 de dezembro a diretora dos serviços de urgência do hospital central de Wuhan, Ai Fen, lançou em conjunto com um grupo de colegas médicos um alerta na internet. Em 3 de janeiro, a polícia chinesa ouviu seu depoimento e de seus colegas, que foram acusados de espalhar rumores falsos. Oito desses médicos, incluindo o doutor Li Wenliang, acabaram morrendo da nova doença. 

A RSF informa que a China só alertou oficialmente a Organização Mundial de Saúde em 31 de dezembro, mas ao mesmo tempo obrigou a plataforma de troca de mensagens WeChat (a principal do país) a censurar um grande número de palavras-chave que fizessem referência à nova epidemia. 

A RSF lembra ainda que, em 13 de janeiro foi reportado na Tailândia o primeiro caso do novo coronavírus fora da China. Contudo, nessa data, a mídia internacional sabia muito pouco sobre a doença, em grande parte "graças à censura à imprensa e à internet na China".