Jornalista Raul Marques lança biografia do locutor Asa Branca

Kassia Nobre | 18/02/2020 10:19
Após dois anos de pesquisas e entrevistas, o jornalista Raul Marques lança Asa Branca, a biografia (Letramento). A obra relata a história do locutor profissional de rodeio que faleceu no início deste ano.  

A biografia descreve a descoberta do talento na locução, ascensão, fama e queda do locutor. Além da superação de graves doenças e problemas de saúde. 

“Sempre considerei o Asa Branca um personagem interessante do ponto de vista jornalístico, em razão de sua trajetória nada convencional. Entrevistei o Asa Branca no consultório odontológico, no leito de hospital, na calçada e na praça de alimentação de shopping, sem contar as dezenas de horas que passamos no telefone e nos aplicativos. Ele sempre foi franco em suas declarações. Nunca se negou a responder a um questionamento, mesmo que fosse desconfortável. Assim, o trabalho ficou equilibrado e apresenta um personagem abrangente, com seus erros e acertos”, relata.

Ao Portal IMPRENSA, Raul contou ainda sobre os erros e acertos ao escrever uma biografia e compartilhou dicas para os jornalistas que desejam escrever sobre a vida de alguém.    

Raul trabalhou por 12 anos no jornal Diário da Região, de São José do Rio Preto, como repórter, chefe de reportagem, editor e repórter-especial. Desde 2016, dedica-se exclusivamente aos livros.

Crédito:Divulgação Letramento


Portal IMPRENSA - Gostaria que você contasse sobre o processo de criação da biografia do ex-locutor Asa Branca. Quanto tempo durou a pesquisa? Como surgiu a ideia de escrever sobre o Asa Branca?
Raul Marques - Sempre considerei o Asa Branca um personagem interessante do ponto de vista jornalístico, em razão de sua trajetória nada convencional. Durante uma conversa, um amigo confidenciou que gostaria de ler a biografia do locutor. Prontamente, acendeu uma luz. Nas semanas seguintes, elaborei um dossiê e procurei o Asa Branca e sua esposa, a Sandra. Em uma reunião em São Paulo, contei a intenção de construir o livro. O casal não exigiu nada e me deixou à vontade para trabalhar nos dois anos de produção. Tive total liberdade para fazer mais de 50 entrevistas, com fontes no Brasil e nos Estados Unidos, e redigir o texto, sem qualquer influência ou censura. Entrevistei o Asa Branca no consultório odontológico, no leito de hospital, na calçada e na praça de alimentação de shopping, sem contar as dezenas de horas que passamos no telefone e nos aplicativos. Ele sempre foi franco em suas declarações. Nunca se negou a responder a um questionamento, mesmo que fosse desconfortável. Assim, o trabalho ficou equilibrado e apresenta um personagem abrangente, com seus erros e acertos. 

Portal IMPRENSA - Quais foram as principais dificuldades e os principais acertos na hora de pesquisar sobre a vida do Asa Branca?
Raul Marques - Quando se produz um perfil grande, que exige fôlego do autor, a primeira dificuldade é encontrar as fontes certas, que colaborarem para o desenvolvimento da história, sem interesse ou informações falsas. Conversei com amigos, parentes, contratantes, colegas e até desafetos do Asa Branca em diversos estados brasileiros. Muitos deles trabalham na área rural e, assim, houve dificuldade para estabelecer a comunicação. As informações e as histórias contadas pelo locutor também foram checadas com interlocutores independentes. Esse procedimento foi adotado ao perceber que as lembranças, misturadas à emoção ao serem acessadas, apresentaram-se, muitas vezes, de forma agrupada com outros acontecimentos e sem organização. No final, entrevistei pessoas que participaram de todas as fases da vida do biografado. Foi importante contar com tantos olhares diferentes, em razão da diversificação das informações. Um acerto, na minha visão, foi contar a trajetória do Rui, não só do Asa Branca. No livro, trago passagens da infância na fazenda, os primeiros trabalhos, a dificuldade para encontrar seu propósito no mundo, os dramas familiares, o olhar empreendedor e a generosidade. Ele tinha o costume de oferecer dinheiro, comida e até roupas para os colegas em situação financeira difícil. 

Portal IMPRENSA - Há trechos ou histórias que você desejaria destacar ou que chamaram a sua atenção?
Raul Marques - A biografia tem três eixos principais: descoberta do talento na locução, ascensão, fama e queda; inovações no rodeio; e superação de graves doenças e problemas de saúde. O que mais me chamou a atenção: a capacidade que o Asa Branca teve de se levantar, mesmo nos piores cenários, e de produzir momentos extraordinários. O leitor vai conhecer, de forma aprofundada, passagens chaves na trajetória do locutor, como a chegada de helicóptero em uma arena lotada, a oportunidade em que ele colocou o então candidato à presidente da República Fernando Henrique Cardoso dentro da Festa do Peão de Barretos, a revolução que fez no rodeio ao usar microfone sem fio, trocar a música sertaneja por rock e entrevistar os peões, e os mais de 100 dias de internação. A entrada da cocaína na rotina do Asa Branca merece reflexão sobre o risco, mortal, que esse tipo de substância pode provocar na vida, tanto do profissional que está no auge quanto de quem se encontra em apuros. 

Portal IMPRENSA - Na sua opinião, qual é a importância de contar as histórias sobre personalidades brasileiras?
Raul Marques - As biografias são importantes à medida em que ajudam o leitor a conhecer de maneira aprofundada a história de uma personalidade. Elas têm o mérito de reunir diversas facetas da mesma pessoa, tanto as que frequentam a mídia e são notórias quanto a que é conhecida na intimidade. Uma publicação com esse foco mostra os caminhos escolhidos pelo personagem em sua jornada, o contexto de suas decisões importantes, as escolhas, as renúncias, as falhas, os acertos, o legado e passagens que residiam no subterrâneo, mas que são, essencialmente, relevantes ao colocar a trajetória em perspectiva. Esse tipo de narrativa se caracteriza pela ampla pesquisa, com rigorosa apuração dos fatos. Dependendo da estatura do biografado, o livro amplia sua função e nos ajuda a saber mais sobre a história do nosso próprio País. É um livro que ajuda a construir a identidade. 

Portal IMPRENSA - Gostaria que você escrevesse algumas dicas para os jornalistas que desejam escrever biografias.  
Raul Marques - Escrever uma biografia é trabalhar sem se preocupar com o relógio, apurar muitas vezes a mesma história e conversar com gente repleta de interesses difusos. É importante respeitar o tempo do biografado, caso seja vivo, e ser transparente e ético com as fontes, explicando os objetivos e contextos em que serão inseridas as falas. Para desenvolver um projeto assim, é prudente, sobretudo por questão organizacional, começar pela pesquisa. A leitura de documentos, jornais e arquivos oferecem subsídios necessários para a produção de um roteiro do que é básico na história. O roteiro, no entanto, não deve ser imutável. Pelo contrário. Deve servir como um guia para levar o autor até o objetivo pretendido. Ao longo do trajeto, vão surgir novidades e fatos, até então, inéditos do grande público. Será ótimo se isso acontecer. Vão enriquecer o material e até mesmo definir novas rotas e ganchos. Tão importante quanto o conteúdo, é a maneira de contar a história. Toda vida é repleta de possibilidades narrativas. 

Portal IMPRENSA - Gostaria que você contasse sobre a sua trajetória como jornalista
Raul Marques - Eu nasci em São Paulo e moro no Interior paulista desde 1999. Sou jornalista e trabalhei por 12 anos no jornal Diário da Região, de São José do Rio Preto, como repórter, chefe de reportagem, editor e repórter-especial. Escrevi mais de 500 reportagens – a maioria focada em histórias humanas. A matéria mais importante foi publicada em 2009, quando visitei o Haiti durante uma semana e produzi um caderno especial sobre a reconstrução do país caribenho. Desde 2016, dedico-me exclusivamente aos livros. Escrevo obras autorais, em campos como biografia, não-ficção e literatura infantil, e publicações sob encomenda para empresas. Em todos os casos, meu foco sempre é contar histórias. Sou autor de publicações como ‘Depois do Silêncio’ (2009, poesia, 7 Letras), ‘Festival de Teatro de Rio Preto – 50 anos de re (existência) - (2019), ‘Asa Branca – A biografia’ (2019, Letramento) e três infantis: ‘A menina que adora perguntar’ (2018), ‘A revolução das crianças’ (2019, Penalux) e ‘O menino que reinventou o mundo’ (2019, Letramento).