“Não é escondendo, queimando, censurando ou boicotando a produção de livros que vamos avançar”, afirma o jornalista Camilo Vannuchi

Kassia Nobre | 30/01/2020 10:19
O jornalista Camilo Vannuchi acaba de lançar a biografia Marisa Letícia Lula da Silva (Editora Alameda).  

A obra relata a vida de Marisa ao lado do ex-presidente Lula no movimento sindical dos anos 1970, no final do período de ditadura. A ex-primeira-dama foi uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores (PT). 

O livro relata ainda os últimos anos de vida de Marisa com a hostilização de brasileiros durante a Operação Lava Jato.  

“A tendência é que o campo progressista demonstre simpatia pelo livro e que a direita busque rechaçá-lo, mesmo sem ler. O que eu acho sobre isso é que, sim, eles deviam ler, não somente meu livro, mas muitos livros, muitas biografias, muita coisa escrita sobre história, geografia, democracia.  E também que não é escondendo, queimando, censurando ou boicotando a produção de livros que vamos avançar”, afirma. 

O livro conta com a apresentação do ex-presidente Lula  e com o prefácio de Fernando Morais, o objetivo da biografia é mostrar a maneira como a vida de Marisa se entrelaça com a história do país.

Crédito:Divulgação Editora Alameda

Portal IMPRENSA - Gostaria que você contasse sobre o processo de criação e produção da biografia. Como surgiu a ideia de contar a história da ex-primeira-dama?
Camilo Vannuchi - Eu lancei um livro em 2007, um livro de memórias de um importante executivo do setor de metalurgia e mineração, e a então primeira-dama Marisa Letícia esteve no lançamento em Brasília. José Alberto de Camargo, esse executivo, conhecia Marisa desde o final dos anos 1980 e, naquele momento, presidia o Instituto Cidadania, uma ONG de São Paulo fundada pelo ex-presidente Lula em 1990 e que, após o governo, seria transformada, com modificações, no atual Instituto Lula. Ali, na ocasião do lançamento, conversávamos os três em determinado momento e Marisa mostrou-se curiosa sobre o processo de produção de um livro de memórias, fazendo perguntas ao Camargo sobre isso. Ele sugeriu a ela: "você deveria contar suas memórias". Eu concordei, dizendo que adoraria ler, e Camargo brincou: "Não, você é quem vai escrever". Fiquei com aquilo na cabeça e cheguei a propor seriamente o projeto a Marisa, que desconversou por muito tempo. No final de 2015, a encontrei num evento em São Bernardo do Campo e ela concordou em escrever. 

Ficamos de voltar a conversar no ano seguinte, os meses se passaram e acabamos não fazendo nem uma entrevista sequer. Depois que ela sofreu o AVC, em janeiro de 2017, já nem pensava mais no livro quando fiz uma visita ao hospital na véspera de sua morte, quando todos os boletins já apontavam para o triste desfecho. Ali, o ex-presidente Lula me cobrou o livro, perguntou se eu havia feito. Respondi que não tinha sequer chegado a entrevistá-la e ele, meio brincando, apesar dos olhos muito vermelhos e do clima triste que havia naquela sala, disse que agora ele seria obrigado a me contar o que Marisa não havia contado para que eu pudesse fazer o livro.

Eu hesitei num primeiro momento, porque não tinha planos de biografar Marisa, mas de escrever suas memórias, desde que ela as contasse. Mas depois de uma semana e pouco acabei convencido de que Marisa daria uma bela história. Antes de começar, consultei o viúvo e cada um dos filhos, perguntando se eles se opunham. Disse que não seria uma biografia autorizada, no sentido tradicional, uma vez que eu não submeteria o texto a nenhum deles antes de publicar, mas que abandonaria a ideia da biografia caso eles achassem que seria inconveniente ou que causaria algum constrangimento. Todos toparam e eu comecei, ainda em março daquele ano. Seguiram-se mais de dois anos de pesquisa e redação, quase uma centena de entrevistados, uns 40 livros lidos e estudados, consultas a acervos de jornais e revistas, recuperação das poucas entrevistas que Marisa deu ao longo da vida. O livro é resultado desse processo.

Portal IMPRENSA - Nos últimos anos, com a polarização política, Lula e Marisa foram hostilizados por parte dos brasileiros. Como você acredita que será a recepção deste público para a biografia? Você gostaria que estas pessoas lessem o livro?
Camilo Vannuchi - Imagino que a recepção do livro acabe reproduzindo essa polarização. A hostilização de Marisa é um traço constitutivo dessa polarização que você menciona, sobretudo do discurso de ódio e de criminalização do Partido dos Trabalhadores e da família Lula da Silva. É natural que essas pessoas que acham natural ou mesmo bonito xingá-la, comemorar sua morte, insuflar o ódio contra tudo que tem a ver com Lula e com o PT, terão mais um motivo para fazê-lo no esforço de desconstruir o livro ou a trajetória da biografada. É claro que sou um autor pouco conhecido e que meu livro não é um filme disponibilizado pela Netflix para mais de 90 países nem candidato ao Oscar, mas de alguma forma pressinto uma reação semelhante, guardadas as devidas proporções, à enfrentada por Democracia em Vertigem, de Petra Costa. A tendência é que o campo progressista demonstre simpatia pelo livro e que a direita busque rechaçá-lo, mesmo sem ler. O que eu acho sobre isso é que, sim, eles deviam ler, não somente meu livro, mas muitos livros, muitas biografias, muita coisa escrita sobre história, geografia, democracia. E também que não é escondendo, queimando, censurando ou boicotando a produção de livros que vamos avançar. Há livros sobre Moro, sobre Dallagnol, sobre Bolsonaro, e há livros sobre Marighella, Olga Benário, Lamarca, Paulo Freire, Lula e, agora, Marisa. É bom que seja assim.

Portal IMPRENSA - O jornalismo vive um momento de descrença e de muita desinformação nas redes sociais. Gostaria que você falasse um pouco sobre a importância da apuração e investigação aprofundada para a profissão?
Camilo Vannuchi - Sempre achei curioso quando leio a expressão "jornalismo investigativo", não por descrédito, mas porque acho que todo jornalismo deveria ser investigativo. A investigação, a apuração rigorosa, são inerentes à nossa atividade profissional. O que escapa a isso não é exatamente jornalismo, mas publicidade. Ou relações públicas. Atividades importantes, é evidente, mas que não podem ser confundidas com jornalismo. Acho que parte da descrença em relação ao jornalismo pode ser atribuída a um tipo de jornalismo excessivamente declaratório que vimos dominar as páginas de muitos veículos. Inclusive na Lava Jato. Ou sobretudo nela. Pude revisitar esse período recente por meio das páginas dos jornais e percebi que, nos jornais de referência — que alguns chamam de grande imprensa e outros de mídia corporativa burguesa — quase sempre as acusações a Lula e família foram publicadas como se verdade fossem, assumidas na voz do próprio veículo, enquanto os argumentos da defesa eram sempre atribuídos.

Em outras palavras: tudo o que era dito pelo Ministério Público ou pela Polícia Federal entrava como notícia, sem que o jornalista se preocupasse em dizer "segundo Moro", "segundo Dallagnol", "segundo a acusação", "segundo a operação Lava Jato", enquanto em 100% das notícias que traziam a versão da defesa, quando traziam, os argumentos eram sempre creditados: "segundo o advogado", "segundo a assessoria do ex-presidente". Quando as reportagens publicadas pelo Intercept na série conhecida como Vaza Jato vieram à tona, muitos ficaram surpresos em razão disso. Era como se o que era tido como verdade absoluta perdesse o que tinha de sacralidade para se tornar também uma versão, uma narrativa não tão isenta quanto se acreditava. Marisa foi vítima disso. Nunca foi vendedora da Avon, nunca ganhou rios de dinheiro como apareceu por aí.

Após sua morte, chegaram a disparar loucamente por WhatsApp a notícia de que ela estava viva na Itália, à espera do marido, e que por isso o caixão estava lacrado no velório, o que poderia ser facilmente esclarecido com as centenas de imagens de TV e fotografias feitas por quem foi ao velório no Sindicato dos Metalúrgicos. Marisa foi velada com o rosto à mostra. Na última eleição, lembro de ter visto uma foto da atriz Beatriz Segall, toda machucada após uma queda, divulgada nas redes com a legenda "esta senhora foi agredida na rua por petistas por ter gritado 'Bolsonaro!'". É terrível. E o que tem de fake news envolvendo Marisa e os filhos é algo impressionante. Bom, nem precisa ir muito longe. Recentemente o Augusto Nunes, um jornalista renomado, reclamou publicamente que Lula havia deixado a prisão e até agora não tinha ido visitar Marisa no cemitério. Marisa não foi sepultada. Marisa foi cremada. Não há sepultura a visitar.

Portal IMPRENSA - Há alguma passagem do livro que você deseja destacar ou que chamou mais a sua atenção? 
Camilo Vannuchi - Isso é muito difícil de responder. O livro narra episódios divertidos e curiosos, de caráter pessoal, como o início do namoro com Lula, quando Marisa teve de se decidir entre Lula e outro namoradinho com quem ela andava saindo, ou a primeira visita dela a Brasília, em 1981, quando ela afirmou que jamais moraria no Palácio da Alvorada, mesmo se o marido viesse a ser eleito presidente um dia. Ao mesmo tempo, constrói uma história importante do Brasil da redemocratização, com o novo sindicalismo, o fim do bipartidarismo, as greves, a prisão do Lula no Dops, a formação do PT, as campanhas eleitorais, a vitória do Collor. Traz alguns bastidores bem legais do período da presidência, incluindo a grande reforma que Marisa pilotou no Alvorada e também o controverso episódio do jardim em forma de estrela vermelha que atribuíram a Marisa na época. Claro que tudo isso culmina na Lava Jato, um período que acabou se tornando uma perseguição sem fim a Marisa e sua família, e que acaba colaborando para o acidente vascular cerebral que a vitimou. É um livro longo, mas de leitura rápida. E um livro de repórter que suja os sapatos, como diz o também jornalista Fernando Morais no prefácio.