Jornalista Ullisses Campbell revela detalhes sobre o caso Richthofen em livro

Kassia Nobre | 27/01/2020 17:18
Após quatro anos de pesquisa, o jornalista Ullisses Campbell acaba de lançar o livro Suzane: assassina e manipuladora (Editora Matrix). A obra conta em detalhes a história de Suzane von Richthofen, que foi condenada a 39 anos de prisão pelo assassinato dos próprios pais Manfred e Marísia von Richthofen. 

O Portal IMPRENSA conversou com o jornalista sobre a produção do livro. Segundo ele, a obra foi narrada no estilo do jornalismo literário para conquistar o leitor.  

“Eu acho que eu teria dificuldade de prender o leitor por 280 páginas num estilo muito factual. Eu narro a história num outro estilo que acaba ficando mais delicioso de ler. A maioria das pessoas que tem falado comigo tem gostado”, relata. 

Ulisses afirma ainda que não há nenhum elemento ficcional no texto. “O que eu acho importante deixar claro é que o jornalismo literário é um texto não ficcional. Ou seja, não tem nenhum elemento ficcional no meu livro. Tudo o que está lá é real”. 

Crédito:Editora Matrix

Portal IMPRENSA - Gostaria que você contasse sobre o processo de criação e produção do livro. Quanto tempo durou a apuração e quem você entrevistou para o livro?
Ullisses Campbell  - O processo de produção do livro durou ao todo quatro anos. Quando eu trabalhava como repórter da revista Veja, eu fui fazer uma matéria sobre uma “saidinha” da Suzane em 2016 e ela não quis me dar entrevista. Então para eu fazer esta matéria, eu tive que entrevistar as colegas de cela dela. Eu descobri, ouvindo estas mulheres, que tinha um material muito grande que não cabia dentro da reportagem.  Foi a parti daí que eu resolvi escrever o livro. Eu fiquei muito curioso com o universo prisional de Tremembé. Eu entrevistei 56 detentas e agentes de segurança penitenciários de Tremembé do masculino e do feminino. E depois para eu entender o que passa nas cabeças destes criminosos, eu tive que conversar com psicólogos forenses. Para entender sobre os processos criminais e os processos de execução penal, eu tive que falar com advogados e especialistas. 
 
Portal IMPRENSA - Vi em uma entrevista sua que você se inspirou no livro A sangue Frio do Truman Capote para escrever a obra. O livro tem elementos do Jornalismo Literário? Quais são eles?
Ullisses Campbell  - O jornalismo literário  é um estilo que une o texto jornalístico a literatura. Um dos maiores expoentes deste tipo de estilo é o livro A sangue Frio do Truman Capote. A diferença é que se  eu escrevesse na forma do texto jornalístico tradicional, eu acho que ele ficaria um pouco enfadonho porque seria uma matéria especial de várias páginas. Eu acho que eu teria dificuldade de prender o leitor por 280 páginas num estilo muito factual. Eu narro a história num outro estilo que acaba ficando mais delicioso de ler. A maioria das pessoas que tem falado comigo tem gostado. 

O que eu acho importante deixar claro é que o jornalismo literário é um texto não ficcional. Ou seja, não tem nenhum elemento ficcional no meu livro. Tudo o que está lá é real. Durante a minha pesquisa, para que ela ficasse mais próxima da literatura do que do jornalismo, eu procurei achar uma antagonista para a Suzane dentro da penitenciária. Eu vi que uma presa chamada Maria Bonita, que era do PCC, perseguia a Suzane. Então, as ações desta presa acabaram entrando no livro para que ela servisse como antagonista.   

Portal IMPRENSA - Gostaria que você destacasse quais foram as principais dificuldades e acertos na produção do livro de um assunto tão polêmico para os brasileiros.
Ullisses Campbell  - Sem dúvida nenhuma, a parte mais difícil e o maior desafio foi reconstituir a cena do crime com a riqueza de detalhes que o livro apresenta. Para isso, eu tive uma colaboração muito importante do Cristian. A narrativa da cena do crime é contada toda do ponto de vista do Cristian porque, a partir da entrevista dele, eu pude reconstituir com uma riqueza de detalhes até um pouco assustadora. Depois da narrativa dele, eu tive que procurar a equipe de legistas que fez a necropsia dos dois cadáveres e mais testemunhas, como a empregada que limpou o quarto. Essa foi a parte mais difícil de eu recompor para o livro. Este trecho é um dos mais comentados. Eu recebo muitas mensagens de pessoas que ficaram impactadas com a riqueza de detalhes que a cena do crime traz. 
 
Portal IMPRENSA - Teria alguma passagem do livro que você gostou mais ou gostaria de destacar?
Ullisses Campbell  - Eu gostei bastante de todas as passagens do livro que explicam um pouco as razões pelas quais a Suzane resolveu matar os pais. Não só o motivo superficial que é o financeiro, mas tudo que está por trás deste desejo dela de matar os pais. O combustível desta ação. Por exemplo, ela é uma menina que não recebia afeto da família. Então, a ausência de afeto que esta família tinha um com o outro é algo marcante para mim no livro. Eu queria deixar claro que a ausência de afeto não justifica o que ela fez, mas ajuda muito a entender o que leva uma filha a matar os próprios pais. 

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