Historiadora resgata a história da imprensa alternativa durante o regime militar no Brasil

Kassia Nobre | 23/01/2020 13:00
No livro De Realidade a Caros Amigos: a Turma do Ex-, imprensa alternativa e seu legado (Editora Letramento), a historiadora Dalva Silveira conta a trajetória de jornalistas que participaram da imprensa alternativa durante o período da Ditadura Militar no Brasil. 

 “É sabido, por meio de pesquisas acadêmicas, que de 1964 a 1984 foram lançadas mais de 150 produções independentes. Muitas delas tiveram vida curta, devido a questões financeiras e/ou à perseguição da repressão da Ditadura Militar”, explica.
 
Dalva relata ainda sobre a história da turma do jornal Ex-, periódico lançado após a promulgação do AI-5. A pesquisa contou com entrevistas de jornalistas remanescentes do grupo, como o repórter fotográfico Amâncio Chiodi e os jornalistas Alex Solnik, Dácio Nitrini, Mylton Severiano da Silva – falecido em 2014 – e Palmério Dória.
 
Também deram depoimentos o jornalista Paulo Barbosa, que trabalhou no periódico alternativo intitulado Movimento e Ivo Herzog, presidente do Instituto Vladimir Herzog, um dos órgãos responsáveis pelo lançamento da edição fac-similar do jornal Ex-.
 
O Portal IMPRENSA conversou com a autora sobre a produção do livro e sobre a importância de escrever sobre o período da ditadura militar. 

“Rememorar esse período da História do Brasil é tarefa árdua, porém, extremamente necessária para que afastemos o fantasma da ditadura de nossa sociedade. Inclusive, tenho a opinião de que esse tema deveria ter sido levado mais a sério e relembrado, incansavelmente, desde quando foram restabelecidas as liberdades civis”. 

Crédito:Divulgação Editora Letramento



Portal IMPRENSA - Gostaria que você contasse sobre o processo de criação do livro. Como surgiu a ideia de escrever sobre o tema?
Dalva Silveira -  O interesse pelo período da Ditadura Militar brasileira me acompanha desde a adolescência. Nasci no final de 1967, passados mais de três anos do golpe, ou seja, durante meu primeiro ano de existência, o Brasil viveu um momento de recrudescimento do embate entre o governo militar e a esquerda, o que culminou na decretação do AI-5, em 13 de dezembro de 1968. Então, fui me tornando gente durante os intitulados “anos de chumbo”desse regime. Durante a década de 1970, vivi a minha infância rodeada por cinco irmãos mais velhos que eu. Portanto, tive contato precocemente com uma grande diversidade de informações. Desde cedo, ouvi muitas músicas de temática política, em discos de vinil que minhas irmãs levavam para casa. Especialmente as canções de Geraldo Vandré em muito me impressionaram. E depois a tragicidade da perseguição que então sofrera o compositor, tendo, por consequência, o encerramento prematuro de sua carreira.

Influenciada por essa minha experiência de vida, optei profissionalmente pela graduação em História, concluída em 1995 na UFMG. Durante o curso, dediquei-me com afinco ao estudo do período da Ditadura Militar. E, para minha pesquisa de mestrado em Ciências Sociais, defendida na PUC-SP em 2010, resolvi aprofundar-me na história de Geraldo Vandré. A morte em vida do artista foi um sinal de que “a vida não se resume em festivais”. E essa frase foi o título da dissertação na qual estudei as representações sobre o compositor na imprensa brasileira, contemplando o período de 1966 a 2009. Posteriormente, a pesquisa foi transformada em livro, publicado em 2011, com o título Geraldo Vandré: a vida não se resume em festivais, pela Fino Traço Editora.

Foi durante a pesquisa empírica para esse trabalho que me encontrei com a Turma do Ex- e acabei também me sensibilizando por sua história de resistência à Ditadura Militar. O questionamento inicial de minha dissertação de mestrado era se a imprensa teria contribuído para a construção do enigma sobre o compositor Geraldo Vandré, indagação que me levou a investigar a mídia impressa. Foi quando me deparei com uma matéria extensa, publicada no jornal Ex-, cujo título era “Conhece? Errou! Espere”. Tratava-se da primeira reportagem sobre Vandré depois de sua volta do exílio. Em sua análise, chamou minha atenção, entre outras coisas, seu tom libertário, sobretudo por apresentar, naquele momento de censura, a descrição minuciosa da produção artística do compositor durante os anos 1960 e a denúncia da interferência e das consequências da política ditatorial na carreira do artista. Tratava-se, logo, de um documento histórico que retratava a cultura e a política daquele período.

O contato com o exemplar motivou a leitura de outras edições do jornal e o posterior desejo de investigar o periódico em seu conjunto. Nascia ali uma ideia inicial para a minha tese de doutorado em Ciências Sociais, também defendida na PUC-SP, em 2016. Na pesquisa para esse trabalho, descobri outras publicações do grupo, produzidas durante a primeira metade da década de 1970, como as revistas Novidades Fotóptica, Revista de Fotografia, Bondinho, Grilo e Foto-Choq, assim como o livro em forma de jornal, intitulado Jornalivro. Saber que existia, por trás daquela significativa matéria encontrada no periódico, uma turma de jornalistas que também havia criado outras publicações sinalizou a possibilidade de incluí-las no estudo. 

Também antes do fim da Ditadura Militar, alguns integrantes do núcleo central da redação do jornal fizeram parceria com outras editoras e criaram mais duas publicações: no final de 1976, parte do grupo lançou a série livro-reportagem Extra – Realidade Brasileira e, em 1978, a revista Repórter Três. Sérgio de Souza, um dos fundadores da A&C, primeira empresa que congregou a Turma do Ex-, criou  a Caros Amigos, em 1997, passados doze anos do fim do governo militar brasileiro. A revista, fechada somente em 2017, contou com a participação de integrantes do grupo até o mês de março de 2009. A edição fac-similar do jornal Ex-, cujo lançamento ocorreu em 2010, também foi incluída na pesquisa. Essas duas produções, por terem sido publicadas após o fim da ditadura, são consideradas como uma importante herança dessa trajetória de resistência ao regime militar. Sendo assim, o trabalho recebeu o seguinte título: A “Turma do Ex-” e a Ditadura Militar: os anos de guerrilha jornalística e seu legado. 

No intuito de compreender o grupo e em que contexto estava inserida sua formação, realizei um extenso levantamento bibliográfico e a concomitante análise das obras, o que abarcou o estudo da chamada “grande imprensa” e da mídia impressa alternativa das décadas de 1960 e 1970, ideias da contracultura e da Nova Esquerda americana, bem como outros aspectos da sociedade e da política da época. Considero a etapa mais significativa da pesquisa a realização de sete entrevistas, cinco com remanescentes do grupo, a saber, o repórter fotográfico Amâncio Chiodi e os jornalistas Alex Solnik, Dácio Nitrini, Mylton Severiano da Silva – falecido em 2014 – e Palmério Dória. Também deram depoimentos dois profissionais que poderiam contribuir com o estudo: o jornalista Paulo Barbosa, que trabalhou no periódico alternativo intitulado Movimento,que me forneceu os primeiros contatos de participantes do Ex-, e Ivo Herzog, presidente do Instituto Vladimir Herzog, um dos órgãos responsáveis pelo lançamento da edição fac-similar do jornal Ex-. Essas entrevistas, que tiveram duração de uma a três horas, foram realizadas por meio de roteiros semiabertos e num ambiente de respeito e liberdade, o que proporcionou um resultado muito produtivo para a pesquisa. Na análise, considerei o caráter reconstrutivo, relacional, lacunar e seletivo da memória. Mediante o diálogo entre esses depoimentos e as fontes consultadas, foi possível complementar e acrescentar novos dados ao trabalho.

Desde o início da pesquisa, já havia decidido que contaria a história em livro, retirando minha tese de doutorado da prateleira de uma biblioteca universitária. Foi um desafio, porque queria escrever um texto de caráter científico, mas que apresentasse uma linguagem acessível a outros públicos interessados pelo assunto, enfim, que se tornasse um patrimônio para a humanidade. Porém, o percurso até a publicação e lançamento do livro não foi nada fácil. Em 2018, ano de rememoração dos 50 anos do AI-5 e vendo alguns desavisados clamarem pelo retorno da ditadura, senti que era imprescindível cooperar para o debate sobre as consequências desse Ato Institucional para a tradicional imprensa brasileira, o que poderia contribuir para a compreensão daquele momento cultural e político. Mas o momento era de crise financeira, desesperança e dificuldade para conseguir patrocínio. Então, resolvi arcar sozinha com as despesas de sua produção.

Sendo assim, em outubro desse mesmo ano, num período de grande embate político e entre os dois turnos de uma eleição presidencial, reescrevi e lancei o livro De Realidade a Caros Amigos: a Turma do Ex-, imprensa alternativa e seu legado, pela Editora Letramento. Desde então, venho divulgando meu trabalho através de minicursos, palestras, debates e conversas cotidianas, movida pelo pensamento de que devemos combater todas as formas de tirania e levar adiante o nome das pessoas que lutaram e daquelas que lutam por justiça social, que desejam, enfim, um mundo mais igualitário e coletivo. 

Portal IMPRENSA - Qual a importância de escrever sobre o período da ditadura militar brasileira nos dias de hoje? Qual a sua relação com o tema?
Dalva Silveira - Rememorar esse período da História do Brasil é tarefa árdua, porém, extremamente necessária para que afastemos o fantasma da ditadura de nossa sociedade. Inclusive, tenho a opinião de que esse tema deveria ter sido levado mais a sério e relembrado, incansavelmente, desde quando foram restabelecidas as liberdades civis. Prova disso é que dediquei parte de minha vida estudando o assunto, no campo da cultura e da imprensa.

Ademais, procurei por fontes primárias, como por exemplo, pesquisando durante três meses parte do acervo do Arquivo do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DOPS), pertencente à Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (APESP). Isso aconteceu durante a realização de minha pesquisa de mestrado, quando me deparei com documentos oficiais que registravam a perseguição a alguns artistas daquele período. Essa atividade deixou-me ainda mais determinada a combater o regime militar, pois, como bem disse Vladimir Herzog, uma das vítimas desse governo, “quando perdemos a capacidade de nos indignar com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerar seres humanos civilizados”.
 
Aliás, o fato de ter sido feito muito pouco em relação à memória desse regime pode ser considerado um dos motivos que fizeram com que as heranças da ditadura permanecessem, uma vez que não foram satisfatoriamente combatidas. Sendo assim,temos assistido, nesses últimos anos, ao ressurgimento de um discurso autoritário, que muitas vezes está pautado no desconhecimento da história do país. Mas nunca é tarde para aceitar um desafio e assumir o compromisso ético de tentar compreender aquele período e rememorar suas mazelas, pois nossa democracia, embora frágil, inacabada e repleta de falhas, deve ser preservada a qualquer custo. Tenho como lema o combate a qualquer forma de opressão e considero a liberdade de expressão e o respeito aos direitos humanos valores fundamentais em uma sociedade.

Portal IMPRENSA - Você escreveu sobre um periódico que foi exemplo de resistência na época da ditadura. Você poderia falar um pouco sobre o jornal EX-.
Dalva Silveira - Antes detratar sobre o jornal Ex-, é preciso lembrar que a formação da Turma do Ex-, bem como a criação desse periódico, estão inseridas num contexto pós promulgação do AI-5. Dessa forma, jornalistas que queriam romper com o silêncio imposto pela repressão militar, aceito por grande parte da tradicional mídia impressa brasileira, tinham como opção a participação em periódicos da imprensa alternativa. É sabido, por meio de pesquisas acadêmicas, que de 1964 a 1984 foram lançadas mais de 150 produções independentes. Muitas delas tiveram vida curta, devido a questões financeiras e/ou à perseguição da repressão da Ditadura Militar.Muitas dessas publicações, inclusive, não foram estudas e permanecem no subterrâneo. Então, compactuando com aquela minha opinião de que é preciso rememorar o período da Ditadura Militar, deixo um convite aos estudiosos para que se debrucem sobre esses valiosos documentos históricos e tragam à tona todo o legado de periódicos combativos dos anos de 1970, o que muito poderia contribuir para a abrangência dessa referência ao atual jornalismo brasileiro. Foi exatamente isso o que fiz ao reconstruir a história desses jornalistas e publicá-la em formato de livro.

A Turma do Ex- foi um grupo de jornalistas paulistas que, cerceados pela repressão militar, saíram da revista Realidade através de uma demissão coletiva e, em 1970, partiram para a produção de várias publicações alternativas, do jornalismo contracultural, como, por exemplo, O Bondinho, Grilo e Ex-. Através da análise dos expedientes dos exemplares do jornal Ex-, constatei que, apesar de existir um núcleo central de profissionais que atuaram em todas ou quase todas, as edições do periódico, no curso de sua existência, o Ex- apresenta o total de 125 profissionais. É importante ressaltar que o grupo também contou com a participação de profissionais oriundos de outras publicações, como, por exemplo, do Jornal da Tarde e da revista Veja. 

No jornal Ex-, publicaram a primeira matéria sobre Vandré depois de sua volta do exílio e a única reportagem, escrita no calor dos acontecimentos, a respeito da morte do jornalista Vladimir Herzog, ocorrida em outubro de 1975, o que acabou provocando o fechamento do periódico. Isto posto, a publicação do Ex-pode ser considerada como a consolidação da trajetória de resistência do grupo à Ditadura Militar. Outro fato que me levou  a considerá-la como o auge da trajetória de insubmissão ao regime por parte desse grupo de jornalistas é a insistente relutância em deixar de produzir o periódico.

O Ex- foi lançado em novembro de 1973 e, além das dificuldades financeiras enfrentadas desde o início, sofreu, logo em janeiro de 1974, a primeira ação da censura. Isso aconteceu no momento de transição entre o governo de Garrastazu Médici e o de Ernesto Geisel, quando o futuro presidente da República havia convidado vários chefes de Estado para sua posse. Coincidentemente, o caso Watergate estava no ápice. Então, a capa da edição número três apresentou uma fotocharge mostrando o presidente norte-americano Richard Nixon vestido como presidiário. A censura descobriu esse exemplar do Ex-, o que acabou por provocar as prisões dos editores responsáveis pelo periódico, Narciso Kalili e Sérgio de Souza. Esse episódio acabou por provocar a saída definitiva de Souza do jornal e o afastamento provisório de Kalili. Isso, por sua vez, afetou toda a organização da redação.No entanto, a vontade de prosseguir com o jornalismo independente e resistente foi mais forte que tais dificuldades e a publicação do Ex- prosseguiu, sob a direção principal de Marcos Faerman. Sendo assim, considerei que essa ação da censura foi a responsável pela entrada do periódico no que denomino uma segunda fase, a partir de sua quinta edição. Apesar da repressão que o grupo havia enfrentado, o jornal continuou afrontando o regime, apresentando temas como, por exemplo, a tortura, o golpe ocorrido no Chile, em 1973, a censura à imprensa brasileira e a Guerra do Vietnã.

Pode-se dizer que o jornal entrou em uma terceira fase a partir do Ex-12, quando os principais editores do jornal passaram a ser Hamilton Almeida, Mylton Severiano, Narciso Kalili e Paulo Patarra. A entrada deste último jornalista foi também determinante para a mudança do periódico. Patarra havia saído da Editora Abril e ingressou na redação do Ex-, investindo ali seu dinheiro do acerto trabalhista. Esses fatores acabaram por determinar o crescimento do periódico, que prometeu distribuição em caráter nacional. Segundo um documento publicado no Ex-16, o jornal àquela época já estava sendo distribuído “em 500 cidades brasileiras pela Distribuidora Abril Cultural e Industrial S.A.”, com uma venda média, nos últimos três números, de 18 mil exemplares.

Nessa fase, observa-se um aumento do enfrentamento ao regime. Exemplos disso são as publicações de entrevistas e matérias sobre reconhecidos inimigos da Ditadura Militar, em vários campos, como, por exemplo, o cinema, com o cineasta Glauber Rocha; educação e política, com entrevista do professor Darcy Ribeiro; música, enfocando os compositores Geraldo Vandré e Sérgio Ricardo; religião, abordando o bispo dom Pedro Casaldáglia e o cardeal dom Paulo Evaristo Arns; e, ainda, teatro, com entrevista concedida pelo diretor José Celso Martinez. O Ex- também publicou trecho de um então inédito e futuro best seller, A ilha, de Fernando Morais. A matéria de capa apresentou uma entrevista com esse jornalista, na qual ele revelava o cotidiano na ilha de Cuba, testemunhado por meio desua viagem ao país socialista. Além disso, acirrou-seo ataque a uma forte aliada do governo autoritário, a Rede Globo de Televisão.

O jornal também afrontou a Ditadura Militar mediante a denúncia de prisões arbitrárias. A detenção de Hamilton Almeida Filho, jornalista do grupo, tornou-se pública por meio do Ex-, inclusive, denunciando o mau funcionamento da Casa de Detenção de São Paulo – conhecida popularmente como Carandiru –, local onde esteve preso por três meses. Mas foi através da reportagem do Ex-16, feita no calor dos acontecimentos e que contou, com detalhes, a detenção e morte de Vladimir Herzog, ocorrida em outubro de 1975, que o periódico atingiu a máxima capacidade de confronto ao regime. Essa publicação acabou provocando o fechamento do jornal. Portanto, em meu livro, dedico um capítulo exclusivamente ao Ex-.Nele, além da análise minuciosa do conteúdo do jornal no que diz respeito à contracultura, à Nova Esquerda americana e à resistência ao regime ditatorial, apresento algumas lembranças do grupo como, por exemplo, aquelas relacionadas à redação do periódico, à relação afetiva e profissional entre seus integrantes, à perseguição da repressão militar e à escassez de recursos. 

Agradeço, aos participantes da Turma do Ex-, a formação de um grupo plural e  antipartidário, que tinha como principal objetivo protestar contra várias formas de opressão e prezar pela liberdade das pessoas. Em especial, aos que me concederam depoimentos tão significativos para minha vida pessoal e fundamentais para a pesquisa. Durante o período da construção de minha obra, posso dizer que mais do que aprender sobre a trajetória deles, aprendi sobre a minha própria história e recebi lições de ética e de humanidade. 


Crédito:Internet


Portal IMPRENSA - Como você enxerga a situação do jornalismo atual com o cenário de frequentes ameaças do governo federal à profissão? Há uma relação com o período da ditadura militar?
Dalva Silveira - Como já havia dito, os efeitos nocivos que o governo militar, que se instalou após o  golpe de 1964, trouxe à sociedade brasileira, em vários campos, são de longa duração e esse  legado não foi seriamente rechaçado. Dessa forma, existe uma relação entre as mudanças ocorridas no jornalismo daquela época e o tipo de imprensa que vem predominando no país. 

A história da Turma do Ex- ilustra os conflitos vividos pelos jornalistas engajados daquela época. A marginalização à qual foram submetidos, principalmente após o AI-5, trouxe como consequência a ausência de experientes jornalistas na imprensa tradicional. Além disso, a censura prévia imposta em 1970 pelos órgãos da Ditadura Militar acabou em 1978, mas a censura e a autocensura tornaram-se práticas usuais nas redações, fenômeno que perdura até hoje e é ainda mais difícil de ser combatido.

Concomitantemente a isso, o governo ditatorial apropriou-seda Rede Globo de Televisão como o meio de comunicação para a difusão de seu projeto ideológico, o que acabou por provocar a derrocada do papel social do jornalismo tradicional impresso e o desaparecimento de vários periódicos, cooperando para a concentração de empresas jornalísticas brasileiras que, até hoje, são poucas, porém, de grande porte. Ou seja, a dinâmica do jornalismo foi mudando, foi se industrializando e se transformando em conglomerados empresariais. Considero que esse fenômeno ameaça a efetivação da democracia, pois o pluralismo da mídia é um aspecto fundamental para a ocorrência desse sistema de governo. Com meios de comunicação diversos e independentes, as informações seriam mais heterogêneas e multifacetadas, cooperando para uma menor manipulação das notícias e consequentemente para uma postura mais crítica da população com relação à política e a outros aspectos da vida social.

Todavia, apesar da tradicional imprensa brasileira de hoje, herdeira da Ditadura Militar, ser considerada seletiva, padronizada, noticiosa e uma das responsáveis pela banalização de alguns aspectos da sociedade, como a violência e a corrupção, por exemplo, é preciso, mais do que nunca, haver esperança e ação. Nesse sentido, considero de suma importância a sobrevivência e a valorização das mídias alternativas, como possibilidades de apresentação de uma visão contra-hegemônica e, consequentemente, como rica fonte de resgate do passado e de discussão do presente. O conteúdo das publicações do grupo é um exemplo disso, pois trouxe à luz acontecimentos ocorridos durante a Ditadura Militar,tantas vezes esquecidos ou omitidos, o que permitiu resgatar parte da memória sobre um período da história do Brasil, abrindo possibilidades de novas abordagens sobre as muitas sequelas deixadas em nossa sociedade. 

Também observo que o tipo de imprensa praticado pela Turma do Ex- transmitiu-nos um legado. Apesar de existirem jornalistas que se alinham às ideias de seus patrões e apenas comunicam o que interessam aos senhores do poder, alguns rompem com esse sistema, e a despeito de todas as adversidades, estruturam canais independentes de informação e promovem um jornalismo honesto e comprometido com a justiça social. Cabe a nós criar,  valorizar e divulgar esse tipo de mídia. Assim, seguiremos o exemplo de jornalistas da imprensa alternativa dos anos 1970 que, frente a tanta repressão e injustiça, não desanimaram jamais!

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