“Violência, assédio e preconceito contra mulheres ainda são temas difíceis de tratar” afirma a jornalista Marina Yukawa

Kassia Nobre | 22/01/2020 12:19
A história de cinco jovens mulheres amarelas que vivem no Brasil e que sofrem, ou sofreram, violência, assédio e preconceito é o tema do livro “Sorrisos Amarelos” (Viseu) da jornalista Marina Yukawa.  

Marina Yukawa é escritora e jornalista formada pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP) em 2017. Nasceu em 1994 no Japão, é paulistana e vive em São Paulo desde os 2 anos de idade.

O Portal IMPRENSA conversou com a autora sobre a construção da obra. Marina ainda apresentou algumas dicas para jornalistas que desejam escrever grandes reportagens. 

“É importante ser bom ouvinte e observador, pois são os detalhes que preenchem o texto dando vida aos personagens e volume aos cenários”, explica. 

Lançamento
O lançamento de "Sorrisos amarelos" será no dia 08 de fevereiro, sábado, às 14 horas, na livraria Tapera Taperá, em São Paulo. Haverá bate-papo com a autora, com a jornalista Suzana Pertinhez e com a psicologa Laura Ueno. Entrada gratuita.

Crédito:Divulgação Editora Viseu


Portal IMPRENSA - Gostaria que você contasse sobre o processo de criação da reportagem do livro "Sorrisos amarelos". Como foi o processo de pesquisa da reportagem? 
Marina Yukawa  - Sorrisos Amarelos é uma coletânea de breves histórias de jovens amarelas que vivem ou já viveram no Brasil e suas experiências como mulheres racializadas. A partir de conversas com as personagens, pude contar um pouco de suas vivências e abordar diversos aspectos de suas vidas — família, trabalho, casamento, relações amorosas e de amizade. Nos cenários cotidianos, é possível pontuar os problemas específicos que vivem, como são vistas, o que se espera delas e como são limitadas por serem mulheres amarelas.

Para tratar de assuntos tão delicados e íntimos, foi preciso abandonar o estilo jornalístico formal e adotar uma narrativa próxima da literatura, mas sem deixar de preservar os fatos. Durante as entrevistas — mais próximas de conversas —, as personagens puderam contar um pouco de suas vidas livremente enquanto eu pontuava uma ou outra questão. Assim, pude conhecê-las e contar um pouco de suas histórias.

Portal IMPRENSA - O tema do livro aborda violência, assédio e preconceito contra mulheres orientais. Você acredita que é mais fácil falar sobre violência e assédio contra as mulheres no jornalismo de hoje? Ou ainda é dificil lidar com estas pautas na profissão?
Marina Yukawa - Acredito que violência, assédio e preconceito contra mulheres ainda são temas difíceis de tratar, pois exigem delicadeza e sensibilidade tanto de quem escreve quanto de quem lê. Como jornalista, trabalhar com temas tão íntimos é se tornar confidente de suas personagens, que muitas vezes não encontram espaço nem interlocutor com sensibilidade para contar suas versões de suas próprias histórias.

Os assuntos têm ganhado mais destaque em mídias e em grupos de discussão também, o que vejo como passo importante para superar os tabus que os envolvem. Informação é fundamental para gerar reflexão e, consequentemente, mudança.

Portal IMPRENSA - Quais são os conselhos e dicas que você daria para jovens jornalistas que desejam escrever grandes reportagens? 
Marina Yukawa - Para escrever grandes reportagens, é preciso imergir à história que se quer contar, o que exige tempo de apuração, pesquisa e reflexão. E refletir sobre tudo, sem julgar. É importante ser bom ouvinte e observador, pois são os detalhes que preenchem o texto dando vida aos personagens e volume aos cenários.
 
Além disso, penso que ler é fundamental. Ler muito, ler tudo sobre tudo. É a partir da leitura que se apreende como textos são formados, descobrindo múltiplas possibilidades. E no caso das grandes reportagens que se aproximam da escrita literária, a leitura se torna imprescindível.

Portal IMPRENSA - Há passagens do texto que você desejaria destacar o que chamou a sua atenção? 
Marina Yukawa - Todas as histórias abordam temas delicados e muito íntimos; foram experiências difíceis. Mas o que chamou minha atenção e me surpreendeu é que as personagens não carregavam tom de ressentimento em relação ao passado. Elas vislumbravam futuros melhores. Gosto de destacar uma fala: "Não são histórias tristes, ela afirma, eu só estou assim hoje porque eu vivi muito e namorei muito, conheci um monte de gente. Pensei às vezes que ia morrer de tristeza ou de ódio, mas não morri, estou aqui vivíssima!".

O que quero pontuar com isso é que as histórias não acabaram no texto que se tornou livro. Cada personagem continuou vivendo sua própria história; muito mudou. Mas o que passou não perde valor, serve de reflexão. Esta é a magia em se contar histórias — saber que elas continuam. E gostaria de corroborar que Sorrisos Amarelos não é mesmo um livro sobre histórias tristes.

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