“O nível de desconhecimento sobre o Oriente Médio é alto”, analisa o jornalista José Antônio Lima, especialista em coberturas internacionais

Kassia Nobre | 16/01/2020 11:33
Após o recente embate entre Irã e Estados Unidos, o Oriente Médio voltou à pauta internacional nas últimas semanas.
 
O Portal IMPRENSA conversou com o jornalista José Antônio Lima a respeito da cobertura da imprensa sobre o Oriente Médio e também da percepção dos brasileiros sobre a região. José Antônio é especialista em coberturas internacionais e em políticas interna e externa do Brasil. 

“Temos alguns jornalistas especializados e outros que se dedicam a aprender, o que é excelente, mas acho que ainda falta caminhar para termos uma cobertura mais adequada. Um dos grandes problemas é o fato de a nossa cobertura confiar demais, às vezes simplesmente por falta de alternativas, no material produzido pelas agências e pelos jornais do Ocidente”, explica.

O jornalista dará o curso “Oriente Médio: política externa das potências regionais” entre os dias 27 e 31 de janeiro, em São Paulo. As aulas serão ministradas na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

As informações sobre o curso podem ser acessadas aqui

Crédito:Internet


Portal IMPRENSA -  Você fala que a proposta do curso é permitir a realização de análises mais acuradas sobre o Oriente Médio. Como você analisa a percepção dos brasileiros sobre o Oriente Médio? Há muita desinformação sobre a região?
José Antônio Lima - Acredito que, salvo os interessados em geral ou os que trabalham com a região, o nível de desconhecimento é, sim bastante alto, muito provavelmente porque as ligações históricas, culturais, sociais e econômicas do Brasil com o Oriente Médio são menos relevantes do que com outras partes do mundo, como EUA e Europa. Isso é ruim pois leva a preconceitos contra a região como um todo ou contra o islã, religião que predomina por ali.

Portal IMPRENSA - Você é jornalista com 15 anos de experiência, focado em coberturas internacionais. Como você analisaria a cobertura da imprensa brasileira sobre a situação política do Oriente Médio?
José Antônio Lima - A cobertura da imprensa sobre o Oriente Médio em geral poderia ser melhor. Temos alguns jornalistas especializados e outros que se dedicam a aprender, o que é excelente, mas acho que ainda falta caminhar para termos uma cobertura mais adequada. Um dos grandes problemas é o fato de a nossa cobertura confiar demais, às vezes simplesmente por falta de alternativas, no material produzido pelas agências e pelos jornais do Ocidente. Precisamos avançar para produzir análises próprias e, claro, análises informadas, que levem em conta as dinâmicas da região e os atores locais e possam identificar as posições de EUA e Europa que, em geral, são extremamente deletérias para os povos da região. 

Portal IMPRENSA - Com a tensão recente entre Irã e EUA, há diferentes narrativas sobre o assunto nas mídias sociais. Como você analisa esta discussão nas redes? Ela ajuda ou atrapalha o entendimento do conflito?
José Antônio Lima - Durante o último período agudo da crise EUA-Irã eu vi boas observações de analistas e jornalistas nas redes sociais, mas o problema é que elas se perdem em meio a sensacionalismo e desinformação, algo comum das redes sociais e para qualquer assunto, na realidade. A conversa sobre terceira guerra mundial, por exemplo, não dava para levar a sério, pois se tratava de uma especulação sem base na realidade. Como em qualquer assunto, ao se informar sobre o Oriente Médio é avaliar suas fontes corretamente e nunca confiar apenas em uma visão, mas sim entender várias delas e compará-las para chegar a uma conclusão própria. As redes sociais são ótimas ferramentas de mobilização - e a Primavera Árabe foi um ótimo exemplo disso - mas precisam ser usadas com cuidado para separar o que é interessante do que é prejudicial.  

Portal IMPRENSA - O que esperar do curso e quem é o seu público-alvo?
José Antônio Lima - O curso está aberto para todo o tipo de interessado na região. Ele terá uma aula inicial sobre a história geopolítica do Oriente Médio, com foco na formação dos estados e na intensa influência de potências estrangeiras. Mas como as dinâmicas regionais são muito importantes, vamos analisar a história e a política externa de quatro dos países decisivos na região: Turquia, Israel, Arábia Saudita e Irã.

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