Jornalista Sérgio Augusto reúne críticas de cinema em livro

Kassia Nobre | 15/01/2020 10:41
O jornalista Sérgio Augusto reuniu críticas de cinema no recém-lançado Vai começar a sessão (Editora Objetiva). 

Os textos foram produzidos desde os anos 2000 e publicados, em sua maioria, no jornal O Estado de S. Paulo. 

“Não é minha obra completa, ao contrário do que algumas notas na imprensa insinuaram; cobrem uma ínfima parte do que escrevi e publiquei entre as décadas de 60 e 90. Dentro das limitações da imprensa diária, fiz o melhor ao meu alcance. Tem muita informação, nenhum ranço acadêmico e uma preocupação constante em oferecer uma leitura prazerosa”, explica o autor. 

O Portal IMPRENSA conversou com o jornalista sobre a produção do livro e sobre a crítica cinematográfica nos dias de hoje.
  
“A internet acabou com a aura que os críticos tinham antigamente, quando eram oráculos cuja opinião aguardávamos quase que com a mesma ansiedade com que esperávamos a estreia de um filme”.

Crédito:Divulgação Objetiva

Portal IMPRENSA - Gostaria que você contasse sobre o processo de escolha dos textos para a obra “Vai começar a sessão”. Quais foram os seus critérios?
Sérgio Augusto - O escritor e editor Tiago Ferro, dono da editora e-galaxia, especializada em livros eletrônicos, queria fazer um e-book com alguns artigos meus, basicamente sobre literatura e cultura em geral, publicados no Estado de S. Paulo. Afinal optei por algo mais fácil de executar: um livro só de textos sobre cinema, publicados neste século, deixando de fora os que saíram no jornal entre 1996, quando troquei a Folha pelo Estadão, e 2001.

O e-book, com menos da metade dos textos incluídos em Vai Começar a Sessão, saiu em 2015, com o título de O Colecionador de Sombras. Incomodado com o fato de a maioria dos meus amigos não ter o hábito de ler livro em formato eletrônico e me sugerir que dele fizesse uma versão impressa, dei um toque no Matinas Suzuki, da Cia das Letras, que perfilhou a ideia. De cara acertamos que dobraríamos o volume dos textos compilados no e-book e mudaríamos o título, embora eu gostasse muito de O Colecionador de Sombras. O curioso é que Vai Começar a Sessão fora a minha primeira sugestão para o e-book, descartada pelo Tiago Ferro, por considerá-lo “comercial” demais.

Critérios? Os mais subjetivos. Optei pelos textos que mais me agradavam, que, a meu ver, ainda permanecem de pé, com referências mais frescas e acessíveis, ou que tratavam de temas e artistas com alguma ressonância nos dias de hoje ou que mereciam, por sua excepcionalidade, ser apresentados ao público mais jovem. Os ensaios não foram escritos para sair em livro, ganhar lombada, mas ao sabor das pautas que surgiam: ora um lançamento que me evocava ou remetia a outros filmes, ora uma pequena amostra programada pelo canal Telecine, que ainda era Classic e não Cult, quando, infelizmente, se vulgarizou. Espero que ainda forneçam algumas informações úteis, algumas observações proveitosas e, principalmente, desperte algum tipo de prazer no leitor. Tentei reproduzi-los o mais próximo da forma em que foram publicados, substituindo alguns títulos que, desde a sua publicação, me desagradavam, porque insossos, caretas, sem imaginação.

Portal IMPRENSA -  Ao longo do tempo, houve várias mudanças na forma de consumir o cinema (VHS, DVD e hoje as plataformas de streamings, por exemplo). Você acredita que o trabalho do crítico também se transformou depois disso?
Sérgio Augusto - Sem dúvida. Mas não foi só a mudança de formatos que afetou o trabalho da crítica. A internet acabou com a aura que os críticos tinham antigamente, quando eram oráculos cuja opinião aguardávamos quase que com a mesma ansiedade com que esperávamos a estreia de um filme. Ao multiplicar exponencialmente a espécie, a internet vulgarizou a figura do crítico, que, aliás, já vinha se barateando desde quando os jornais reduziram-lhe drasticamente o espaço e o transformaram em mero guia de consumo. O cinema sempre foi tratado nas redações como a casa da mãe Joana das artes. Todo mundo vai ao cinema, logo todo mundo entende de cinema e qualquer um pode ser crítico de cinema—esta é a lógica em vigor na imprensa desde sempre. Com balé e ópera, isso não acontece.

Ficou bem mais fácil ser crítico de cinema, e não apenas pela maior facilidade de acesso ao passado cinematográfico, aos clássicos (e nada clássicos) do cinema. Se o crítico for preguiçoso e desonesto, nem precisa ver o filme para comentá-lo, tantas são as informações disponíveis sobre sua produção e repercussão crítica internacional, depoimentos no YouTube etc.  Para embromar 20 linhas (e às vezes menos) sobre determinados filmes sem pedigree, basta refogar aquela cornucópia de informações e opiniões, e assinar embaixo—prática mais corriqueira do que se pensa.

Há milhares de críticos na internet, alguns ou muitos até ótimos, mas a média é de baixa qualidade, mais fãs e public relations do cinema hegemônico americano do que críticos, do que analistas sensíveis e inteligentes, capazes de enriquecer a visão de um filme, contra ou a favor.

Hoje o crítico dispõe de recursos tecnológicos para enriquecer seus comentários com clips de filmes e entrevistas, que até pouco tempo atrás não havia. Volta e meia deparo com ensaios, alguns primorosos, cotejando cenas, filmes e estilos de diferentes cineastas, não mais com palavras apenas, mas enriquecidos com as próprias imagens aludidas no comentário. No entanto, se o crítico não tiver muito o que dizer, seu trabalho vira um mero clip promocional.

Portal IMPRENSA - O que o leitor cinéfilo pode esperar da obra “Vai começar a sessão”? 
Sérgio Augusto - Com certeza, mesmo, 89 artigos (ou ensaios) sobre cinema, escritos e publicados entre 2001 e 2018. Ou seja, não é minha obra completa, ao contrário do que algumas notas na imprensa insinuaram; cobrem uma ínfima parte do que escrevi e publiquei entre as décadas de 60 e 90. Dentro das limitações da imprensa diária, fiz o melhor ao meu alcance. Tem muita informação, nenhum ranço acadêmico e uma preocupação constante em oferecer uma leitura prazerosa.