"Em 2020, podemos esperar uma enxurrada de desinformação", diz Natália Leal, da Lupa

Leandro Haberli | 27/12/2019 09:45
Natália Leal é diretora de conteúdo da Agência Lupa, uma das primeiras empresas especializadas em checagem de fatos do Brasil. Fundada em novembro de 2015, a Lupa integra a International Fact-Checking Network (IFCN), rede mundial de checadores, e o consórcio mundial The Trust Project. Seu trabalho inclui acompanhar o noticiário de política, economia, cidade, cultura, educação, saúde e relações internacionais, corrigindo informações imprecisas e divulgando dados corretos. Na entrevista a seguir, Natália analisa a crescente relevância das agências de fact-checking no polarizado Brasil e comenta as perspectivas desse mercado jornalístico para 2020, ano de eleições e de uma esperada "enxurrada de desinformação". 

Portal IMPRENSA - Qual balanço você faz do fact-checking em 2019?
Natália Leal - 2019 foi um ano bastante desafiador para o jornalismo e para o fact-checking. No meu entender, o formato se consolidou definitivamente no Brasil neste ano, diante de uma popularização da checagem de fatos. Vejo como positiva a repercussão do nosso trabalho em diferentes setores da sociedade e também gosto de ouvir as críticas feitas com relação ao fact-checking. Ele certamente não é a resposta para todos os problemas do jornalismo e da informação, mas é um aliado importantíssimo do processo de fortalecimento da democracia. 
Crédito: Roque de Sá, Agência Senado
Natália Leal: checagem de fatos tornou-se importante ferramenta de suporte ao processo de fortalecimento das democracias
Portal IMPRENSA - Quais foram os principais assuntos que merecem ser destacados?
Natália Leal - A política foi o tema do ano, porque temos um país dividido e em constante clima eleitoral, embora estejamos já às vésperas de completar um ano do governo Bolsonaro. As eleições deveriam ter ficado para trás, mas não ficaram. E os embates que se derivam desse clima inflam o cenário de desinformação, principalmente em redes sociais. No entanto, temos uma grande preocupação também com as questões de saúde, que também são alvo de conteúdos distorcidos e equivocados.

Portal IMPRENSA - Você apresentou um balanço na CPMI de que 70% dos boatos que circulavam nas redes sociais tinham a política como tema. Você acredita que se deve a extrema polarização pela qual o país está passando?
Natália Leal - Acredito que a polarização tem influência, sim. Mas também precisamos entender que a maneira das pessoas se comunicarem mudou muito e isso também influencia esse cenário. Me parece que as pessoas estão mais envolvidas com a política, querendo falar e se posicionar. E todo mundo tem um celular. E todo mundo está nas redes sociais. Então, é um caldeirão borbulhando o tempo todo. 

Portal IMPRENSA - Como vocês escolhem os temas/assuntos a serem checados?
Natália Leal - Temos uma metodologia própria, disponível no nosso site. Mas basicamente escolhemos de uma forma jornalística, ou seja, pelos critérios de relevância e de objetividade. No fact-checking, também é importante observar quem está falando, porque isso é parte da checagem. Para os boatos que circulam em redes sociais, usamos ferramentas de monitoramento que indicam o potencial de viralização de algo e isso nos ajuda a decidir o que priorizar.

Portal IMPRENSA - O que esperar para 2020, ano de eleição, em termos de fact-checking?
Natália Leal - Podemos esperar uma enxurrada de desinformação, com certeza. E pra conter isso, muitas iniciativas locais de fact-checking. A Lupa já está trabalhando junto aos Tribunais Regionais Eleitorais em treinamentos e palestras, com a intenção de ampliar o conhecimento dos principais envolvidos no processo eleitoral sobre desinformação. A Lupa também trabalha junto ao Consulado dos Estados Unidos no Brasil em um projeto para incentivar a fundação de novas plataformas de checagem, temáticas e locais. Esperamos que isso torne o ambiente do fact-checking no Brasil mais rico e diverso já no próximo ano.

Portal IMPRENSA - Quais serão os desafios para a imprensa em 2020?
Natália Leal - O jornalismo vive uma crise de credibilidade muito séria e retomar essa credibilidade - ou reconstruí-la - seguirá sendo um desafio no próximo ano. Ninguém vai sair sozinho desse lugar em que estamos, por isso acredito muito que a colaboração é um caminho interessante e que pode nos trazer importantes frutos no futuro. É necessário que possamos entender, como imprensa, a importância de trabalhar de forma colaborativa, ainda que tenhamos uma competição muito grande nessa área no Brasil. 

Portal IMPRENSA - As eleições de 2018 foram marcadas pelas fake news. No ano que vem, teremos eleições municipais. O TSE quer responsabilizar o candidato que usar notícias falsas sem checagem. Na sua opinião, medidas como essa são capazes de inibir a disseminação de fake news?
Natália Leal - Acho que elas ajudam a parar um fenômeno que está muito exacerbado e sem controle, mas de forma muito pontual. Eu acredito que a solução definitiva para a desinformação passa pela educação. Não creio que a criminalização possa resolver o problema de forma cabal. Isso só vai ser feito com campanhas educativas, que indiquem quando desconfiar de algo, como checar algo que recebemos no celular, como não ser enganado por um áudio ou um vídeo manipulado, entre outras coisas. Enquanto isso não ocorre, talvez seja interessante se ter alguma forma de punição, mas isso precisa ser muito discutido em toda a sociedade, para que não se torne um instrumento de censura ou retire a liberdade de expressão garantida às pessoas pela Constituição.