"Foi um ano muito marcado por perseguições à imprensa", diz André Borges, do Estadão

Redação Portal IMPRENSA | 12/12/2019 15:30
Repórter do Estadão baseado em Brasília, o paulistano André Borges é um dos autores da série de reportagens “Terra Bruta”, que abordou a violência envolvendo disputas de terra no Brasil e ganhou o Prêmio Dom Hélder Câmara 2017, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos na categoria reportagem.

Com experiência em infraestrutura e tecnologia, o jornalista vem se dedicando cada vez mais à cobertura de meio ambiente e questões sociais. A partir de sua experiência com reportagens sobre a Amazônia e a tragédia de Brumadinho, Borges conversou com o Portal IMPRENSA sobre os desafios do jornalismo no ano que se encerra e sobre as perspectivas que ele enxerga para a profissão em 2020.

Crédito:Arquivo pessoal
PORTAL IMPRENSA - Foi mais difícil fazer jornalismo em 2019?  Por quê?
André Borges - Sim. Foi um ano muito marcado por perseguições a jornalistas e à imprensa em geral. Campanhas de difamação e ódio se espalharam como nunca na internet e redes sociais. Há um processo em curso de ataque constante e descredenciamento do jornalismo profissional como fonte de informações para a população. A estratégia não é nova, mas os meios são. Mas acredito que, com a demonstração do trabalho sério e do comprometimento com a população, os fatos, como sempre, se imporão e a tendência é de que essas campanhas percam força.

PORTAL IMPRENSA - Quais as principais pautas/assuntos que você acompanhou neste ano?
André Borges - Em janeiro e fevereiro, estive na cobertura da tragédia da Vale, em Brumadinho, durante dez dias. Foi uma das coberturas mais difíceis que já fiz. Em agosto, também passei dez dias na Amazônia, para cobrir as queimadas recordes na região. Neste ano, meu trabalho foi marcado pela cobertura de meio ambiente e questões sociais.

Portal IMPRENSA - Na 10ª edição do Relatório de Situação da Mídia 2019, feito pela empresa norte-americana Cision, o Brasil aparece como o país onde os jornalistas mais sentiram que a liberdade de imprensa está diminuindo.  Você compartilha desta opinião? Por quê?
André Borges - Vejo uma pressão crescente sobre a liberdade de imprensa no Brasil, mas também acredito que há um enfrentamento em curso. Publiquei, neste ano, todas as matérias com as quais me envolvi, todas as histórias que apurei, inclusive aquelas mais delicadas e que envolviam nomes públicos e empresas. Esse é um indicador vital para essa análise.

Portal IMPRENSA - O que esperar para 2020, ano de eleição, em termos de cobertura?
André Borges - Como em 2018, acredito que será um ano extremamente marcado por notícias falsas pelas redes sociais. O jornalismo, mais do que nunca, terá papel fundamental para reafirmar como fonte segura de informação.

Portal IMPRENSA - Quais serão os desafios para a imprensa em 2020?
André Borges - A consolidação da imprensa como fonte segura de notícia é desafio permanente e busca diária do jornalismo. Para além dessa atribuição básica, acredito que será um ano importante para os veículos, principalmente aqueles do meio impresso, se firmarem como empresas consolidadas no ambiente digital. A sustentação financeira da imprensa na internet é um passo que precisa ser dado. As eleições e a consequente busca de informações terá papel importante para que essa realidade se confirme.  

Portal IMPRENSA - Quais pautas/assuntos vão estar em destaques?
André Borges - Eleições municipais, reforma tributária, preparação de candidaturas à Presidência para 2022 e reformas ligadas ao meio ambiente são alguns dos temas que devem tomar bastante tempo no ano que vem.

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