Jornalista Dácio Nitrini escreve biografia de Cásper Líbero

Kassia Nobre | 06/12/2019 08:55
O jornalista Dácio Nitrini acaba de lançar a biografia Cásper Líbero, jornalista que fez escola (Terceiro Nome).

Durante dois anos, Nitrini pesquisou a história do jornalista em acervos da Biblioteca Nacional e do Arquivo Público do Estado. Ele buscou ainda livros de memórias de contemporâneos de Cásper Líbero.  Além de pesquisar a bibliografia clássica da história da imprensa nacional.  O biógrafo leu também jornais da época para reconstituir a vida de Cásper por meio de notícias, editoriais e fotos. 

Além de resgatar a história do jornalista, Nitrini escreveu sobre o cenário político, econômico e cultural do país nas primeiras cinco décadas do século 20.

“Sou paulistano, nasci no bairro da Luz, começo dos anos 50, e cresci com meu pai lendo A Gazeta. Isso além de ouvirmos em toda a região, a sirene do jornal marcar o meio-dia. Rotina de vida. O nome Cásper Líbero, portanto, conheço desde criança. Mas pouco sabia sobre sua vida a não ser fatos como o de ter feito a Corrida de São Silvestre, participado da Revolução Constitucionalista de 32 e  criado uma faculdade de jornalismo que, aliás, cursei depois de estar profissionalizado e onde cheguei a ser professor”, relata. 

 Ao trabalhar no jornalismo da TV Gazeta, mantida pela Fundação Cásper Líbero, percebeu que as informações sobre o patrono que circulavam dentro da instituição eram poucas e imprecisas. 

“Todas, obviamente, elogiosas a Cásper. E passei, em 2017, por decisão própria e puro diletantismo, sem nenhum vínculo com a instituição, a pesquisar a vida dele. A fase dos primeiros 50 anos da República é muito interessante e ainda há muito o que descobrir jornalisticamente falando. O livro, portanto, não é um produto oficial da Fundação Cásper Líbero. Seus dirigentes vão conhecer o conteúdo quando os exemplares estiverem nas livrarias”. 

Crédito:Divulgação Terceiro Nome

Histórias
Nitrini afirma que todas as histórias que envolvem seu personagem acabam sendo importantes., mas o que chamou a sua atenção foi o pragmatismo político de Cásper. 

“Era apaixonado pela Gazeta e fixado em alcançar poderes para seu projeto crescer cada vez mais. De inimigo de Vargas em 1932 passa a ser um dos seus maiores aliados poucos anos depois. Estava rico quando morreu. Era sócio de um banco e comprara os terrenos da frente da Gazeta, ao lado da Igreja de Santa Ifigênia para construir um grande hotel de luxo”.
 
Cásper começou a carreira como repórter policial em 1910 e apenas oito anos depois comprou o jornal pré-falido no qual trabalhava. 

Um dos fatos inusitados é a estratégia de Cásper Líbero em realizar a primeira transmissão ao vivo de futebol durante o Campeonato Sul-Americano em 1922. O visionário Cásper providenciou a instalação de “cornetas”, no alto do prédio de seu jornal, A Gazeta, situado na rua Líbero Badaró, em São Paulo, que ficava rodeado pela multidão interessada pelo jogo.

Os equipamentos reverberavam o jogo lance a lance, narrado por telefone do Rio de Janeiro, com a “locução” de Leopoldo Sant´Anna. Talentoso criador de eventos de marketing, sempre em busca de maior tiragem da Gazeta, foi também Cásper Líbero quem criou uma das mais tradicionais corridas de rua do país – a Corrida Internacional de São Silvestre. Em 1925, foram 62 atletas inscritos. Este ano, a competição receberá nada menos que 35 mil inscrições de atletas de várias partes do mundo.
 
Amor, política e legado
O livro também traz relatos sobre sua companheira, a francesa Marguerite Augustine Leboucher, com quem viveu por 18 anos. Separada de seu marido, o economista Eugenio Gudin Filho, a misteriosa Maggy e Cásper se conheceram no período em que Cásper foi nomeado diretor da primeira sucursal do Estado no Rio de Janeiro.

No cenário político, o leitor poderá viajar, por exemplo, pelos meandros da Revolução Constitucionalista de 1932, na qual o jornalista e empresário foi um dos líderes. Na ocasião, Cásper desafiou a censura ao publicar em destaque na Gazeta a íntegra do poema “Minha Terra, Minha Pobre Terra”, de Ibrahim Nobre. No entanto, seu pragmatismo para manter a Gazeta o levou a aderir a Getúlio Vargas, o antigo adversário.

Cásper foi um modernizador não só da estrutura gráfica e técnica como do conteúdo editorial e do estilo de redação das notícias. Ao morrer, em 1943, em um desastre de avião, novamente surpreende a todos: em testamento, deixa seus recursos para a criação de uma fundação – a Fundação Cásper Líbero – que deveria instalar a primeira escola de jornalismo do Brasil.

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