Imprensa conseguiu fiscalizar o poder em 2019, diz Tiago Mali, do Poder360

Leandro Haberli | 05/12/2019 15:14
Acentuados pela extrema polarização que o país atravessa (e pela ideia vigente no governo de que a imprensa crítica é uma inimiga a ser combatida), os desafios da cobertura política no primeiro ano da administração Bolsonaro não impediram que o jornalismo cumprisse seu papel de fiscalizar o poder. 

Essa é a avaliação de Tiago Mali, chefe de redação do Poder360, jornal digital sediado em Brasília e especializado na cobertura de assuntos do poder e da política. Em entrevista ao Portal IMPRENSA, ele reconheceu que o ruído provocado pelas redes sociais atrapalhou um pouco. Mas explicou que não faltaram furos e reportagens bombásticas na área de política em 2019. Como exemplos, Mali citou o furo sobre dívidas de empresas de congressistas com a Previdência e a participação do  Poder 360 no projeto internacional Bribery Division.  

Sobre os desafios que a polarização impõe ao jornalismo político, o chefe de redação do Poder360 criticou o modelo editorial adotado por alguns veículos novos "muito ligados a instituições financeiras ou a um nicho mercadológico de um dos lados da disputa". Para ele, não se pode "comprar discursos prontos". A seguir a entrevista completa com Tiago Mali.
Crédito:Reprodução YouTube
Tiago Mali, chefe de redação do Poder360: aspectos meramente ideológicos não podem orientar políticas públicas
Portal IMPRENSA - Qual balanço você faz da cobertura política em 2019?
Tiago Mali - Foi um ano no qual houve dificuldade em separar ruído, produzido em abundância pelas redes sociais, de notícia ¬– que, ironicamente, também veio das redes sociais. O apelo da discussão de temas de comportamento e de carregado conteúdo ideológico acabou, em alguns momentos, nublando a cobertura de temas da maior importância para o país.
É claro que, em alguns momentos, as duas coisas andam juntas, mas considero que conflitos pouco importantes de elevada exposição midiática acabaram desviando a atenção da cobertura. É um aprendizado. No geral, apesar da elevação do tom contra a mídia, a imprensa conseguiu, em vários momentos, fazer bem o papel de fiscalizar o poder. O governo e o Congresso continuam sensíveis ao que é publicado e promovem recuos ao serem confrontados com a exposição de problemas pela mídia.
O Poder360 buscou, sem deixar de noticiar questões laterais e até fait divers, dar destaque aos assuntos dentro da política que mais afetam diretamente a vida das pessoas.
 
Portal IMPRENSA - A extrema polarização pela qual o país está passando dificulta essa cobertura? Como driblar isso?
Tiago Mali - É preciso perseguir o diálogo e, mais do que nunca, ter abertura para ouvir opiniões divergentes sem comprar discursos prontos de ambos os polos. Ao contrário de outros veículos digitais novos, o Poder360 não se filia a um dos lados da disputa e considera ter a obrigação de fazer uma busca objetiva pelos fatos para entregar ao leitor o relato mais equilibrado possível. A receita para navegar nesse mar revolto não mudou: jornalismo profissional com compromisso de busca pela verdade.
 O modelo de financiamento de alguns veículos novos, muito ligados a instituições financeiras ou a um nicho mercadológico de um dos lados da disputa, pode dificultar esse exercício. Não é o caso do Poder360/Drive, onde temos uma sustentabilidade financeira a partir de receitas variadas de assinaturas e anúncios que nos permite contrariar, sem receio, os interesses de qualquer um desses polos.
 
Portal Imprensa - No Poder360, quais foram as pautas/furos que merecem ser destacadas? 
Tiago Mali - Fomos o 1º veículo a dar as dívidas de empresas de congressistas com a Previdência. Participamos da colaboração internacional “Bribery Division” a partir de dados vazados do sistema de propina da Odebrecht. Promovemos uma série de eventos (Poder360 Ideias) com os chefes dos poderes , que renderam entrevistas como esta: Se fosse do Congresso, Moro estaria cassado ou preso, diz Davi Alcolumbre
 
Portal IMPRENSA - Na 10ª edição do Relatório de Situação da Mídia 2019, feito pela empresa norte-americana Cision, o Brasil aparece como o país onde os jornalistas mais sentiram que a liberdade de imprensa está diminuindo. Você compartilha desta opinião? Por quê? 
Tiago Mali - Todos os governos reclamam da cobertura da imprensa. Não há novidade nisso. A diferença é que o tom das reclamações passou a ser mais agressivo, acompanhado de ameaças de boicote, de cancelamento de concessões, e de medidas que visam abertamente atacar fontes de receita de veículos, incluindo mudanças na aplicação de recursos públicos. É nesse sentido que cresce o sentimento de uma restrição à liberdade de imprensa e de expressão em geral. Não é admissível que governantes passem a barrar jornalistas de determinado veículo em eventos porque não gostaram do que eles noticiaram, como começou a acontecer. Não se pode aceitar que aspectos meramente ideológicos orientem políticas públicas sobre o que pode ou não ser publicado ou filmado.
 
Portal IMPRENSA - O que esperar para 2020, ano de eleição, em termos de cobertura? 
Tiago Mali - O uso de redes sociais pelos candidatos, a distribuição de notícias falsas e a cisão do PSL/tentativa de criação do partido de Bolsonaro terão papel de destaque na cobertura. A redução dos quadros de jornalistas dos veículos tradicionais, que têm mais capilaridade, e o fechamento de veículos regionais representarão dificuldades extras para a realização de uma boa cobertura local das eleições. Por outro lado, o aumento no uso de recursos tecnológicos por jornalistas, do uso de jornalismo de dados e o salto que tem ocorrido na qualidade de pedidos de Lei de Acesso à Informação podem trazer boas surpresas