Livro de jornalistas reúne perfis das primeiras-damas do Brasil

Kassia Nobre | 02/12/2019 15:15
Em referência à clássica obra “Todos os homens do presidente”, sobre o escândalo do Watergate, os jornalistas Ciça Guedes e Murilo Fiuza acabam de lançar “Todas as mulheres dos presidentes” (Máquina de Livros).

A obra reúne perfis das primeiras-damas da República brasileira, a partir de Mariana, mulher de Deodoro da Fonseca, até Michele Bolsonaro.  Assim, o livro conta a história pelo viés feminino. 

“Há centenas de livros sobre os presidentes, pouquíssimas biografias de algumas dessas mulheres, nenhum sobre todas as primeiras-damas. Assim, mergulhamos na pesquisa e descobrimos histórias fantásticas de mulheres que, com raras exceções, viveram à sombra de seus maridos”, afirma Ciça. 

Os autores chamam a atenção para o fato de apenas três das 34 primeiras-damas terem curso superior, todas já na Nova República: Rosane Malta (ex-Collor), Marcela Temer e Ruth Cardoso. E, destas três, somente Ruth desenvolveu uma carreira independente do marido. 

“Já entre os presidentes, quase todos cursaram universidade ou equivalente na formação militar. Isso diz muito sobre a situação da mulher em nossa sociedade”, afirma Ciça. 

Crédito:Divulgação Máquina de Livros

Participação das mulheres 
Segundo os autores, a participação e a influência de algumas destas mulheres não ultrapassaram o domínio do lar, mas outras romperam com esse papel.

“Sim, podemos dizer que elas ajudaram na construção do país. Darcy Vargas, mulher de Getúlio, fez com que a atuação da primeira-dama fosse além de mera posição de mulher do presidente da República. Ela criou e apoiou uma série de projetos e entidades de ajuda à população carente. Com Darcy, a assistência social passou a ser uma função de Estado. Antes, esse papel cabia a entidades filantrópicas, como as Santas Casas. A partir dali, as primeiras-damas passaram a ser vistas como as responsáveis pela política social do governo dos maridos nos municípios, nos estados e na União. Somente em 1993, com a regulamentação da Lei Orgânica da Assistência Social (Loas), prevista na Constituição de 1988, a assistência social se tornou uma política pública, deixando de ser — pelo menos na letra da lei — um apêndice à mercê dos interesses do chefe do Executivo”, explica Murilo. 

Outro exemplo foi Ruth Cardoso, “que rompeu com essa vinculação da primeira-dama com a política assistencialista governamental — e detestava ser chamada de primeira-dama. Ruth criou o Comunidade Solidária, um novo modelo de atuação social do governo, que buscava parcerias da sociedade civil, do empresariado às ONGs, associações de classe e de moradores de bairros. Ela transformou a área social, de fato, em prioridade do governo, visando a segurança alimentar e a alfabetização. Aplicou os conhecimentos adquiridos na academia, em suas pesquisas de campo nas favelas de São Paulo e como ativista em sua atuação no governo de Fernando Henrique”, complementa. 

Ainda na República Velha, “Nair de Teffé, segunda mulher de Hermes da Fonseca, entrou para a história por tocar no violão o famoso maxixe “Corta-Jaca”, de Chiquinha Gonzaga, no salão do Palácio do Catete. Foi um escândalo. O maxixe era uma música do povo, sensual. Seria como se o casal Bolsonaro abrisse o Palácio do Alvorada para uma pocket show da funkeira Jojo Todynho. Se bem que isso seria impensável... O fato é que a partir dali o maxixe caiu no gosto da elite, abrindo as portas para o samba”, conta

Ciça destaca ainda a história de Jandira Carvalho de Oliveira, mulher do presidente Café Filho. 

“Jandira foi jogadora de futebol. Na juventude, Café Filho atuou como goleiro profissional do Alecrim (RN). Eles se conheceram nos gramados. Jandira era volante no time montado pelo futuro presidente. Curioso que Café Filho tenha se tornado vice-presidente de Getúlio Vargas, justamente quem assinou um decreto que proibia mulheres de jogarem futebol. Por incrível que pareça, esse decreto vigorou até 1979”. 

Confira outras curiosidades sobre as primeiras damas: 
- Das 34 primeiras-damas, 13 se casaram antes dos 20 anos. Três tinham apenas 14 anos quando subiram ao altar: Josina, Darcy e Dulce, esposas de Floriano Peixoto, Getúlio Vargas e João Figueiredo. Ana Gabriela era uma menina de 15 anos quando se casou com Campos Salles, nove anos mais velho. 

- Além disso, nestes, 130 anos de República, várias vezes os cargos de presidente e primeira-dama ficaram em família: cinco presidentes foram casados com primas. Rodrigues Alves e Ana Guilhermina também eram primos, mas ela morreu antes de o marido assumir a Presidência.

- Muitas decisões presidenciais foram tomadas por influência das primeiras-damas. Carmela, mulher de Eurico Gaspar Dutra, teve papel definitivo na proibição de cassinos; Paulo Maluf deve o seu primeiro cargo público a Yolanda, que pediu ao marido Costa e Silva que o nomeasse presidente da Caixa Econômica; e Silvio Santos conseguiu sua concessão de TV com o apoio de Dulce Figueiredo.

- Responsável por bordar a primeira bandeira do PT, Marisa Letícia preferia acompanhar de longe as disputas eleitorais do marido, Lula. Somente em 2002, quando o petista já aparecia como favorito à presidência, ela mudou o visual, sofisticou o guarda-roupa e mergulhou em sua campanha.

Lançamento
Os autores receberão o público para uma noite de autógrafos no dia 09 de dezembro, a partir das 19h, na Livraria da Travessa de Ipanema, Rua Visconde de Pirajá, 572, Rio de Janeiro.

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