Jornalista Ferdinando Casagrande lança livro sobre os bastidores do Jornal da Tarde

Kassia Nobre | 25/11/2019 12:49
O jornalista Ferdinando Casagrande acaba de lançar o livro “Jornal da Tarde: uma ousadia que reinventou a imprensa brasileira” (Record). A obra foi vencedora do prêmio Livro-reportagem Amazon 2019. 

O livro resgata a memória e a trajetória da publicação que tem 46 anos de história. O Portal IMPRENSA conversou com o autor sobre a produção do livro e sobre os desafios atuais do jornalismo. 

“O desafio dos jornais, hoje, é entender quais são as necessidades dos novos leitores, nestes tempos de redes sociais. Quando essas necessidades forem atendidas por nós, jornalistas, os leitores estarão dispostos a pagar pela qualidade e confiabilidade da informação que produzimos”. 

O lançamento do livro acontecerá nesta segunda-feira (25), às 19h, na Livraria da Vila – Fradique Coutinho, em São Paulo. Haverá um bate-papo entre o autor e os jornalistas Carmo Chagas e Valdir Sanches, fundadores do Jornal da Tarde. 

Crédito:Divulgação Editora Record

Portal IMPRENSA - Conta um pouco sobre o processo de criação do livro. O que o leitor do Jornal da Tarde  irá encontrar nesta obra?
Ferdinando Casagrande - O livro “Jornal da Tarde: uma ousadia que reinventou a imprensa brasileira” resgata a memória de um título que marcou época no jornalismo e na sociedade brasileira. Para contar essa trajetória, eu resgato 46 anos da história recente do Brasil, mostrando como ela era retratada nas páginas desse jornal tão inovador. O leitor vai encontrar os bastidores da criação do jornal, os perfis dos jornalistas que ali trabalharam, como foram concebidas as primeiras páginas inesquecíveis – como a que trazia uma foto de um garoto contendo o choro no Estádio Sarriá, quando a Seleção Brasileira foi desclassificada da Copa de 1982, ou aquela toda preta, por ocasião da derrota, no Congresso, das Diretas Já. E vai entender, também, os processos internos que levaram ao fechamento do JT, em 2012.

Portal IMPRENSA - O Jornal da Tarde ainda é muito lembrado por estudantes e jornalistas. Como você enxerga a importância do jornal para o jornalismo?
Ferdinando Casagrande - O Jornal da Tarde foi um título fundamental na história do jornalismo brasileiro. Nós podemos dizer, sem sombra dúvida, que havia uma maneira de fazer jornal antes, e passou a existir outra depois do JT. As pessoas em geral se lembram de que ele era inovador na apresentação gráfica, o que é verdade. Mas não era só isso. Os jovens que se reuniram na Rua Major Quedinho reinventaram a maneira como se reportava notícias no Brasil. A apuração buscava sempre novos ângulos de observação e tentava se descolar do relato oficial. E o texto nos libertou das construções e vocabulário arcaicos da Língua Portuguesa, que ainda ditavam a tônica nos jornais tradicionais. O JT trouxe para as páginas impressas o mundo em que os jovens viviam, narrado no português que se falava nas ruas. Depois dele, a imprensa nunca mais foi a mesma.

Portal IMPRENSA - Em tempo de redes sociais e desinformação, o que a grande reportagem e o Jornal da Tarde poderiam ensinar aos jornais de hoje?
Ferdinando Casagrande - As redes sociais são um fenômeno que precisa ser estudado e compreendido por todos os que vivem no negócio da notícia. Enquanto não as entendermos, em toda sua dimensão de comunicação, não seremos capazes de utilizá-las a nosso favor. A desinformacão, por sua vez, é uma doença antiga, velha conhecida nossa. Sempre rondou as redações e os jornalistas. A diferença, agora, é que ela encontrou uma forma de nos driblar em seu processo de replicação. A grande reportagem, como é o livro que estou lançando hoje, traz em si um antídoto à desinformação, porque exige uma apuração exaustiva, com múltiplas fontes, verificando muitas vezes todos os detalhes. Afinal, ninguém escreve 364 páginas sem uma profunda pesquisa. Ela não impede erros, claro. Todos estamos sujeitos a isso. Mas ela é uma ferramenta poderosa contra a manipulação de fatos e de dados. Com esse cenário, eu diria que as empresas de comunicação, nos dias de hoje, precisam encontrar uma nova maneira de fazer jornalismo. Exatamente como o Jornal da Tarde fez, nas décadas de 1960 e 1970. Naquele tempo, o desafio era conquistar jovens leitores que começavam a se encantar pela TV e não viam atrativos nos jornalões sisudos. O JT conseguiu isso. Muitas das coisas que damos hoje como “normais” – jornalismo de serviço, sessões de cartas dos leitores, críticas de filmes, peças, concertos e restaurantes – foram inventadas pelo JT. O desafio dos jornais, hoje, é entender quais são as necessidades dos novos leitores, nestes tempos de redes sociais. Quando essas necessidades forem atendidas por nós, jornalistas, os leitores estarão dispostos a pagar pela qualidade e confiabilidade da informação que produzimos. Muita gente fala em morte do Jornalismo, mas não podemos nos esquecer que essa morte já foi preconizada pela invenção do rádio, depois pela invenção da TV… Na minha opinião, o Jornalismo não vai morrer. O que estamos passando é apenas mais uma crise causada por um novo avanço tecnológico. Então, respondendo à sua pergunta, eu acho que essa é a grande contribuição que o Jornal da Tarde, um título que ajudou a reinventar o jornalismo, pode nos legar: nos estimular a pensar fora da caixa, para nos reinventarmos mais uma vez como profissionais.