Agência Amazônia Real: referência na cobertura de meio ambiente e direitos indígenas

Leandro Haberli | 22/11/2019 10:57
Agência de jornalismo investigativo fundada em 2013 pelas jornalistas Kátia Brasil, Elaíze Farias e Liège Albuquerque, a Amazônia Real atua como organização sem fins lucrativos sediada em Manaus (AM). Especializada em temas como meio ambiente, crise climática, desmatamento, violação de direitos indígenas e regularização fundiária, a agência teve destaque na recente cobertura das queimadas que espalharam fuligem por boa parte do país e do chamado "dia do fogo", quando produtores rurais de diferentes regiões da Amazônia se organizaram para realizar incêndios ilegais, incentivados por promessas de que não seriam penalizados.   
Crédito: César Nogueira/Amazônia Real
Vencedora em conjunto com o projeto Colabora e a Ponte Jornalismo da categoria Multimídia do 41º Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humano, com a série de reportagens Sem Direitos, a agência Amazônia Real também é especializada em temas como tráfico de pessoas, exploração de crianças e adolescentes e desvio de recursos públicos.  

Na entrevista a seguir, concedida por email ao Portal IMPRENSA, Elaíze Farias fala sobre as fontes de renda da Amazônia Real, sobre seu modelo de atuação e sobre outras atividades desenvolvidas além da produção editorial. 
Crédito: Reprodução/Foto de Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real
Efeito Bolsonaro: queimadas na Amazônia têm sido um dos focos de cobertura jornalística da agência

Portal IMPRENSA - Como foi o início da Amazônia Real e em que contexto a agência foi fundada?
Elaíze Farias - Ela surgiu em um contexto de grandes mobilizações no país e de demissões nas redações dos jornais, situação esta (as demissões) que permanece até hoje. Entre julho e outubro de 2013, a agência organizou suas atividades administrativas, planejou pautas e produziu reportagens até o site entrar em funcionamento. Algum tempo depois, a jornalista Liège Albquerque optou por sair. Desde então, a agência é dirigida por mim e por Kátia Brasil.

Portal IMPRENSA - Que outras atividades a agência desenvolve além da produção editorial?
Elaíze Farias - Além da produção jornalística, realizamos outras atividades que são vinculadas aos temas que cobrimos: oficinas de formação, debates, exposições, diálogos via redes sociais, participamos de palestras em Manaus ou em outras regiões do país. Desde 2015, realizamos debates com a presença de especialistas e representantes de comunidades ribeirinhas e indígenas sobre temas como crise hídrica, crise climática e mineração em terra indígena e áreas protegidas da Amazônia. Em 2018, realizamos a primeira edição do projeto chamado Oficina Jovens Cidadãos, destinado ao empoderamento de jovens no uso das tecnologias, da comunicação, da fotografia e das redes sociais e à segurança na internert. Na primeira edição, a participação foi exclusiva de mulheres indígenas, vindas do interior do Amazonas, Rondônia e Roraima, além da capital Manaus. Em 2019, realizamos a oficina apenas a rapazes, jovens lideranças indígenas.

Portal IMPRENSA - Qual o público-alvo da agência?
Elaíze Farias - Todo leitor e leitora que se interessam e querem conhecer com profundidade histórias da floresta, das populações que vivem nela, que dependem dela e que a protegem. Contamos a história de um povo, de uma comunidade, de um grupo social, cujas demandas precisam vir a público e que a maioria da população do país não conhece. São assuntos que nem sempre são populares ou fáceis de serem consumidos, mas extremamente necessários para a sociedade, para a democracia e para os próprios personagens. Então, não temos um público específico. Queremos que todos conheçam as populações da Amazônia e suas demandas frente aos desafios por meio de nossas reportagens.

Portal IMPRENSA - Como tem evoluído a audiência do site?
Elaíze Farias - Desde o lançamento, em 20 de outubro de 2013, até os dias atuais, o site da agência Amazônia Real já atingiu um público de mais de 3,5 milhões de pessoas. Desse total, 90% dos leitores estão no Brasil, mas há audiência nos Estados Unidos, Portugal, Índia, França, Reino Unido, Espanha, Alemanha e Itália, entre os mais de 180 países que leem nossas reportagens. No Brasil, a cidade de São Paulo é onde temos o maior número de leitores do website, seguido de Manaus, Rio de Janeiro, Brasília, Goiânia, Belém e Fortaleza. Os números mostram um desafio para agência, que é o de ampliar seu número de leitores entre os estados da região amazônica. 
Crédito:Reprodução
Consequências da mineração na saúde da população amazônica são destacadas em reportagem da agência

Portal IMPRENSA - Vocês vendem conteúdo para terceiros, como uma agência de notícia? Como vocês definiriam o modelo do negócio?
Elaíze Farias - A agência possui licença Creative Commons, o que dá direito a republicação gratuita por outros veículos de jornalismo. A republicação, contudo, deve citar a fonte (autores dasreportagens, citação do site e, de preferência, colocar o link da matéria original). As fotografias da Amazônia Real também podem ser republicadas gratuitamente. Fazemos exceção, contudo, quando se trata de fotos cedidas em cortesia ou retiradas de fontes públicas. Neste caso, o interessado precisa entrar em contato com o autor da foto. A nossa escolha pela gratuidade ocorre porque defendemos de forma inflexível a democratização da informação e o direito de acesso à mídia e ao seu conteúdo, especialmente quando se trata de assuntos que retratam a realidade amazônica e de seus povos. Nossas reportagens, portanto, não são fechadas ou trancadas. Queremos que nossas histórias sejam lidas, vistas e ouvidas. E que personagens como indígenas, quilombolas, mulheres, defensores de direitos ambientais e territoriais sejam conhecidas.

Portal IMPRENSA - Quais as fontes de renda do projeto?
Elaíze Farias - Em seu primeiro ano de fundação, a Amazônia Real foi mantida com recursos próprios de suas fundadoras, apesar das tentativas (sem sucesso) de receber apoio do mercado publicitário. Também recebemos alguns apoios de leitores, através de depósito bancário, na conta da empresa. Esse apoio dos leitores, aliás, foi e continua sendo fundamental para a manutenção da agência. A partir do segundo ano, passamos a receber doações de agências financiadoras, através de apresentação de projetos. A Fundação Ford é a principal doadora, por meio da linha Acesso à Mídia, o que permite subsidiar  administrativamente a agência, a produção de reportagens e a realização de algumas atividades, como oficinas de formação e debates. O apoio da FF é repassado após aprovação de projeto avaliado anualmente, com uma rigorosa prestação de conta. Desde 2018, a Amazônia Real recebe apoio da organização Aliança pelo Clima e Uso da Terra (sigla em inglês CLUA), para produção de grandes reportagens, especialmente as que exigem viagens para áreas remotas da Amazônia. A agência iniciou em outubro passado a sua primeira campanha de financiamento coletivo por assinatura, através do site Catarse-me para que possamos ampliar nossa cobertura na região, devido à necessidade de atender ao aumento de demandas e de assuntos, sobretudo neste atual período de recrudescimento de ataques às populações mais vulneráveis da região. Está em curso também o planejamento de novos projetos de parceria com outras organizações de produção de conteúdo na região, o que contribuirá para expandirmos ainda mais nossa atividade. A Amazônia Real não recebe recursos públicos e nem recursos de empresas associadas a crimes ambientais, crimes de violações de direitos humanos e direitos territoriais.

Portal IMPRENSA - Quantos jornalistas colaboram hoje?
Elaíze Farias - A agência trabalha, atualmente, com mais de 30 colaboradores na rede de profissionais nos estados da Amazônia Legal: Amazonas, Acre, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Rondônia, Roraima e Pará. Além destes, há colaboradores que estão no Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Paraná, Pernambuco e São Paulo. Em Manaus, a sede da agência fica no bairro Parque Dez, região centro-sul da cidade. Todos são remunerados e recebem bolsas de reportagem de valores que consideramos justos, conforme a complexidade da reportagem. Para ampliar o debate sobre as questões amazônicas, contamos com o apoio fundamental de voluntários, que formam a rede de colunistas especialistas nos temas da região. São eles: o repórter-fotográfico e jornalista Alberto César Araújo; o geógrafo e ambientalista Carlos Durigan, pesquisador multidisciplinar da biodiversidade e sociodiversidade de Unidades de Conservação e Terras Indígenas do rio Negro; o jornalista e cientista político Carlos Potiara Castro; a mestre em educação e especialista em Programação Neurolinguística – PNL, Elvira Eliza França; o antropólogo João Paulo Barreto, indígena da etnia Tukano e um dos fundadores do Movimento Indígena do Amazonas; o jornalista Lúcio Flávio Pinto, único brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras; o historiador Juarez Silva, estudioso da temática e história das relações raciais e cultura afro-brasileira e africana; o ecólogo Philip Fearnside, cientista ganhador do Prêmio Nobel da Paz, pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007; a educadora Fátima Guedes, pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia; a historiadora Patrícia Melo, que desenvolve pesquisas em história indígena no Brasil e escravidão africana na Amazônia; e a jornalista Andreia Fanzeres, que coordena o Programa de Direitos Indígenas, Política Indigenista e Informação à Sociedade. 

Portal IMPRENSA - A Amazônia Real tem um programa de treinamento para estudantes de
Jornalismo?
Elaíze Farias - Sim, é um programa permanente, com a contratação de estagiários. Os estagiários são contratados para aprender a fazer jornalismo investigativo. Também são apoiados e incentivados a participar de palestras e debates tanto em Manaus ou em outras cidades, para ajudar na sua formação. 

Portal IMPRENSA - Como você definiria o posicionamento editorial da Amazônia Real?
Elaíze Farias - A Amazônia Real tem como fundamento jornalístico e prioridade a visibilidade dos grupos sociais que encontram pouco espaço em mídias tradicional, sobretudo nas corporações da grande imprensa. A contribuição que desenvolvemos está no exercício de um jornalismo de justiça social, ético, democrático e de espaço para esses grupos sociais invisibilizados na maioria da imprensa tradicional ou nos espaços públicos. Observamos que há uma cobertura jornalística muito desigual sobre temas como hidrelétricas, mineração, garimpo, agronegócio, flexibilização de direitos territoriais, especulação de terra, grilagem etc, atividades que impactam a vida das populações mais marginalizadas, a Amazônia Real escolheu visibilizar esses grupos sociais. Importante destacar, porém, que a Amazônia Real nunca deixa de ouvir todos os personagens envolvidos nas reportagens. Quando publicamos uma matéria com relatos e denúncia de contaminação causada por minerais, ouvimos as empresas apontadas como causadoras, por exemplo. Procuramos os órgãos competentes e as autoridades responsáveis pela demanda e damos o espaço adequado e justo para todos darem suas versões. Na Amazônia Real as narrativas começam pelas personagens e suas histórias. Essas personagens invisíveis é que nos levam a apurar e investigar as reportagens. Isso foi possível porque criamos um projeto com autonomia e liberdade nas escolhas dos temas a serem abordados, respaldadas na honestidade e no comprometimento com os grupos sociais com os quais escolhemos dar prioridade em nossas reportagens. São prioridades, por exemplo, a questão do reconhecimento do território tradicional, a preservação da cultura, a educação, a saúde, etc. Na questão agrária, a ênfase está nos conflitos da regularização das terras das comunidades ribeirinhas, as ameaças aos defensores de direitos humanos, a mobilização das populações em defesa de seus direitos, entre outros. Na política, são abordadas as irregularidades nas contas públicas, abuso de autoridade, violação de direitos, imigração, a defesa da liberdade de expressão e de imprensa, além da segurança. Na área de economia, o enfoque está nas iniciativas das populações tradicionais nos negócios sustentáveis. Outro diferencial da Amazônia Real é não deixar que temas relevantes, voltados às questões amazônicas, sejam esquecidos. Por exemplo, acompanhamos processos judiciais até que a ação seja decidida nos tribunais. Também fazemos o acompanhamento de etnias indígenas em situação de alta vulnerabilidade social, como o povo indígena Juma, cujo território fica no município de Canutama, no sul do Amazonas, e os Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. No caso dos Guarani-Kaiowá, há um diferencial. Eles não vivem na região amazônica, mas enfrentam intensa violação de direitos e violência. Por isso, decidimos fazer uma cobertura dos conflitos que eles mesmos narram, suas histórias e atos de discriminação que sofrem da polícia e da mídia local.

Portal IMPRENA - Como tem sido o trabalho de vocês a partir do início do governo Bolsonaro?
Elaíze Farias - O ambiente social e político no Brasil sob o governo de Jair Bolsonaro tem passado por um ataque sem precedentes desde a reabertura democrática, com o fim da ditadura militar. A região Amazônica tem sido um dos principais alvos de Bolsonaro, como já se previa desde suas eleições. Os ataques contra a Amazônia e seus povos são múltiplos e simultâneos, trazendo consequências graves e imediatas. A floresta amazônica, da qual grande parte da população da região depende, é alvo de madeireiros, pecuaristas, fazendeiros e garimpeiros ilegais e mineradoras. Há uma mobilização sincronizada dos inimigos da floresta e das populações locais. Como jornalistas que atuam e moram na Amazônia, temos consciência que o clima de tensão e perigo tende a intensificar. Os riscos são maiores porque produzimos nosso trabalho e continuamos no mesmo local, seja nas cidades do interior dos estados da Amazônia ou nas capitais (diferente dos que chegam, fazem suas apurações e retornam para sua região de origem). Até o momento, porém, ainda não tivemos nenhuma alteração mais significativa na execução de nosso trabalho. Procuramos tomar medidas preventivas para evitar qualquer ameaça, seja física ou virtual, ações que já tomamos em anos anteriores e que passamos a fortalecer mais neste atual momento.

Portal IMPRENSA - Estão sofrendo algum tipo de pressão/ameaças? Houve mudanças no cotidiano do trabalho dos jornalistas? Se sim, quais?
Elaíze Farias - Como falei na resposta anterior, quem mora e atua na Amazônia se habituou a se resguardar e a tomar medidas preventivas no trabalho. Na realidade, na Amazônia, os mais ameaçados de morte são os defensores ambientais; os indígenas que lutam para defender seus territórios, seus saberes e cultura; os quilombolas; os povos tradicionais (trabalhadores rurais, ribeirinhos). Mas destaco que este cenário apresentado é de 2019. Estamos sempre preparadas para o que possa acontecer nos meses que virão, especialmente com o aumento de nossas produções a partir de 2020. 

Portal IMPRENSA - Qual o perfil do jornalista que trabalha com vocês?
Elaíze Farias - Trabalhamos com o conceito de equidade étnica e de gênero, incentivando o protagonismo de grupos sociais muitas vezes marginalizados. Temos sempre um número equilibrado entre mulheres e homens trabalhando para a agência. Todos os profissionais são remunerados e os valores das bolsas reportagens são iguais para mulheres e homens. Nossa equipe é formada por profissionais negros, indígenas e queremos abrir vagas para pessoas LGBT e trans e portadores de deficiência. Priorizamos, obviamente, a qualidade e o preparo dos profissionais, além da postura diante das injustiças sociais. Queremos que sejam repórteres com capacidade de apuração e boa escrita, que saibam ouvir e tenham capacidade de questionar. Que também sejam inquietos, curiosos, sem preconceito; que sejam livres de estereótipos sobre a região e sua população e que não reproduzam a visão estigmatizada que muitos jornalistas possuem sobre as populações da Amazônia.

Portal IMPRENSA - Como funcionam as parcerias com outras agências de notícias e coletivos de jornalistas, como InfoAmazônia, Pública e Agência EFE?
Elaíze Farias - Realizamos parceiras com outras mídias digitais de jornalismo independente para produzir reportagens de interesse da sociedade, como violação de direitos, desigualdades, justiça social, ameaças aos direitos humanos, aos defensores da floresta e a liberdade de expressão. Uma das parcerias foi com as mídias #Colabora e Ponte Jornalismo com a série de reportagens Sem Direitos, que foi a vencedora da categoria Multimídia do 41º Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. A série, que conta histórias de brasileiros que não têm acesso aos direitos básicos garantidos pela Constituição brasileira, reuniu jornalistas do Amazonas, Pará, Rio de Janeiro e São Paulo. De autoria da jornalista Adriana Barsotti, do #Colabora, a série contou com a participação de Carolina Moura, Catarina Barbosa, Edu Carvalho e Fausto Salvadori, com imagens e vídeos de Daniel Arroyo, Pedrosa Neto e Yuri Fernandes e infográficos de Fernando Alvarus.