Yasmin Santos conta como seu TCC sobre racismo na imprensa brasileira virou capa da Piauí

Leandro Haberli | 20/11/2019 11:52
Nascida em Niterói (RJ), a jornalista Yasmin Santos, 21 anos, cresceu no Jardim Palmares, situado no bairro Paciência, próximo a Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro. Formada na UFRJ em julho deste ano, ela entrou na revista Piauí em março de 2018 como estagiária. Em outubro último, assinou a reportagem de capa da edição.

Sobre a presença de jornalistas negros nas redações do país, o trabalho ocupou um dos espaços mais nobres do jornalismo impresso brasileiro. "Eu sabia que teria destaque na revista. Mas a princípio essa não seria a reportagem principal da edição. Se não me engano, a intenção era que a capa fosse um perfil da Joice Hasselmann", lembra Yasmin. 

A pauta sobre representatividade racial na imprensa brasileira surgiu do TCC que a então estudante de jornalismo fez a partir de entrevistas com 47 jornalistas negros de veículos impressos de quatro regiões do país (nordeste, centro-oeste, sudeste e sul). O foco em veículos impressos, explica Yasmin, teve a intenção de abordar a diversidade dentro do jornalismo quando "não se vê o repórter".  
Crédito: Arquivo Pessoal
Yasmin Santos: veículos jornalísticos poderiam se beneficiar se adotassem políticas de diversidade racial

Por sua vez, a ideia de fazer um trabalho de conclusão de curso de jornalismo sobre racismo na imprensa brasileira surgiu quando, na condição de primeira jornalista negra contratada da revista Piauí, Yasmin sentiu-se sozinha, isolada. Assim, o impacto psicológico causado pela ausência de colegas negros no dia a dia de trabalho foi uma espécie de impulso para a escolha do tema. 

Além da baixa representatividade de jornalistas negros nos veículos impressos do país e da ausência desses profissionais em cargos de chefia, o trabalho revelou que muitos jornalistas negros são mais cobrados quando erram e acabam limitados a desempenhar o papel de "setoristas de negritude", isto é, só podem escrever sobre questão racial, mesmo que sejam especializados em outros assuntos. 

"33% dos entrevistados relataram esse tipo de situação", diz Yasmin, informando que, dentre os 47 jornalistas entrevistados, com idade entre 22 e 62 anos, nenhum relatou ter passado por veículo com política de diversidade racial.

A bibliografia do TCC que virou capa da Piauí tem entre seus destaques o livro Espelho Infiel: o negro no jornalismo brasileiro, que traz uma coletânea de artigos sobre o tema. Yasmin também recorreu a uma edição da Columbia Journalism Review sobre questões raciais no jornalismo.  Este trabalho, ela conta, abordou inclusive as perdas econômicas que a falta de representatividade racial ocasiona ao jornalismo. 

Nesse contexto, um caso destacado por Yasmin de como a diversidade pode beneficiar veículos de imprensa é o da Teen Vogue, versão para adolescentes da tradicional revista de moda e comportamento. Ao promover a jornalista negra Elaine Welteroth ao cargo de editora-chefe, a publicação teria ampliado seu público. 

Entre as mudanças editoriais promovidas por Elaine, Yasmin destaca uma maior cobertura de política e do governo Trump. "Essa seção se tornou a mais acessada da revista. Isso mostra que existe interesse sobre questões de diversidade até entre o  público adolescente", afirma Yasmin, lembrando que, mesmo sendo assumidamente radical e defendendo pautas como abolicionismo penal, a ativista anti-racismo Ângela Davis é hoje uma "intelectual pop".