Após greve e demissões, jornalistas alagoanos se unem para criar novas mídias

Kassia Nobre | 12/11/2019 10:21
Após um cenário de greve e demissões, os jornalistas alagoanos decidiram se unir para criar novas formas de comunicação na capital e no interior do estado. 

Em junho deste ano, jornalistas dos principais veículos de comunicação de Alagoas entraram em greve contra a proposta de redução de 40% do piso salarial. Após nove dias de paralisação, muitos profissionais que aderiram ao movimento grevista foram demitidos.
  
“A gente fez o processo consciente que poderia ter retaliação e assim aconteceu. Porém, o sentimento de união ficou muito forte depois deste processo. Aí surgiram algumas ideias”, explica o jornalista Oscar de Melo. 

O jornalista está na equipe da recém-criada empresa de mídia Acta, multiplataforma de produção de conteúdo jornalístico que atuará, inicialmente, na internet.    

“Vem sendo um momento de muita união. Já é uma empresa que está se estruturando através de parcerias e que abriga hoje mais de 30 profissionais da área. Vai atuar inicialmente na internet com trabalho nas redes sociais, blog de notícias e programação ao vivo. Vamos fazer uma TV na internet com conteúdo de qualidade e de forma inovadora já que não temos isso em Alagoas”, explica. 

Oscar afirma ainda que a expectativa do Acta é que a equipe possa crescer e abraçar outros profissionais. Além de promover uma interatividade maior com os alagoanos. 

“A gente quer mostrar que existe jornalismo fora das grandes empresas. A turma está com muita vontade de fazer jornalismo e ficou ainda mais motivada depois deste processo de demissão”.


Crédito:Divulgação Acta



TV Liberdade  
Já no município de Arapiraca, interior de Alagoas, um grupo de jornalistas e radialistas criaram a TV Liberdade que atuará na internet. A jornalista Priscila Anacleto explica que, diante das demissões e fechamento da sucursal da TV Gazeta no interior, recebeu muitos comentários do público lamentando a situação.   
 
“No dia das demissões e fechamento da Sucursal em Arapiraca, fiz uma postagem informando a população sobre a situação. Foram muitos comentários lamentando as demissões. Além de pedidos para que o Jornalismo simplesmente não virasse as costas para o interior alagoano”. 

Diante disso, surgiu a TV Liberdade com o objetivo de cobrir eventos no interior de Alagoas e mostrar uma programação com uma abordagem regional e, sobretudo, educativa.

“Jornalismo, Educação, Respeito. Assim mesmo, com as iniciais maiúsculas. A gente até comenta que os pais ficarão mais tranquilos se os filhos disserem que estão olhando a TV Liberdade AL no YouTube. Porque saberão que aqui tem material educativo e de entretenimento sadio. Este projeto nasceu de um sonho. E quando todos começaram a sonhar juntos, saiu do abstrato e passou a ser real”.

Crédito:Divulgação TV Liberdade

Mídia Caeté
A jornalista Wanessa Oliveira explica que mídia Caeté também surgiu do momento pós-greve e teve influência de veículos como Agência Pública e Marco Zero. 

“No meio dessa situação, lançamos uma ideia de construção de veículo independente e algumas pessoas manifestaram interesse.  Buscamos o surgimento de algumas iniciativas importantes a quem temos como referência – como  a Agência Pública e  a Marco Zero.  Foram muitas reuniões. Percebemos o quanto nossos pensamentos se confluíam no que era fundamental: queríamos fazer jornalismo que de fato atendesse e andasse junto com o povo, e com a responsabilidade profissional a qual aprendemos ainda durante nosso curso na universidade. Nesse sentido, foi claro que construir um outro tipo de relação de trabalho também nos possibilitaria entregar um produto muito diferente, melhor, daí a ideia da cooperativa”.

Crédito:Divulgação Caeté

Segundo Wanessa, a Mídia Caeté será uma plataforma de jornalismo investigativo, comunitário e independente.

“Acho que, nesse sentido, os alagoanos podem contar com um jornalismo de caráter mais investigativo. Checar os dados, buscar fontes consistentes, não deixar a pressa comprometer a apuração ética e rigorosa, tem sido o cartilha que estamos rezando. Vamos abdicar das ‘hard news’, das notícias em tempo real, porque queremos garantir essas reportagens mais trabalhadas.  Quando dissemos que atuaremos também no âmbito comunitário, significa que é deste lado que estaremos, focando nos interesses das comunidades, e também buscando as boas histórias, ideias, e experiências”, explica. 

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